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domingo, 21 de outubro de 2012

79-OS CISMAS DA IGREJA DO ORIENTE E OCIDENTE

Cisma do Oriente   

No século XI um conflito de interesses entre a Igreja Católica do Ocidente e a do Oriente determinou o Cisma do Oriente. O evento estabeleceu o rompimento dentro da Igreja, ambos os lados passaram a defender suas próprias doutrinas, o que persiste até hoje.
Desde o Império Romano e durante a Idade Média a Igreja Católica possuía duas sedes principais, uma localizada em Roma, no Ocidente, e outra na cidade de Constantinopla, no Oriente. Ainda durante o poderio do Império Romano ficou estabelecido e acordado entre as duas partes da Igreja que a capital do Império seria Roma. Mesmo a Igreja do Oriente concordando com a decisão, havia certo ressentimento por conta de algumas exigências jurídicas que os papas insistiam em fazer. Tais exigências foram mais marcantes durante o papado de Leão IX que durou de 1048 até 1054, sendo que seus seguidores preferiram por continuar com suas determinações. A Igreja do Ocidente se opunha também ao sistema adotado no Oriente de cesaropapismo bizantino, que consistia na subordinação da Igreja Oriental a um chefe secular.
As desavenças existentes entre as Igrejas de Roma e de Constantinopla geraram vários conflitos ideológicos. Ainda durante o Império Romano, o patriarca Fócio condenou a inclusão do filioque no Credo da Cristandade Ocidental sob a acusação de heresia. A atitude que envolvia as questões disciplinares e litúrgicas da Igreja foi responsável por uma grave e primeira ruptura que ocorreu entre Ocidente e Oriente Católicos entre os anos de 456 e 867.
Ao longo dos séculos as duas Igrejas cultivaram desigualdades culturais e políticas que através de vários enfrentamentos chegaram a causar a divisão do próprio Império Romano entre Ocidental e Oriental, como aconteceu no século IV.
Situações culturais, políticas e sociais fizeram com que as duas Igrejas desenvolvessem suas características próprias, no Ocidente as invasões bárbaras marcaram uma nova fase, gerando uma nova estruturação a partir do fim do Império Romano. Enquanto isso, no Oriente as tradições do mundo clássico permaneceram presentes na sociedade e na Igreja cultivando a cristandade helenística. A Igreja do Ocidente teve muito contato com a influência e presença dos povos germanos, já a Igreja do Oriente carregou a tradição e o rito grego e integrou especialmente o Império Bizantino.
Foi no segundo milênio que as diferenças e enfrentamentos se acentuaram. No ano de 1043 assumiu a Igreja Bizantina o patriarca Miguel Cerulário, sob sua liderança foi desenvolvida uma campanha que pregava contra as Igrejas Latinas na cidade de Constantinopla. O combate proposto pelo novo patriarca envolvia questões teológicas que versavam sobre o Espírito Santo. Anos mais tarde, em 1054, Roma providenciou o envio do Cardeal Humberto à Constantinopla para tentar entender a crise e solucionar o problema. Entretanto a crise entre os cristãos já havia tomado lugar, como resultado da discussão o Cardeal Humberto decidiu por excomungar o patriarca Miguel Cerulário. O ato do Cardeal foi entendido como extensivo a toda a Igreja Bizantina, que por sua vez reagiu excomungando o papa Leão IX. Configurava-se o Cisma do Oriente, também chamado de O Grande Cisma do Oriente, que daria origem à Igreja Ortodoxa, no Oriente, e a Igreja Católica Apostólica Romana, no Ocidente.
Várias foram as tentativas de reunificar a Igreja, dentre as quais cabe destacar os Concílios Ecumênicos de Lyon em 1274 e de Florença em 1439. Por alguns momentos as duas Igrejas estiveram reunidas novamente, mas sempre por muito pouco tempo. A separação fez com que a cidade de Constantinopla fosse tomada pelos otomanos em 1453 resultando na dominação do Império Bizantino por muito tempo. Somente no dia 7 de dezembro de 1965 que o papa Paulo VI e o patriarca Atenágoras I tentaram aproximar as duas Igrejas novamente levantando a questão das excomunhões, que por sua vez foram retiradas no ano seguinte por ambas as Igrejas.
Na prática os ortodoxos seguem sacramentos típicos da Igreja Ocidental, mas não acreditam na existência do purgatório ou na infalibilidade do papa. Trata-se de uma outra corrente religiosa dentro do cristianismo e dentro do próprio catolicismo, só recentemente as duas partes retomaram os diálogos tentando de alguma forma sanar o Cisma.
O Cisma do Oriente, também chamado de Grande Cisma ou Cisma Ocidente-Oriente, foi o cisma que separou definitivamente a Igreja Católica Apostólica em Igreja Católica Romana e a Igreja Ortodoxa. O cisma ocorreu no século XI, mais especificamente no ano de 1054[1][2], na cidade de Constantinopla.

Índice


Motivos do Cisma

O distanciamento entre as duas Igrejas cristãs tem formas culturais e políticas muito profundas, cultivadas ao longo de séculos. As tensões entre as duas igrejas datam no mínimo da divisão do Império Romano em oriental e ocidental, e a transferência da capital da cidade de Roma para Constantinopla, no século IV.
Uma diferença crescente de pontos de vista entre as duas igrejas resultou da ocupação do oeste pelos outrora invasores bárbaros, enquanto o leste permaneceu herdeiro do mundo clássico. Enquanto a cultura ocidental foi-se paulatinamente transformando pela influência de povos como os germanos, o Oriente permaneceu desde sempre ligado à tradição da cristandade helenística. Era a chamada Igreja de tradição e rito grego. Isto foi exacerbado quando os papas passaram a apoiar o Sacro Império Romano no oeste, em detrimento do Império Bizantino no leste, especialmente no tempo de Carlos Magno. Havia também disputas doutrinárias e acordos sobre a natureza da autoridade papal.
A Igreja de Constantinopla respeitou a posição de Roma como a capital original do império, mas ressentia-se de algumas exigências jurisdicionais feitas pelos papas, reforçadas no pontificado de Leão IX (1048-1054) e depois no dos seus sucessores. Para além disso, existia a oposição do Ocidente em relação ao cesaropapismo bizantino, isto é, a subordinação da Igreja oriental a um chefe secular, como acontecia na Igreja de Bizâncio.
Uma ruptura grave ocorreu de 856 a 867, sob o patriarca Fócio, este sabia que contribuía para aumentar o distanciamento entre gregos e latinos, e usou a questão do filioque como ponto de discórdia, condenou a sua inclusão no Credo da Cristandade ocidental e lançou contra ela a acusação de heresia. Desse modo, para o futuro as pendências não seriam apenas de natureza disciplinar e litúrgica, mas também de natureza dogmática, com o que se comprometia de modo quase irremediável a unidade da igreja.

O Cisma

Quando Miguel Cerulário se tornou patriarca de Constantinopla, no ano de 1043, deu início a uma campanha contra as Igrejas latinas na cidade de Constantinopla, envolvendo-se na discussão teológica da natureza do Espírito Santo, questão que viria a assumir uma grande importância nos séculos seguintes.
Roma enviou o Cardeal Humberto a Constantinopla em 1054 para tentar resolver este problema. No entanto, esta visita acabou do pior modo, com a excomunhão do patriarca Miguel Cerulário, um ato entendido como a excomunhão de toda a Igreja bizantina e ao qual o Sínodo e Cerulário responderam do mesmo modo a Roma, excomungando o papa Leão IX. As Igrejas, através de seus representantes oficiais, também anatematizaram (denunciaram formalmente) uma à outra.
A deterioração das relações entre as duas Igrejas contribuiu largamente para o episódio do saque de Constantinopla durante a quarta Cruzada (1204) e o estabelecimento do Império Latino (Ocidental) que durou 55 anos. Isso aprofundou ainda mais a ruptura e a desconfiança mútua.
Houve várias tentativas de reunificação, principalmente nos Concílios Ecumênicos de Lyon (1274) e Florença (1439), mas as reuniões mostraram-se efêmeras. Estas tentativas acabaram efetivamente com a queda de Constantinopla em mãos dos otomanos, em 1453, que ocuparam quase todo o antigo Império Bizantino por muitos séculos. As mútuas excomunhões só foram levantadas em 7 de Dezembro de 1965, pelo Papa Paulo VI e o Patriarca Atenágoras I, por forma a aproximar as duas Igrejas, afastadas havia séculos. As excomunhões, entretanto, foram retiradas pelas duas Igrejas em 1966. Somente recentemente o diálogo entre elas foi efetivamente retomado, a fim de tentar sanar o cisma.
Cisma do Ocidente

O grande Cisma do Ocidente ocorreu entre 1378 e 1417. Já anteriormente tinham ocorrido divisões na Igreja Católica mas nenhuma delas com esta importância.
De 1308 a 1378 os papas deixaram Roma para se fixarem em Avinhão (Sul de França), inaugurando um período designado por "Cativeiro de Avinhão". Nesta altura, a autoridade e o prestígio dos papas tinha decaído na Europa e, ao contrário dos séculos anteriores, não tinham autoridade para intervir nos assuntos da política internacional e, a nível interno de cada um dos reinos, essa ingerência era cada vez mais limitada.
Após a morte de Gregório XI, o conclave formado por 16 cardeais foi pressionado pelo povo que exigia um papa romano ou italiano. Foi eleito o arcebispo de Bari que tomou o nome de Urbano VI. Apesar dos tumultos aquando da eleição, nada fazia prever o cisma. A 9 de agosto de 1378 os cardeais assinaram um documento declarando a eleição nula e a 20 de setembro elegeram o cardeal de Genebra que tomou o nome de Clemente VII. Ambos os papas se declararam legítimos e excomungaram-se mutuamente. Consumou-se assim o cisma - Urbano VI ficou em Roma e Clemente VII instalou-se em Avinhão. A Urbano VI sucederam Bonifácio IX (1389-1404), Inocêncio VII (1404-1406) e Gregório XII (1406-1415). A Clemente VII sucedeu Bento XIII (1406-1423). O mundo católico dividiu-se entre apoiantes de Urbano VI e apoiantes de Clemente VII, de acordo com as alianças políticas ditadas pela Guerra dos Cem Anos. Clemente VII foi apoiado pelos reinos da França, Nápoles e mais tarde por Castela, Aragão, Lorena e Escócia. O imperador da Alemanha, o rei da Inglaterra e o conde da Flandres apoiaram Urbano VI.Foram tentados vários processos para terminar com o cisma que ninguém queria. Um dos processos foi o Concílio de Pisa. Este concílio depôs ambos os papas e elegeu Alexandre V (1409-1410) a quem sucedeu João XXIII (1410-1415). A deposição não foi, no entanto, aceite e a partir desta altura coexistiram três papas. Em 1415, pelo Concílio de Constança, foi finalmente restabelecida a unidade religiosa. João XXIII foi deposto e aceitou humildemente a decisão, Gregório XII abdicou voluntariamente e Bento XIII foi excomungado. Em 1417 foi eleito Martinho V que toda a Igreja reconheceu como sendo o papa legítimo. O sucessor de Bento XIII, Clemente VIII, renunciou e terminou assim definitivamente com o cisma.
Portugal apoiou o papa que mais convinha às suas alianças políticas. Manteve uma posição neutral até 1380, e em janeiro deste ano D. Fernando anunciou, em Évora, a sua adesão a Avinhão. A renovação da aliança portuguesa com Inglaterra levou a que em 1381 D. Fernando declarasse que reconhecia Urbano VI como sendo o papa legítimo. Após a morte de D. Fernando e com a crise de nacionalidade que se lhe seguiu, Portugal manteve-se fiel a Urbano VI, acusando os castelhanos de serem hereges e cismáticos por apoiarem Avinhão. A fidelidade portuguesa a Roma manteve-se até ao Concílio de Pisa, altura em que D. João I, acompanhando a posição da maioria dos países católicos, reconheceu o papa saído deste concílio.

 
O Grande Cisma da Igreja



Um Exame da Igreja Ortodoxa em sua Formação e nos Dias de Hoje
Introdução
O tema do nosso artigo é "O Grande Cisma da Igreja". Existem, na realidade dois episódios na história da igreja que disputam este título: O primeiro, que é o alvo do nosso exame, é a divisão ocorrida em 1054, no seio da igreja Cristã, entre a ala oriental e ocidental, que gerou a chamada Igreja Ortodoxa, ou Grega-ortodoxa. O outro cisma, algumas vezes classificado como "o grande", ocorreu séculos depois, em 1378 a 1417, quando a Igreja Católica teve dois papados - um em Roma e o outro na França.
Os acontecimentos na história da Igreja que vamos examinar, parecem apenas fruto de política e dissensão interna. No entanto, não podemos nos esquecer que o Islamismo surgiu exatamente alguns séculos antes do Grande Cisma. A ameaça externa dos seguidores de Maomé teve muito a ver com o desenrolar dos eventos. É, portanto, aconselhável que tenhamos uma boa compreensão histórica do Islamismo, pois desde o seu início ele tem se constituído numa das maiores ameaças ao cristianismo, como está demonstrado sem sombras de dúvidas, em nossos dias.
Queremos também compreender o gradual afastamento da igreja da singeleza doutrinária que marcou os escritos dos apóstolos e a igreja primitiva, nos primeiros séculos da era cristã.

1. O Império Romano que Não era Romano.
Vamos começar nosso estudo no ano 800 - um ano "redondo" mas crucial na história do mundo e da igreja. No Natal deste ano o papa Leão III coroou Carlos Magno como o primeiro imperador do Santo Império Romano. Acontece que esse império não era "romano" pois o poder imperial político de Roma não mais existia. A tentativa era estabelecer uma sucessão ao Império Romano e costurar uma aliança com a igreja, mas o centro do poder, agora, era a região que seria, mais tarde, conhecida como a Alemanha. Carlos Magno era o rei dos Francos - designação de várias tribos de "bárbaros" que habitavam a margem direita do rio Reno.
O papado estabeleceu uma aliança plena com o novo imperador - cada um exerceria o domínio em sua própria esfera e cooperariam com os interesses um do outro. Esse conceito teria reflexos a longo prazo na história da Europa. Durante o próximo milênio vários imperadores desfilaram os seus exércitos no solo europeu, esforçando-se para se estabelecerem como legítimos sucessores dos Césares romanos - até que, em 1806, Napoleão aboliu formalmente o "Santo Império Romano" - que, na época, virtualmente compreendia apenas a Alemanha.
Alguns anos antes em Constantinopla (onde atualmente encontramos a cidade de Istambul, na Turquia), o imperador Leão Isauriano confrontara o perigo dos exércitos islâmicos e fora bem sucedido em evitar uma invasão. O império bizantino foi se consolidando e, carregando consigo a ala oriental da igreja, expandiu sua influência desde a Grécia até a Arábia. Assim, na parte leste, ou oriental, a igreja era liderada por um patriarca, em Constantinopla (conhecida depois como ramo grego ortodoxo); e na parte oeste, ou ocidental, a liderança era exercida pelos papas, em Roma (conhecida depois como ramo católico romano).

2. No meio das conturbações políticas a Igreja se Expande.
Carlos Magno conseguiu controlar o território da França, Alemanha, Suíça e Itália. Seus três filhos não conseguiram manter a regência conjunta e o Império foi repartido e enfraquecido. Eventualmente, a Europa transformou-se em vários principados independentes e antagônicos entre si. Isso contribuiu para que o papado readquirisse alguma força política e geográfica. O período de 800 até o ano de 1073, entretanto, marca uma era de forte aliança entre igreja e estado com a chamada dinastia carolingiana. Nela o papado se desenvolveu e oscilou em poder na medida que os regentes políticos também oscilavam.

O Islamismo começou a mostrar-se também uma ameaça enorme para a igreja ocidental. Durante o papado de João VIII (872-882), por falta de socorro político e militar, ele teve que fazer um tratado humilhante com os maometanos. Para conserva-los longe de Roma, teve de concordar em pagar tributos a eles. Do ano 880 ao ano 1000, a Itália viveu um estado de quase anarquia e o papado refletia essa instabilidade. Já era grande a corrução na igreja e muitos indivíduos desqualificados ocuparam o papado. Por exemplo, no período de apenas 11 anos (882 a 903) existiram 12 papas. Um dos últimos papas desse período, Benedito IX, assumiu o ofício aos doze anos e cometeu muitos desmandos. Surpreendentemente, entretanto, a igreja estendia sua influência territorial atingindo até a Islândia. Nesse período, também, a Boêmia, Hungria e a Polônia se tornaram nações católicas.

Enquanto isso, o ramo oriental da igreja, que tinha a sua sede em Constantinopla, ia se afastando cada vez mais da ala ocidental, enquanto também se expandia, avançando até ao norte. Em 988 o rei Vladimir, da Rússia, foi batizado. Nas duas frentes, a igreja aumentava sua influência política e os dois ramos iam adquirindo características peculiares e diferenciadas entre si.

3. A situação doutrinária e prática das igrejas, no início do segundo milênio.
No início do segundo milênio da Era Cristã, tanto a igreja católica ocidental, liderada por Roma, como a ala oriental, liderada por Constantinopla, já havia incorporado em suas práticas e liturgias vários pontos que seriam questionados de forma incisiva pela Reforma do século XVI. É interessante notarmos, entretanto, que muitas dessas práticas sofreram contestação ao longo de suas introduções e várias deram lugar à separação entre o leste e o oeste, culminando, em 1054, no Grande Cisma.
Desde o ano de 867 circulavam, na igreja oriental, relações de práticas da igreja ocidental romana que eram doutrinariamente contestadas pela ala do leste. Mas a relação mais importante foi escrita pelo patriarca Cerulárius no ano de 1054. Ela era, na realidade, uma reação a uma relação de erros da igreja oriental, que havia sido enviada pelo papa Leão IX, pelo cardeal Humberto. A lista de Cerulárius continha, entre outras coisas: condenava o uso de pão fermentado na eucaristia; condenava a aprovação de qualquer carne para alimentação; condenava a permissão de se barbear; rejeitava as adições sobre o Espírito Santo ao Credo Niceno; condenava o celibato clerical; condenava a permissão de se; etc., etc. No final Cerulárius escreveu: "Portanto, se eles vivem dessa maneira, enfraquecidos por esses costumes; ousando praticar essas coisas que são obviamente fora da lei, proibidas e abomináveis; então poderá qualquer pessoa, em seu juízo são, incluí-los na categoria de ortodoxos? Claro que não".
No final, Humberto, comissionado pelo papa, excomungou Cerulários e Cerulárius excomungou Humberto e o papa, e estava sacramentado o Grande Cisma de 1054.

4. As seis razões principais para o Grande Cisma.
O Cisma, entretanto, não ocorreu em cima de um incidente específico, mas sacramentou uma divisão de doutrina, interesses e estilos que já vinha sendo consolidada ao longo dos últimos séculos. Vejamos seis razões principais para ele ter ocorrido:

A primeira razão foi a controvérsia iconoclástica - que quer dizer uma discordância contra a utilização de imagens. O imperador Leão Iasuriano, no ano 726, emitiu um primeiro decreto contra a utilização de imagens na adoração. Nessa ocasião, isso já era uma prática crescente, trazida do paganismo para o seio da igreja. Ocorre que o Islamismo exerceu intensa pressão, pois acusava a igreja de politeísta. Leão agia por pressão e medo dos maometanos, bem mais do que por convicção. Ele foi apoiado pelo patriarca de Constantinopla, que representava o ramo oriental da igreja, e por muitos da alta hierarquia católica. A maioria dos monges e o povo, em geral, discordavam da proibição e incentivavam a continuidade da utilização de ídolos. O papa Gregório II, em Roma, considerou a proibição uma interferência política (oriunda de Constantinopla) nos assuntos da igreja - especialmente porque ele, distanciado dos maometanos, em Roma, não sentia o problema de perto. O culto às imagens teve livre curso na igreja católica. Criou-se, então, a partir daí uma divisão marcada entre o leste e o oeste. O ponto curioso é que, cerca de 125 depois, a igreja ortodoxa dissociou-se dos que queriam a abolição dos ídolos e adotou uma iconografia pródiga - ou seja, o uso amplo de ilustrações e pinturas na liturgia e na adoração.

A segunda razão foi um conflito com a doutrina da "processão" do Espírito Santo. O Concílio de Nicéia, reafirmando a doutrina do Espírito Santo, havia indicado que Deus Pai havia enviado o Filho e o Espírito Santo. Posteriormente, um sínodo realizado na cidade de Toledo, procurou esclarecer a frase indicando que o Espírito Santo procedia tanto do Pai como do Filho (essa inserção é chamada de cláusula filioque - Latin para "e do filho"). Essa declaração substancia aquilo que entendemos como subordinação econômica, ou seja - enquanto as três pessoas da trindade se constituem em uma só pessoa divina e são iguais em poder, prerrogativas e essência (chamamos isso de trindade ontológica) - no relacionamento com a criação elas se auto-impõem funções diferentes. Nesse sentido, dizemos que existe diferenciação de atividades e eventual subordinação no plano de salvação: o Pai envia; o Filho executa; o Espírito Santo, procedendo tanto do Pai como do Filho, aplica, revela e glorifica ao Filho - não fala de si mesmo (João16.13-14). A ala oriental da igreja, já destacando-se com uma ênfase mística, não aceitava as afirmações sobre o Espírito Santo como uma expressão do trabalho e da pessoa de Cristo, conforme o Credo do Concílio de Nicéia, ampliado em Toledo, veio a ser aceito pela igreja do oeste.

A terceira razão , foi uma falta de predisposição tanto do papa, em Roma, como do Patriarca, em Constantinopla, de se submeterem um ao outro. Até o século nono todos os papas eleitos, em Roma, procuravam confirmação e concordância de suas eleições junto ao Patriarca de Constantinopla - assim procurava manter-se a unidade da ala oriental da igreja, com a ocidental. Gregório III, entretanto, foi o último papa a obter tal confirmação. Em 781 os papas deixaram de mencionar o nome do imperador de Constantinopla em seus documentos.

A quarta razão , é que não existiam limites muito bem estabelecidos, com relação às áreas que deveriam ser regidas por Roma ou por Constantinopla. Os poderes se confundiam, as hierarquias se mesclavam. Isso resultava em constantes fricções relacionadas com a jurisdição de cada ala.

A quinta razão representa as diferenças culturais existentes entre o oriente e o ocidente. Tais diferenças sempre prejudicaram o entendimento e a cooperação entre as duas alas. Pouco a pouco, as diferenças culturais foram se incorporando na liturgia. A igreja oriental foi ficando cada vez mais introspectiva, monástica e mística. A igreja ocidental, mais inovadora e eclética na absorção de práticas pagãs.

A sexta razão é que a igreja oriental se colocava sob o Imperador que regia em Constantinopla, enquanto que a igreja ocidental, naquela ocasião, reivindicava independência da ação do estado e o direito de exercitar regência moral sobre os reis e governantes.

Assim, no ano de 1054 a bula papal de excomunhão do Patriarca foi depositada no altar de Santa Sofia, em Constantinopla. Houve retaliação por parte do patriarca de Constantinopla e o Cisma estava configurado. A partir daí a história se divide e passamos a acompanhar muito mais a história da igreja romana, do que a da igreja Grega Ortodoxa e de suas variações e ramos (Russa Ortodoxa, Maronitas, etc.)

5. A Igreja Ortodoxa Hoje.
A Igreja Ortodoxa é um ajuntamento de igrejas auto-governadas. Elas são administrativamente independentes e possuem vários ramos, embora todas reconheçam a preeminência espiritual do Patriarca de Constantinopla. Elas mantêm comunhão, umas com as outras, embora a vida interna de cada igreja independente seja administrada por seus bispos. Atualmente, existem Igrejas Ortodoxas da Rússia, da Romênia, da Sérvia, da Bulgária, da Geórgia, do Chipre, dos Estados Unidos, etc.
Algumas características doutrinárias e litúrgicas marcam as Igrejas Ortodoxas com mais intensidade:

Tradição : A Igreja Ortodoxa dá enorme importância à tradição. Uma das igrejas, aqui no Brasil, coloca em sua literatura, que "Tradição é a chave para a auto-compreensão". Na compreensão da doutrina da Igreja Ortodoxa, o Espírito Santo inspira não somente a Bíblia, mas também a "tradição viva da igreja".

Misticismo : A Igreja Ortodoxa desenvolveu-se com características bem mais místicas e subjetivas do que o ramo ocidental. Um texto dela diz: " A espiritualidade ortodoxa é, de fato, caracteristicamente monástica, o que significa que todo o cristão ortodoxo tende para a vida monástica".

Ícones : Como já vimos, ironicamente, apesar da ala oriental ter se posicionado contra o culto às imagens, no século oitavo, quando chegou a ocasião do Grande Cisma, ela já havia retornado à prática de veneração e adoração dos ícones. Existem algumas diferenças, com relação à Igreja Romana: Ela só aceita pinturas bidimensionais; imagens tridimensionais são rejeitadas. Essas pinturas devem sempre conter algum elemento místico, como, por exemplo, um halo, ou algo que identifique a divindade; elas não devem simplesmente retratar semelhança humana. Há uma predominância, nas imagens de cenas do nascimento de Cristo, dele com Maria, etc. Tais imagens são beijadas repetidamente pelos fiéis.

Liturgia Rebuscada : A Igreja Ortodoxa se orgulha da "beleza" de sua liturgia. Na realidade, existe um intenso ritualismo e formalismo, na sua adoração. Uma grande aproximação com o formalismo da missa católico romana.

6. Uma Rápida Avaliação da Igreja Ortodoxa.
A importância dada à tradição, não somente diminui a importância da Palavra de Deus, na vida das pessoas e da própria igreja, como chega a subordinar a Bíblia à tradição. Ela afirma que as verdades da salvação são "preservadas na Tradição viva da Igreja" e que as Escrituras são "o coração da tradição". Nesse sentido, consideram também que as suas doutrinas e a "Fé Apostólica" têm sido, no seio da Igreja Ortodoxa, "incólume transmitida aos santos".

Uma publicação da Igreja Ortodoxa diz, textualmente: "As fontes de onde extraímos a nossa Fé Ortodoxa são duas: a Sagrada Escritura e Santa Tradição". Isso contradiz frontalmente a compreensão reformada das Escrituras - Sola Scriptura (somente as Escrituras) foi um dos pilares da Reforma do Século XVI. Nesse sentido, a Igreja Ortodoxa se aproxima muito da Católica Romana.

A Igreja Ortodoxa abriga a idolatria. A alta consideração dada aos ícones, os rituais de beijos e afeição e a sua ampla utilização na vida diária de devoção, demonstram que por mais que se declare uma simples "veneração", não há diferença prática da mera adoração a tais imagens. A rejeição às estátuas não basta para eliminar o câncer da idolatria que persegue a mente carnal, desviando os olhos da intermediação única de Cristo e da simplicidade do culto que deve ser prestado, em espírito e em verdade. Uma publicação da Igreja Ortodoxa diz: "dentro da tradição ortodoxa a palavra ícone assumiu o significado de imagem sagrada". Vemos como a tradição gera a idolatria condenada pela Palavra (Is. 44.9-20)

A visão da Igreja Ortodoxa sobre a pessoa do Espírito Santo, considerando sua obra quase que independente da obra de Cristo, levou ao desenvolvimento de um misticismo que tem a "aparência de piedade", mas que na realidade desvia o foco da pessoa de Cristo Jesus, nosso único mediador entre Deus e os homens. Nesse sentido, ela se aproxima muito de certos segmentos da igreja evangélica contemporânea que têm procurado transformar a fé cristã e a prática litúrgica extraída da Bíblia, em representações místicas da atuação do Espírito, segundo conceitos humanos.

É verdade que a Igreja ortodoxa não aceita a supremacia do papa, e algumas outras práticas da igreja de Roma, mas de uma forma genérica, ela abriga dentro de si muitos dos pontos errados que foram contestados pela Reforma, por terem sido meros frutos do tradicionalismo e não de uma exegese sólida da Palavra de Deus. A Igreja Ortodoxa se orgulha em pregar a unidade, apontando-se a si mesma como a igreja apostólica real, mas a verdadeira unidade se forma ao redor das doutrinas cardeais da fé cristã e não pela tradição.


Fonte:
http://www.infoescola.com
http://www.solanoportela.net

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