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terça-feira, 30 de outubro de 2012

103-SÍNTESE DO N.T

Resumo dos Livros do Novo Testamento

Os Evangelhos
A palavra “Evangelho” vem do grego “evangélion”, que quer dizer “Boa Notícia”. Para os apóstolos era “aquilo que Jesus fez e disse”(At 1,1). É a força renovadora do mundo e do homem.
A Igreja reconhece como canônicos (inspirados por Deus) os quatro Evangelhos: Mateus, Marcos, Lucas e João. Os três primeiros são chamados de “sinóticos” porque podem ser lidos em paralelo, já o de São João é bastane diferente. Existem também evangelhos apócrifos que a Igreja não reconheceu como Palavra de Deus. São os de Tomé, de Tiago, de Nicodemos, de Pedro, os Evangelhos da Infância, etc. Eles contém verdades históricas junto narrações fantasiosas e heresias.
Os evangelhos são simbolizados pelos animais descritos em Ez 1,10 e Ap 4,6-8: o leão (Marcos), o touro (Lucas), o homem (Mateus), a águia (João). Foi a Tradição da Igreja nos séculos II a IV que tomou esta simbologia tendo em vista o início de cada evangelho. Mateus começa apresentando a genealogia de Jesus (homem); Marcos tem início com João no deserto, que é tido como morada do leão; Lucas começa com Zacarias a sacrificar no Templo um touro, e João começa com o Verbo eterno que das alturas desce como uma águia para se encarnar.
Jesus pregou do ano 27 a 30 sem nada deixar escrito, mas garantiu aos Apóstolos na última Ceia, que o Espírito Santo os faria “relembrar todas as coisas” (Jo14, 25) e lhes “ensinaria toda a verdade” (Jo 16,13). Desta promessa, e com esta certeza, a Igreja que nasceu com Pedro e os Apóstolos, sabe que nunca errou o caminho da salvação. De 20 a 30 anos após a morte de Jesus os Apóstolos sentiram a necessidade de escrever o que pregaram durante esses anos, para que as demais comunidades fora da Terra Santa pudessem conhecer a mensagem de Jesus.
O Evangelho de Mateus – é o primeiro que foi escrito, em Israel e em aramaico, por volta do ano 50. Serviu de modelo para Marcos e Lucas. O texto de Mateus foi traduzido para o grego, tendo em vista que o mundo romano da época falava o grego. O texto aramaico de Mateus se perdeu. Já no ano 130 o Bispo Pápias, da Frígia, fala deste texto.
Também Santo Irineu (†200), que foi discípulo de S. Policarpo, que por sua vez foi discípulo de S. João evangelista, fala do Evangelho de Mateus, no século II.
Comprova-se aí a historicidade do Evangelho de Mateus. Ele escreveu para os judeus de sua terra, convertidos ao cristianismo. Era o únicos dos apóstolos habituado à arte de escrever, a calcular e a narrar os fatos. Compreende-se que os próprios Apóstolos do tenham escolhido para esta tarefa. O objetivo da narração foi mostrar aos judeus que Jesus era o Messias anunciado pelos profetas, por isso, cita muitas vezes o Antigo Testamento e as profecias sobre o Messias. Como disse Renan, o evangelho de Mateus tornou-se “o livro mais importante da história universal”.
O Evangelho de Marcos – S. Marcos não foi apóstolo, mas discípulo deles, especialmente de Pedro, que o chama de filho (1Pe 5,13). Foi também companheiro de S. Paulo na primeira viagem missionária (At 13,5; Cl 4, 10; 2Tm 4,11). O testemunho mais antigo sobre a autoria do segundo evangelho, é dado pelo famoso bispo de Hierápolis, na Ásia Menor, Pápias (†135).
O Evangelho de Lucas – Lucas não era judeu como Mateus e Marcos (isto é interessante!), mas pagão de Antioquia da Síria (Cl 4, 10-14). Era culto e médico. Ligou-se profundamente a S. Paulo e o acompanhou em trechos da segunda e terceira viagem missionária do apóstolo (At 16, 10-37; 20,5-21). No ano de 60 foi para Roma com Paulo (At 27,1-28) e ficou com ele durante o seu primeiro cativeiro (Cl 4, 14; Fm 24) e acompanhou Paulo no segundo cativeiro (2Tm 4,11). A Tradição da Igreja dá seguinte testemunho deste Evangelho.
O texto foi escrito em grego, numa linguagem culta e há uma afinidade com a linguagem e a doutrina de S. Paulo. foi escrito por volta do ano 70. Como escreveu para os pagãos convertidos ao cristianismo, não se preocupou com o que só interessava aos judeus.
Mateus mostra um Jesus como Mestre notável por seus sermões – o novo Moisés, Marcos o apresenta como o herói admirável ( o Leão da tribo de Judá – Ap 5,5), Lucas se detém mais nos traços delicados e misericordiosos da alma de Jesus. É o evangelho da salvação e da misericórdia. É também o evangelho do Espírito Santo e da oração. E não deixa de ser também o evangelho da pobreza e da alegria dos pequenos e humildes que colocam a confiança toda em Deus.
O Evangelho de João – S. João era filho de Zebedeu e Salomé (cf. Mc 15,40) e irmão de Tiago maior (cf. Mc 1, 16-20). Testemunhou tudo o que narrou, com profundo conhecimento. É o “discípulo que Jesus amava” (Jo 21,40). Este evangelho foi escrito entre os anos 95 e 100 dC., provavelmente em Éfeso onde João residia. João não quis repetir o que os três primeiros evangelhos já tinham narrado, mas usou essas fontes. Escreveu um evangelho profundamente meditado e teológico, mais do que histórico como os outros. Contudo, não cedeu a ficções ou fantasias sobre o Mestre, mostrando inclusive dados que os outros evangelhos não tem. Apresentando essa doutrina ele quis fortalecer os cristãos contra as primeiras heresias que já surgiam, especialmente o gnosticismo que negava a verdadeira encarnação do Verbo. Cerinto e Ebion negavam a divindade de Jesus, ensinando a heresia segundo a qual o Espírito Santo descera sobre Jesus no batismo, mas o deixara na Paixão. É um evangelho profundamente importante para a teologia dogmática e sacramental especialmente.
Os Atos dos Apóstolos
Não há dúvida de que foi escrito por S. Lucas, médico e companheiro de S. Paulo. Conta a história da Igreja, desde Pentecostes, guiada pelo Espírito Santo, até chegar em Roma com S. Pedro e S. Paulo.
Teofilacto (†1078) dizia que: Os evangelhos apresentam os feitos do Filho, ao passo que os Atos descrevem os feitos do Espírito Santo”.
O livro se divide em duas partes: uma que é marcada pela pessoa de Pedro (At 1 a 12), e a outra marcada por Paulo (At 13 a 28) . Pedro leva o evangelho de Jerusalém à Judéia e à Samaria, chegando até a conversão marcante do primeiro pagão, batizado, Cornélio (At 10,1-11), o que abriu a porta da Igreja para os não judeus. Paulo promove a evangelização dos gentios mediante três viagens missionárias de grande importância. O capítulo 15 é a ligação entre as duas partes do livro, mostrando Pedro e Paulo juntos em Jerusalém, no ano 49, no importante Concílio de Jerusalém, que aboliu a circuncisão e reconheceu que o Reino de Deus é para toda a humanidade.
O testemunho mais antigo de que Lucas é o autor dos Atos é o chamado cânon de Muratori, do século II, que afirma:
“As proezas de todos os apóstolos foram escritas num livro. Lucas, com dedicatória ao excelentíssimo Teófilo, aí reconheceu todos os fatos particulares que se desenrolaram sob seus olhos e os pôs em evidência deixando de lado o martírio de Pedro e a viagem de Paulo da Cidade (Roma) rumo à Espanha.”
Notamos que o início de Atos dá uma sequência lógica ao final do evangelho de Lucas, e ambos são dedicados a Teófilo, além de que o estilo e o vocabulário são parecidos. Segundo São Jerônimo (348-520) os Atos foram escritos em Roma, quando Lucas estava alí ao lado de Paulo prisioneiro, em grego, por volta do ano 63.
Os Atos dos Apóstolos são portanto o primeiro livro de História da Igreja nascente, escrito por uma testemunha ocular dos fatos, que os narrou de maneira precisa e sóbria. Aí podemos conhecer o rosto da Igreja no primeiro século, sua organização, etc. É o evangelho do Espírito Santo.
As cartas de São Paulo
Paulo (ou Saulo) nasceu em Tarso na Cilícia (Ásia menor) no início da era cristã, de família israelita, muito fiel à doutrina e à tradição judaica; seu pai comprara a cidadania romana, o que era possível naquele tempo, então Saulo nasceu como cidadão romano, legalmente. Aos 15 anos de idade foi enviado para Jerusalém onde recebeu a formação do rabino Gamaliel (At 22,3; 26,4;5,34), e foi formado na arte rabínica de interpretar as Escrituras, e deve ter aprendido a profissão de curtidor de couro, seleiro. Por volta do ano 36 era severo perseguidor dos cristãos, mas se converteu espetacularmente quando o próprio Senhor lhe apareceu na estrada de Jerusalém para Damasco, onde foi batizado por Ananias. Em seguida permaneceu num lugar perto de Damasco chamado Arábia. No ano 39 se encontrou com Pedro e Tiago em Jerusalém (Gal 1, 18) e depois voltou para Tarso (At 9,26-30) acabrunhado pelo fracasso do seu trabalho em Jerusalém. Alí ficou por cerca de 5 anos, até o ano 43. Nesta época, Barnabé, seu primo, que era discípulo em Antioquia, importante comunidade cristã fundada por S.Pedro, o levou para lá. Em 44 Paulo e Barnabé são encarregados pela comunidade de Antioquia para levar a ajuda financeira aos irmãos pobres de Jerusalém. No ano 45, por inspiração do Espírito Santo, Paulo e Marcos (o evangelista) foram enviados a pregar aos gentios (At 13,1-3). A primeira viagem durou cerca de 3 anos (45-48) percorrendo a ilha de Chipre a parte da Ásia Menor. No ano de 49 Paulo e Barnabé vão a Jerusalém para o primeiro Concílio da Igreja, para resolver a questão da circuncisão, surgida em Antioquia. A segunda viagem foi de 50 a 53, durante a qual Paulo escreveu, em Corinto, as duas cartas aos Tessalonicenses (At 15,36-18,22). São as primeiras cartas de Paulo. A terceira viagem foi de 53 a 58. Neste período ele escreveu “as grandes epístolas”, Gálatas e I Coríntios, em Éfeso; II Coríntios, em Filipos; e aos Romanos, em Corinto. No final desta viagem Paulo foi preso por ação dos judeus e entregue ao tribuno romano Cláudio Lísias, que o entregou ao procurador romano Felix, em Cesaréia. Aí Paulo ficou preso dois anos (58-60), onde apelou para ser julgado em Roma; tinha direito a isso por ser cidadão romano. Partiu de Cesaréia no ano 60 e chegaram em Roma em 61, após sério naufrágio perto da ilha de Malta. Em Roma ficou preso domiciliar até 63. Neste período ele escreveu as chamadas “cartas do cativeiro” (Filemon, Colossenses, Filipenses e Efésios). Depois deste período Paulo deve ter sido libertado e ido até a Espanha, “os confins do mundo” (Rom 15,24), como era seu desejo. Em seguida deve ter voltado da Espanha para o oriente, quando escreveu as Cartas pastorais a Tito e a Timóteo, por volta de 64-66. Foi novamente preso no ano 66, no oriente, e enviado a Roma, sendo morto em 67 face à perseguição de Nero contra os cristãos desde o ano 64. S. Paulo foi um dos homens mais importantes do cristianismo. Deixou-nos 13 Cartas. Vejamos um resumo delas.
As Cartas aos Tessalonicenses
As duas cartas tem como tema central a segunda vinda de Jesus (Parusia), que as primeiras comunidades cristãs esperavam para breve e a sorte dos que já tinham morrido. Paulo admoesta a comunidade para a importância da vigilância. As cartas do Apóstolo depois delas falam mais do Cristo presente na Igreja do que da sua segunda vinda.
Tessalônica era porto marítimo muito importante da Grécia, onde havia forte sincretismo religioso e decadência moral; havia uma colônia judaica na cidade, e é na sinagoga que Paulo começa a pregar o Evangelho. Havia dúvidas sobre a iminente volta do Senhor.
Na segunda carta Paulo retoma o mesmo assunto, exortando os fiéis a trabalharem, uma vez que ninguém sabe a data da vinda do Senhor. As cartas devem ter sido escritas por volta do ano 52 quando estava em Corinto, durante a sua segunda viagem missionária pela Ásia.
A Carta aos Gálatas
São Paulo visitou os gálatas na segunda e na terceira viagem apostólica. É hoje a região de Ankara na Turquia. A carta foi escrita por volta do ano 54, quando Paulo estava em Éfeso, onde ficou por três anos. O motivo da carta são as ameaças dos cristãos oriundos do judaísmo que querem obrigar ainda a observância da Lei de Moisés. Paulo mostra que é a fé em Jesus que salva e não a Lei. E exorta os gálatas a viverem as obras do Espírito e não as da carne.
Esta carta é também um documento autobiográfico de São Paulo, além de ser um documento de alta espiritualidade.
A Carta aos Coríntios
Corínto ficava na Grécia, região chamada de Acaia, e no ano 27aC. Cesar Augusto, imperador romano, fez de Corinto a capital da província romana da Acaia. Foi nesta cidade portuária, rica e decadente na moral, que Paulo fundou uma forte comunidade cristã na sua segunda viagem. Aí encontrou o casal Átila e Priscíla que muito o ajudou. Paulo ficou um ano e seis meses em Corinto, até o ano 53. Na sua terceira viagem ele ficou três anos em Éfeso, também na Grécia, e daí escreveu para os coríntios. A primeira carta contém sérias repreensões dos pecados da comunidade: as divisões e a imoralidade. Em seguida dá respostas a questões propostas sobre o matrimônio, a virgindade, as carnes imoladas aos ídolos, as assembléias de oração, a ceia eucarística, os carismas, a ressurreição dos mortos, etc. É uma das cartas mais amplas de S. Paulo em termos de doutrina e disciplina na Igreja.
A segunda carta é bem diferente da primeira, não é tanto doutrinária, mas trata das relações de Paulo com a comunidade, e desfaz mal entendidos, inclusive, e faz a sua defesa diante de acusações sérias que recebeu dos cristãos judaizantes. Nesta carta Paulo mostra a sua alma, seus sofrimentos e angústias pelo reino de Cristo. Resume-se na frase: “É na fraqueza do homem que Deus manifesta toda a sua força” (2Cor 12,9).
A Carta aos Romanos
A carta aos romanos é bem diferente das outras cartas de São Paulo, pelo fato de ser uma comunidade cristã que não foi fundada por ele, o que foi feito por S. Pedro. Esta carta foi escrita no final da terceira viagem missionária de Paulo, em Corinto, por volta do ano 57/58a fim de preparar a sua chegada em Roma. É uma carta onde temos o ponto mais elevado da elaboração teológica do apóstolo. Não trata de assuntos pessoais, mas da vida cristã, a justificação por Cristo que nos faz ser e viver como filhos de Deus e mostra a Lei de Moisés como algo provisório na história do povo de Deus. O ponto alto da carta é o capítulo 8, onde mostra que a vida cristão é uma vida conforme o Espírito Santo, que habita em nós, nos leva à santificação, vencendo as obras da carne, levando-a à transfiguração no dia da ressurreição universal. Tudo foi preparado por Deus Pai que nos fez filhos no Seu Filho, a fim de dar a Cristo muitos irmãos, co-herdeiros da glória do Primogênito (8,14-18).
As Epístolas do Cativeiro
Essas cartas são as escritas a Filemon, aos Colossenses, aos Efésios e aos Filipenses. Cada uma delas apresenta Paulo prisioneiro (Fm 1.9.10.13; Cl 4, 3.10.18; Ef 3,1; 4,1; 6,20; Fl 1, 7.13s). Trata-se do primeiro cativeiro em Roma (At 27,1-28). Paulo também esteve preso em Filipos (At 16,23-40); Jerusalém (At 21,31-23,31), em Cesaréia (At 23,35-26,32); em Roma segunda vez (2Tm 1,8.12.16s; 2, 9).
Carta a Filemon
Quando Paulo estava preso em Roma pela primeira vez, entre os anos 61- 63, foi procurado pelo escravo Onésimo, que fugira de seu patrão Filemon em Colossos e procurou abrigo em Roma. Pela legislação judaica o escravo fugitivo não devia ser devolvido ao dono (Dt 23,16), diferente da lei romana que protegia o patrão. Então Paulo devolve Onésimo a a Filemon, cristão, e pede-lhe que pela caridade de Cristo, receba o escravo não mais como coisa, mas como um irmão. É a primeira declaração dos direitos humanos no cristianismo.
Carta aos Filipenses
Filipos era uma grande cidade fundada por Filipe II, pai do Imperador macedônio Alexandre Magno, e que o imperador romano Augusto transformou em importante posto avançado de Roma (At 16,12). Durante suas viagens Paulo esteve três vezes em Filipos, e fez fortes laços de amizade com os cristãos. Esta carta é chamada de “a carta da alegria cristã”, por repetir 24 esta palavra, aos filipenses que sofriam perseguições, como ele na prisão. “Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito, alegrai-vos! ” (Fl 4,1). Nada pode tirar a alegria daquele que confia em Jesus.
Carta aos Colossenses
Colossos era notável centro comercial, que ficava na Frígia, na Ásia Menor, a 200 km de Éfeso, próxima de Laodicéia e Hierápolis. Paulo esteve por duas vezes na região da Frígia. O motivo da carta são os pregadores de “doutrinas estranhas”, provocando um sincretismo religioso, com elementos judaicos, cristão e pré-gnósticos. Paulo fala do primado absoluto de Jesus Cristo, numa linguagem que os gnósticos entendiam. O ponto alto da carta é o hino cristológico (1,15-20) que mostra Cristo como o primeiro e o último, o Senhor absoluto no plano da criação e da redenção.
Carta aos Efésios

Éfeso era a capital da Ásia romana, proconsular, famosa, onde se cultuava a deusa Artemis. Aí Paulo esteve durante três anos. A carta não trata de assuntos pessoais, mas teológicos. É um pouco parecida com a carta aos colossenses, a fim de combater os erros de doutrina que também alí começavam a surgir. Paulo mostra a importância da Igreja para a realização da obra de Deus. É a eclesiologia de São Paulo: “Há um só corpo e um só Espírito, um só Senhor, uma só fé, um só Deus e Pai de todos”.(Ef 4,4s). É de importância e beleza ímpar o prólogo da carta (Ef 1, 3-14), que apresenta um hino de ação de graças à Trindade.
As Epístolas Pastorais
As Cartas a Timóteo e Tito – São as cartas que Paulo escreveu a Timóteo (duas) e uma a Tito. No final de sua vida, na última ida ao oriente, antes de ser preso e enviado a Roma pela segunda vez, por volta do ano 65, Paulo deixou Timóteo em Éfeso e Tito na ilha de Creta, no mediterrâneo, como bispos. A carta é cheia de recomendações sobre o pastoreio das ovelhas, especialmente no combate às falsas doutrinas, além de dar as orientações sobre a organização da vida da Igreja, normas que até hoje são normas seguras para a indicação de diáconos, presbíteros e bispos. São cartas de um valor imenso para a Igreja.
A Carta aos Hebreus
Até 50 anos atrás se dizia que esta carta era de São Paulo, mas com os novos estudos, hoje já não se afirma o mesmo. Contudo, é uma carta canônica, é Palavra de Deus. O grande escritor cristão de Alexandria, Orígenes (†234) admitia que Paulo fora o autor da carta, mas não o redator, e assim explicava a diferença de estilo das demais cartas do apóstolo. Contudo, o conteúdo da Carta é paulino. A carta é dirigida aos hebreus convertidos ao Cristianismo, especialmente aos sacerdotes judeus convertido, ameaçados pela perseguição aos que começava por volta do ano 64 com Nero. Talvez esses sacedotes convertidos estivessem desanimados e tentados a voltar ao judaísmo. O autor da carta lhes escreve a fim de fortalecer-lhes a fé e a certeza na mensagem de Jesus Cristo. O objetivo da carta é mostrar a primazia da Nova Aliança em Jesus Cristo sobre a Antiga Aliança. Aparece aí uma verdadeira cristologia que mostra Cristo como homem e Deus. A carta foi escrita por volta dos anos 64-66. Devemos lembrar que em 70 o general romano Pompeu destruiu o Templo de Jerusalém; e, a partir daí não haverá mais os cultos judaicos em Jerusalém como eram antes.
As Epístolas Católicas
As Epístolas ditas católicas, ou “universais”, são as sete: Tiago, 1 e 2 Pedro, 1,2 e 3 João, e Judas. São chamadas de católicas (universais) porque não eram dirigidas apenas a uma comunidade, como as de Paulo, mas a muitas comunidades da Ásia Menor.
A Carta de Tiago
Escrita pelo apóstolo Tiago, menor, filho de Alfeu, “irmão do Senhor” , com quem Paulo se encontrou em Jerusalém. Não deve ser confundido com Tiago maior, irmão de S. João, que foi martirizado no ano 44, antes desta carta ter sido escrita. Tiago, autor da carta, se tornou famoso bispo de Jerusalém. A carta é dirigida “às doze tribos da dispersão” (1,1). Acredita-se que tenha sido escrita por volta do ano 50. Trata da importância das obras que é a frutificação da fé. Desta carta a Igreja compreendeu o sacramento da Unção dos Enfermos (5,14s).
As Cartas de João
Os destinatários são os fiéis oriundos do paganismo. A primeira carta mostra que Jesus é o Messias, contra os falsos pregadores que negavam que a Redenção tinha acontecido pelo sangue de Cristo; era a influência do pré-gnosticismo, principalmente apresentadas por um tal Cerinto. Na mesma carta aparece a excelência do amor cristão, como a mensagem fundamental do Evangelho.
Na segunda carta de João, ele é chamado de “ancião”, o que mostra a dignidade do autor, é o título que os discípulos lhe deram quando ele vivia em Éfeso. O assunto é o amor de Deus, o perigo dos “anti-cristos” já em ação, o amor à verdade, etc.
A terceira carta foi escrita a um certo Gaio, não identificado e o louva pelas suas belas ações em favor da Igreja.
A primeira Carta de Pedro
Os destinatários da primeira carta de São Pedro foram os cristãos da Ásia Menor (Ponto, Galácia, Capadócia, Bitínia, etc), convertidos do paganismo. O objetivo era fortalecer a fé cristã nessas comunidades que sofriam perseguições e tribulações. Mostra a fecundidade do sofrimento, e a grandeza da imitação da Paixão do Senhor. Fala da dignidade sacerdotal do povo cristão, da descida de Jesus à mansão dos mortos e sua Ascensão ao céu. Ensina-lhes a responder aos provocadores da fé com paciência e boa conduta. Pedro deve ter escrito em Roma nos anos 63-64.
As Epístolas de Judas e II Pedro
Judas é o “irmão de Tiago”, primos de Jesus; segundo a tradição escrita por Egezipo, escritor judeu do século dois, ambos eram filhos de Cléofas, discípulo de Emaus (Lc 24). Judas escreve para cristãos oriundos do paganismo ameaçados por falsas doutrinas, o que era comum em toda a Ásia Menor, onde se negava a divindade de Jesus, injuriavam os anjos, zombavam das verdades pregadas pelos apóstolos e causavam divisões na comunidade. É o pré-gnosticismo presente na Igreja. A carta de Judas tem grande semelhança com a segunda de Pedro. A Segunda carta de Pedro tem grande afinidade com a de Judas; em ambas aparecem as mesmas expressões raras e as mesmas idéias, especialmente com relação aos falsos pregadores e falsas doutrinas. Por isso houve dúvidas sobre o verdadeiro autor de II Pedro, mas a tradição preferiu atribuir a Pedro esta carta.
O livro do Apocalipse
O imperador romano Domiciano (81-96) moveu forte perseguição aos cristãos, tendo deportado S. João, que era o bispo de Éfeso para a ilha de Patmos . Ao mesmo tempo os cristãos eram hostilizados pelo judeus e aguardavam a volta de Cristo, que não acontecia, para livrá-los de todos os males. Foi neste contexto que o Apóstolo escreveu o Apocalipse para confortar e animar os cristãos das já inúmeras comunidades da Ásia Menor. Apocalipse, em grego “apokálypsis”(= revelação), era um gênero literário que se tornou usual entre os judeus após o exílio da Babilônia (587-535aC), e descreve os fins dos tempos onde Deus vai julgar os homens. Essa intervenção de Deus abala a natureza (fenômenos cósmicos), com muita simbologia e números. A mensagem principal do livro é que Deus é o Senhor da História dos homens, e no final haverá a vitória dos justos. Mostra a vida da Igreja na terra como uma contínua luta entre Cristo e Satanás, mas que no final haverá o triunfo definitivo do Reino de Cristo, triunfo que implica na ressurreição dos mortos e renovação da natureza material.
As calamidades que são apresentadas não devem ser interpretadas ao pé da letra. Deus sabe e saberá tirar de todos os sofrimentos da humanidade a vitória final do Bem sobre o Mal.
Infelizmente há muitos que querem interpretar a Bíblia “a seu modo”, mesmo sem conhecer os gêneros literários, as línguas antigas, a história antiga, etc, e isto tem levado multidões a caminhar longe da verdade de Deus. Até “tarô bíblico” já se apresenta na TV; isto é, interpreta-se a Bíblia com o auxílio das cartas esotéricas do tarô … Por tudo isso, e para que não acontecesse essas aberrações, e a Bíblia não ficasse sujeita à interpretação subjetiva de muitos, foi que Jesus deixou Pedro e os Apóstolos, hoje o Papa e os Bispos, sucessores dos Apóstolos, para interpretarem sem erro o que foi revelado sem erro. É o que chamamos de Magistério da Igreja, e que analisaremos à frente.
Pelo que foi dito acima você pode entender agora, o que disse, por exemplo Santo Agostinho:
“Eu não acreditaria no Evangelho, se a isto não me levasse a autoridade da Igreja.” (Fund, 5, 6).
Não é fácil muitas vezes interpretar a Bíblia; é claro que há passagens que devem ser lidas ao pé da letra, como a que diz “Isto é o meu corpo que é dado por vós”, mas muitos versículos são difíceis. O próprio S. Pedro recriminava os não preparados que, já no seu tempo queriam interpretar as Escrituras a seu bel prazer. É o que Pedro fala quando se refere às Cartas de S. Paulo, que já naquele tempo eram consideradas partes da Escritura:
” … como também vosso irmão Paulo vos escreveu, segundo o Dom de sabedoria que lhe foi dado. É o que ele faz em todas as suas cartas… Nelas há algumas passagens difíceis de entender, cujo sentido os espíritos ignorantes ou pouco fortalecidos deturpam, para a sua própria ruína, como o fazem também com as demais Escrituras. ” (2Pe 3,15-16)
Este ensinamento tão claro de S. Pedro mostra-nos que é uma temeridade cada um de nós ir interpretando a Bíblia a seu bel prazer, sem obedecer ao Sagrado Magistério da Igreja, a garantia que Jesus nos deixou. Se, para o próprio S. Pedro, que vivia ao lado de Paulo, que conhecia o Hebraico, as Escrituras apresentavam “passagens difíceis de entender”, ora, imagine então para nós, que estamos a 2000 anos dos Apóstolos !… Por isso, é preciso prudência e obediência àquilo que a Igreja ensina. Não sejamos “iluminados” mais do que a Igreja é; os santos, nenhum deles, foi assim.

 

NOVO TESTAMENTO – Resumo dos Livros: Mateus

Fatos interessantes sobre Mateus
SIGNIFICADO: Mateus significa "dom do Senhor".
AUTOR: Mateus, o filho de Alfeu (Mc 2.14)
DATA: Possivelmente entre 58-68 dC
POSIÇÃO NA BÍBLIA: 40º  livro da Bíblia
• 1º Livro do Novo Testamento
• 1° dos Quatro Evangelhos (narrativos)
                (Mateus - João)
• 26 livros depois dele.
CAPÍTULOS: 28
VERSOS: 1.071
PALAVRAS: 1782
Observações sobre Mateus:
Mateus é o registro do evangelho:
 Escrito por um judeu - Mateus.
• Escrito para os judeus - seus conterrâneos.
• Escrito sobre um judeu - o aguardado messias tempo.
Mateus usa citações do Antigo Testamento, para estabelecer
que Jesus Cristo é verdadeiramente o Messias:
• Mais do que 130 vezes Mateus usa citações e
alusões ao Antigo Testamento para mostrar que Jesus
reuniu os requisitos do Messias.
• Mateus muitas vezes usa a frase “o que foi dito
por meio dos profetas para ser cumprido”. Essa frase não aparece nenhuma vez em Marcos, Lucas e João.
• A frase "Filho de Davi", referindo-se à linha de Davi,
ocorre nove vezes em Mateus, mas apenas seis vezes em todos os demais evangelhos.
Mateus mostra a seus leitores judeus que Jesus Cristo é o cumprimento
das promessas proclamadas por mais de mil anos.
Mateus mostra que o plano redentor de Deus permanece o mesmo depois de
400 anos de silêncio profético.
Messias significa "o Ungido".
Mateus oferece uma grande recepção em sua casa para que seus amigos possam encontrar com Jesus. Mateus 9.10
A última aparição de seu nome na Bíblia é em Atos 1.13.
A frase "reino dos céus" aparece 55 vezes em Mateus.
Mateus era um cobrador de impostos em Cafarnaum, quando Jesus o chamou para segui-Lo.
Como um publicano (cobrador de impostos), Mateus era sem dúvida
detestado por seus compatriotas.
O momento crítico no livro de Mateus está no capítulo doze, quando os fariseus rejeitar formalmente a Jesus como o Messias, dizendo que seu poder vem de Satanás e não de Deus. A partir deste ponto ocorrem mudanças no ministério de Cristo:
• Maior utilização de parábolas.
• Maior atenção aos seus discípulos.
• Suas declarações repetidas de que sua morte está perto.
O Evangelho segundo Mateus foi colocado em primeiro lugar no cânone do NT pela igreja primitiva, pois se constitui em uma ponte natural entre os dois Testamentos.
INTRODUÇÃO AOS QUATRO EVANGELHOS
1. Considerações preliminares
A fonte principal de informações sobre a vida, a obra e o sofrimento de Jesus Cristosão os quatro evangelhos do NT. É fácil entender que escritos não recebem o nome deevangelhos automaticamente. Como se chegou a esse nome? O que sobressai quandocolocamos os quatro evangelhos lado a lado e os comparamos? O que caracteriza os três primeiros evangelhos chamados sinópticos? Neste capítulo tentaremos dar respostas a essas questões fundamentais.
1.1 Que é um evangelho?
Como já foi indicado acima, os evangelhos têm importância fundamental comofonte de conhecimento sobre o nascimento, ministério, morte e ressurreição do nossoSenhor Jesus. O estudioso católico do NT Alfred Wikenhauser escreve na suaIntrodução ao NT: “Os evangelhos são os livros mais importantes do NT. A elesdevemos quase que exclusivamente tudo que sabemos sobre Jesus Cristo, sobre a suavida e ministério, sofrimento e morte.”
1
De fato, nos outros escritos do NT descobrimos pouco sobre a vida e o ministério deJesus. Paulo interpreta a morte e a ressurreição de Jesus nas suas cartas. Ele transformaem cântico de louvor as suas percepções sobre a humanidade, a vida, a morte na cruz e aexaltação de Jesus em Filipenses 2.6-11. Ele cita as palavras que Jesus pronunciara nainstituição da ceia (1Co 11.23-25). Ele faz uma lista das testemunhas que viram o Cristoressurreto (1Co 15.3-8). Em três passagens ele se baseia em palavras de Jesus: 1Co7.10; 1Co 9.14; 1Ts 4.15s. Nas exortações em questões de ética ele coloca os ensinos eas atitudes de Jesus como modelo (Ef 4.20ss; referências indiretas podem ser observadas em Rm 12). Em 1Timóteo 6.13 é mencionado o processo contra Jesus diantede Pilatos. A batalha da oração no Getsêmane pode ser vista como pano de fundo dotexto de Hebreus 5.7s. Pedro se refere à história da transfiguração em 2Pedro 1.16-18.Finalmente notamos também que os sermões evangelísticos de Atos se referem à vida,morte e ressurreição de Jesus (At 2.36; 3.12-26; 10.34-43; 13.16-38).Mas isso é tudo que conseguimos de informações sobre a vida e o ministério deJesus nos outros escritos do NT. É fato que a observação de Wikenhauser, quando diz:
1

1. A. Wikenhauser & J. Schmid,
Einleitung
(Introdução), p. 203.
 
“o que está nos outros livros do NT sobre a vida e o ministério de Jesus é muitoescasso”
2
é correta, mas não pode ser absolutizada.Existem também evangelhos apócrifos, que não foram considerados canônicos pelaigreja antiga. Eles contêm vários relatos sobre Jesus. Mas essas informações só podemser aceitas como confiáveis sob algumas condições. Cada informação contida nessesrelatos precisa ser testada à luz dos evangelhos canônicos. Na literatura profana há indicações sobre a vida e a morte de Jesus em Tácito eJosefo,
3
 entre outros.Disso concluímos: o que sabemos sobre Jesus tiramos sobretudo dos quatroevangelhos. O valor deles nesse aspecto é incalculável.Que fez com que esses livros tão importantes do NT passassem a ser chamados deevangelhos?O termo grego
euangelion
significa no seu contexto original “pagamento pelatransmissão de uma boa notícia”. Disso se desenvolveu, com o passar do tempo, aexpressão “boa notícia” ou “notícia de vitória”
4
. Ela significa também que o vencedor fará as suas exigências valerem para os cidadãos.Em pouco tempo, no entanto, esse termo assumiu um tom religioso no impérioromano de fala grega por causa do culto a César. No império romano, o imperador eravenerado como salvador 
(sotêr)
e até como deus. O anúncio de seu nascimento e de suasubida ao trono era considerado
euangelion
. Esse conceito fica evidenciado pelainscrição no calendário de Priene do ano 9 a.C.: “O nascimento do deus foi para omundo o início das novas de alegria, que por causa dele aconteceram”
5
. Chama a nossaatenção o fato de que não só nesse documento, mas também freqüentemente nocontexto extra-bíblico se fala das novas de alegria
(euangelia)
, enquanto o NT só usa otermo evangelho no singular.A versão grega do AT traduz o termo hebraico
besorah
por 
euangelion
. O termo éderivado da raiz
bisar 
. No sentido profano significa proclamar uma notícia de alegria(2Sm 18.20,25,27; 2Rs 7.9). Quando usado no contexto religioso, o termo significa asalvação vindoura, a época da salvação que terá início no fim dos tempos. “Omensageiro das novas de alegria anuncia a vinda da salvação e ele mesmo traz o seuinício” (Is 52.7-10)
6
.É nesse sentido que Jesus se apresentou como o mensageiro da alegria, como mostraa sua pregação na sinagoga de Nazaré, sua cidade natal (Lc 4.16-21). Também quandoresponde à pergunta bastante crítica de João Batista sobre quem ele era, Jesus fazalusões aos sinais dos tempos, ligados à época da salvação, que estavam acontecendo por intermédio dele (Mt 11.5).Por isso Paulo compreendeu que Jesus era o conteúdo do evangelho: a sua vinda, oseu ministério na terra, o seu sofrimento e morte, e a sua ressurreição (Rm 1.1-9; 15.19;1Co 9.12,18).Segundo ele, evangelho é a mensagem salvífica de Jesus Cristo. Evangelho é, portanto, mensagem proclamada, “um conceito não literário”
7
, tudo menos um livro.
2

2. A. Wikenhauser & J. Schmid,
Einleitung
, p. 203.3

3. O. Betz, “Jesus Christus”,
in Das Grosse Bibellexikon
, vol. 2, p. 683s.4

4. G. Friedrich, in ThWNT, vol. 2, p. 721.5

5. W. G. Kümmel,
Einleitung
, p. 11.6

6. A. Wikenhauser & J. Schmid,
Einleitung
, p. 205.
 
Como foi que esse termo passou a denominar um livro? De acordo com asinformações que temos, isso está relacionado ao evangelho de Marcos. O seu escritocomeça com as palavras “Princípio do evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus” (Mc1.1). Segue então a descrição do ministério público de Jesus, a sua morte e a suaressurreição. Com isso foi introduzido um novo estilo literário, para o qual não havia paralelo naquela época.Evidentemente o mundo antigo produziu biografias de pessoas importantes. Mas osevangelhos não são descrições da vida de Jesus. Eles não mostram interesse pelaaparência externa nem pelo seu desenvolvimento interior ou exterior. Os dados biográficos são escassos. Os evangelhos não evidenciam os motivos da ação de Jesus. Aseqüência cronológica exata dos fatos não é apresentada.Em vez disso os evangelhos são proclamação sobre Jesus Cristo em forma escrita nosentido de registrarem os atos e as palavras de Jesus. O objetivo disso é despertar efortalecer a fé, como está explicitamente declarado em João 20.31.Quais são as características desse novo estilo literário?
8
Esse estilo está intimamenterelacionado à tradição. Os autores desses livros não são escritores que relatam históriasou reflexões próprias. Parte deles são testemunhas oculares dos fatos, ou discípulos detestemunhas oculares. Eles estão profundamente ligados à tradição apostólicatransmitida e preservada pela igreja. Eles juntam o material transmitido e o ordenam,depois o transmitem adiante e também passam a fazer parte da tradição. Eles estãocomprometidos com as palavras faladas e com os atos de Jesus.Os quatro evangelhos nos transmitem o ministério público de Jesus de formasemelhante. O ministério de Jesus começa com o batismo de João Batista e estádeterminado por seus discursos e atos. No final do ministério está a história dosofrimento que se encerra com o relato do encontro com o ressurreto.Os quatro evangelhos querem anunciar Jesus Cristo aos seus leitores e fazem isso aocontarem os acontecimentos da vida dele. Eles fazem a continuação daquilo quecomeçou no dia de Pentecostes em Jerusalém: anunciam os grandes atos de Deus eevidenciam o que isso significa para a vida dos seus leitores. Mas sempre se trata doevangelho único de Jesus Cristo.Daí se conclui que a Igreja antiga estava certa ao denominar os evangelhos comoEvangelho segundo Marcos, Evangelho segundo Mateus, Evangelho segundo Lucas eEvangelho segundo João. O evangelho único foi recebido por várias testemunhas que oregistraram de forma escrita e o transmitiram adiante.Mas por que razões o evangelho foi colocado em forma escrita?Poderíamos pensar que a importância do evangelho em forma escrita cresceu com amorte dos apóstolos, alguns como mártires. Mas é provável que já bem antes da mortedeles o registro escrito tenha se tornado muito importante. A expansão da igreja cristãexigia a transmissão do evangelho por meio de um texto exato e igual para todos oslocais em que era pregado.O texto era dirigido aos recém-convertidos a Jesus. Eles precisavam saber quem éesse Jesus em quem cremos, o que ele disse e o que fez. Também no encontro comcríticos contemporâneos os cristãos daquela época necessitavam de informaçãoconfiável sobre a fé, e para isso um relato escrito era urgente (cf. Lc 1.1-4). Nas leiturasno culto precisavam de lecionários nos quais estava anotada a leitura para cadadomingo. Para confeccioná-los, textos escritos eram necessários.
7

7. A. Wikenhauser & J. Schmid,
Einleitung
, p. 205.8

8. Cf. H. Zimmermann,
Neutestamentliche Methodenlehre
(Estudo neo-testamentário dos métodos) p. 137s.
 
Os evangelhos surgiram, portanto, das necessidades práticas da igreja cristãemergente que levava a sério e cumpria a sua tarefa missionária e discipuladora. Osevangelhos eram e são até hoje o fundamento da proclamação a respeito de Jesus Cristo.
1.2 As características peculiares dos quatro evangelhos
Quem compara os quatro evangelhos do NT percebe logo que os primeiros três sãosurpreendentemente semelhantes. Por isso são chamados de sinópticos. O quartoevangelho segue o seu próprio estilo de apresentação.Os sinópticos e João são distintos nos seguintes aspectos:
No esboço:
Os sinópticos têm uma estrutura simples nos seus evangelhos. Após o batismo deJesussão relatados os fatos ocorridos na Galiléia. Depois segue um relato de extensõesvariadas sobre a viagem de Jesus a Jerusalém. Na terceira parte é contado o que se passou em Jerusalém. Essa mesma estrutura pode ser observada, por exemplo, nasseguintes passagens de Marcos: 1.14; 8.27; 10.1,32.Em contraposição a isso o evangelho de João descreve várias peregrinações de Jesusda Galiléia a Jerusalém. A razão era, na regra, a comemoração das festividades judaicasde que Jesus participava com os seus discípulos em Jerusalém. Desses dados doevangelho de João se consegue calcular o tempo do ministério público de Jesus. Durouem torno de três anos. A movimentação dele entre a Galiléia e Jerusalém pode ser observada nos seguintes textos: João 2.1,13; 3.22; 3.2,4-6; 5.1; 6.1; 7.1s,10; 10.40;11.7,54s; 12.1,12.
Na forma de ordenação do material:
Do que foi descrito acima se conclui que os sinópticos organizaram o seu materialdo ponto de vista geográfico
9
,enquanto o evangelho de João está construído sobre umaestrutura biográfica. Ele quer que os seus leitores acompanhem o ministério de Jesus naseqüência e no espaço de tempo em que os fatos se desenrolaram.
Na escolha dos temas:
Os sinópticos relatam uma quantidade significativa dos atos de Jesus, entre elesmuitos milagres, principalmente curas. Em contraposição a isso o evangelho de João sócontém sete relatos sobre atos de Jesus sendo que nenhuma expulsão de demônios.Três desses fatos são contados também pelos sinópticos: a purificação do templo, acura do servo de um oficial do rei e a multiplicação dos pães para os 5.000.
Na apresentação dos adversários de Jesus:
Os sinópticos descrevem os adversários de Jesus com as suas características e tarefasdiferenciadas: fariseus e escribas, saduceus e sacerdotes. Na comparação com issosobressai o fato de que no evangelho de João os oponentes de Jesus são denominados judeus. Se isso quer dizer o povo judeu todo, ou a liderança ou um grupo específico do povo, só pode ser descoberto pelo contexto.
Na forma da narrativa:
Os evangelhos sinópticos contêm muitos relatos breves da vida de Jesus quefreqüentemente culminam com uma declaração marcante de Jesus. Os protagonistas dasituação só são apresentados até o ponto em que contribuem para o objetivo dadeclaração do relato. O leitor não descobre nada mais sobre outros aspectos das suasvidas. Em contraposição a isso, o evangelho de João traz relatos detalhados deacontecimentos da vida de Jesus, como por exemplo o diálogo com a mulher emSamaria (cap. 4), a cura do cego de nascença (cap. 9) ou a ressurreição de Lázaro (cap.11).
9

9. Cf. D. A. Carson & D. J. Moo & L. Morris,
Introduction
, p. 19.
 
Na apresentação dos discursos de Jesus:
Os quatro evangelhos contêm discursos de Jesus mais ou menos abrangentes. Nossinópticos eles consistem em frases curtas e fáceis de serem guardadas. Trata-se naverdade de uma coletânea de declarações ou citações dos discursos de Jesus e não dediscursos completos. No evangelho de João isso é diferente. Lá encontramosdiscursosque levam à reflexão e meditação. O leitor consegue se imaginar na posição doorador. Compare por exemplo Lucas 15.1-7 com João 10. Nota-se também que nos sinópticos o estilo de oratória é direto, objetivo e linear,correspondendo assim ao pensamento grego. Já nos discursos de Jesus em João odesenvolvimento das idéias se dá em círculos, trabalhando com constantes repetições.Isso não quer dizer que sejam meras repetições. O que acontece é que um pensamento érepetido em outro nível para que possa ser melhor interiorizado. Para entender issomelhor é preciso pensar em uma espiral. É assim que se falava no dia-a-dia no oriente.
Na autodenominação de Jesus:
Quando Jesus fala de si mesmo nos evangelhos sinópticos ele usa um títuloincomum. Ele se denomina
bar naschah,
ou seja, Filho do Homem, ou Homem. O Filhodo Homem é o conceito-chave para a compreensão de Jesus nos sinópticos.Também no evangelho de João se fala do Filho do Homem. Mais importantes, noentanto, são as autodenominações Filho de Deus, ou Filho. O quarto evangelho nos proporciona uma visão especial sobre o relacionamento único entre Deus e Jesus.Quais são as razões para a apresentação tão variada da vida e do ministério de Jesus?Enquanto os sinópticos ordenam todo o material que lhes foi transmitido do pontode vista geográfico, o quarto evangelista descreve, como testemunha ocular, acaminhada de Jesus nas suas etapas.Ao passo que os sinópticos têm pouco interesse por detalhes geográficos etopográficos, o quarto evangelista conta os detalhes até então desconhecidos da vida deJesus.Enquanto os sinópticos querem ressaltar o máximo de declarações e citações dosdiscursos de Jesus, o quarto evangelista sublinha o estilo de oratória de Jesus. Ele quer que os seus leitores tenham condições de vivenciar os discursos de Jesus.Enquanto os sinópticos reconhecem como sua tarefa principal fixar e preservar o queaconteceu no passado por meio de Jesus (cf Lc 1.1-4), o quarto evangelista interpreta avida e as palavras de Jesus do ponto de vista da Páscoa. Repetidas vezes ele ressalta queos discípulos só entenderam o que estava acontecendo após a ressurreição de Jesus dosmortos.É errado, no entanto, afirmar que os sinópticos estavam mais preocupados com ahistória, enquanto o quarto evangelista anunciava a Jesus e não dava tanta importância àexatidão histórica no seu relato. Na verdade o que acontece é o contrário: os sinópticostambém querem anunciar a Jesus; para isso eles se baseiam na tradição histórica. Oquarto evangelho se apresenta como o relato de uma testemunha ocular preocupado atéas últimas minúcias com a exatidão da transmissão dos fatos. Isso não está emcontradição com a proclamação de Jesus como o Filho de Deus. Os quatro evangelhossão endereçados a grupos diferentes de leitores. Isso leva a ênfases diferenciadas naapresentação de Jesus.
1.3 O problema sinóptico
Quando comparamos os primeiros três evangelhos, constatamos dois aspectos que secontrapõem:1) Os sinópticos são semelhantes em longos trechos na estrutura, na seqüênciadasperícopes e também na forma do texto grego.
 
2) Os sinópticos se diferenciam na escolha dos temas, na apresentação do contextoda narrativa e freqüentemente também na forma do texto grego.O problema sinóptico é o seguinte: como podemos explicar essas constatações com base na história da origem dos evangelhos? Na história da teologia foram dadas diversas respostas a essa questão. Agostinho(354-430) cria que os evangelhos foram escritos na seqüência em que aparecem no NThoje: Marcos era uma forma resumida de Mateus e Lucas uma forma ampliada deMarcos. Somente na segunda metade do século XVIII o problema sinóptico passou areceber mais atenção. Os estudiosos chegaram a quatro tentativas de solução:
1— A hipótese do protoevangelho
Além de outros estudiosos, Lessing a defendeu em 1776.
10
Ele partiu do ponto deque no início da transmissão do evangelho existiu um antigo evangelho aramaico, oevangelho dos Nazarenos. Ele tinha notícia de que Jerônimo tinha achado esseevangelho na seita dos Nazarenos no quarto século d.C. Fragmentos desse evangelhoforam publicados e existem até hoje.
11
Provavelmente, no entanto, esse evangelho nãoseja um texto original, e sim uma retradução dos evangelhos sinópticos gregos para oaramaico, que surgiu na primeira metade do século II.Além disso, um protoevangelho aramaico não resolveria o problema sinóptico, poisa semelhança literal do texto grego permaneceria. Seria necessário supor também quetinha sido feita uma tradução uniforme do grego sobre a qual os sinópticos se basearam.Com essas falhas, a solução de Lessing não conseguiu se impor.
2— A hipótese dos fragmentos
De acordo com essa sugestão, os evangelhos sinópticos são constituídos de inúmeros pequenos fragmentos que foram registrados pelos apóstolos e seus ouvintes. Nissoteriam imitado os alunos dos rabinos judaicos que também anotavam os ensinos e atosdos seus mestres. Teria havido um interesse muito grande por esses registros, por issoteriam sido traduzidos para o grego rapidamente. Os sinópticos teriam entãocolecionado esses fragmentos (do grego
diegesis
= relato, narrativa) e incorporado aosseus evangelhos. O evangelho de Lucas tem a referência a esses relatos no seu início(Lc 1.1-4).Essa proposta de solução foi defendida primeiramente por Schleiermacher em 1817e complementada em 1832 pela suposição de que no evangelho de Mateus teria sidoelaborada uma coletânea de oráculos de Jesus.
12
A hipótese dos fragmentos tem muitos argumentos a seu favor, principalmente oinício do evangelho de Lucas. Aceitando como pressuposto a tradução dos fragmentos para o grego, ela explicaria inclusive a semelhança literal dos evangelhos sinópticos. Eladeixa de explicar, no entanto, a semelhança da estrutura e da seqüência das perícopesnos sinópticos. Por isso os estudiosos do NT não se satisfizeram com essa proposta.
3— A hipótese da tradição
1
0
10. G. E. Lessing,
Neue Hypothese über die Evangelisten als blossmenschliche Geschichtsschreiber betrachtet 
(Nova hipótese sobre osevangelistas como escritores meramente humanos), 1784.1
1
11. Cf. E. Hennecke & W. Schneemelcher,
Neutestamentliche Apokryphen
, vol. 1, p. 75ss, 90ss.1
2
12. F. Schleiermacher,
“Über die Zeugnisse des Papias von unserenersten beiden Evangelien” 
, TSK 5, 1832, p. 335-368.
 
Essa proposta foi defendida em 1796/97 por Johann Gottfried Herder em conjuntocom a sugestão de Lessing.
13
Se Lessing pressupunha um protoevangelho aramaico,Herder partia de um protoevangelho oral. Essa observação é importante até hoje: noinício datransmissão do evangelho existiu presumivelmente a transmissão oral das palavras e dos atos de Jesus. Mas visto que essa transmissão oral provavelmenteaconteceu na língua aramaica, a proposta não explica a semelhança na estrutura e naseqüência e nem a semelhança literal do texto grego.Portanto, não é possível resolver o problema sinóptico dessa forma.
4— As hipóteses da utilização (da dependância literária)
Enquanto as três propostas estudadas acima tentam trabalhar sem a dependêncialiterária entre os três primeiros evangelhos, as hipóteses da utilização colocam adependência como condição.Já citamos Agostinho e a sua solução que encontrou adeptos até no século XX (entreeles Theodor Zahn e, com restrições, Adolf Schlatter 
14
). Ele parte do princípio de que osevangelhos surgiram na seqüência em que estão no NT hoje. Assim, o evangelho deMateus é o mais antigo, o evangelho de Marcos um extrato de Mateus, e Lucas se baseianos dois.Griesbach defendeu uma outra dependência. Ele também considera o evangelho deMateus o mais antigo. O evangelho de Lucas dependeria de Mateus e o evangelho deMarcos seria um breve resumo dos outros dois. Essa hipótese não encontrou muitossimpatizantes por estar baseada em número excessivo de suposições.A hipótese que se impôs foi a que Lachmann desenvolveu em 1835. Ele consideravao evangelho de Marcos o mais antigo. Os outros dois teriam se baseado,independentemente um do outro, em Marcos. Lachmann fundamentou a sua solução do problema sinóptico no fato de que Mateus e Lucas só concordam entre si na seqüênciadas perícopes quando têm a mesma seqüência de Marcos. No restante eles ordenam oseu material de forma totalmente autônoma.A hipótese de Lachmann foi complementada por H. J. Holtzmann, que descobriu, aocomparar Mateus e Lucas, que estes dois evangelhos são caracterizados por umasemelhança quase literal nos textos que têm a mais do que Marcos, diferenciando-se, noentanto, na seqüência dos textos apresentados. Disso ele concluiu que Mateus e Lucasse basearam num texto grego comum. Ele chamou esse texto de fonte dos discursos, pois consiste em grande parte de discursos ou ditos, de Jesus. Hoje o texto é chamadotambém de documento dos logia, ou simplesmente, o documento Q (de “Quelle” =“fonte” em alemão).Com isso estava formada a teoria das duas fontes, que diz que os evangelhossinópticos se baseiam em duas fontes: no evangelho de Marcos e no documento Q.Visto que as conclusões faziam sentido e a hipótese era fácil de se aplicar, ela se tornoua proposta predominante para a solução do problema sinóptico até os dias de hoje.Recentemente, no entanto, tem surgido novamente a pergunta, se essa hipótese érealmente a mais adequada para o problema. Por essa razão apresentaremos nos próximos parágrafos os detalhes dos argumentos que apóiam essa teoria. Em seguidaserão citadas as críticas e as possíveis alternativas.
1.4 A teoria das duas fontes
1
3
13. J. G. Herder,
Von der Regel der Zusammenstimmung unserer Evangelien
(Das regras da harmonia dos nossos evangelhos), 1797.1
4
14. A. Schlatter acreditava ter havido um extrato aramaico anterior aoEvangelho de Mateus como fundamento para os sinópticos.
 
Essa proposta se baseia em duas colunas: Marcos é a base para Mateus e Lucas(Marcos foi o primeiro) e Mateus e Lucas fizeram uso do documento dos discursos (Q)e oincorporaram no seu evangelho. Além disso, os sinópticos ainda usaram outrasfontes para o material exclusivo que apresentam.Em favor de Marcos como o texto primitivo existem os seguintes argumentos:1) Marcos é o mais curto dos primeiros três evangelhos. Por causa do enormerespeito que existia na igreja primitiva pelo santo texto dos evangelhos, é mais provávelque tenha havido uma expansão do que um resumo do texto. Por isso o texto mais curtoé o mais antigo.2) Mateus e Lucas só se assemelham na estrutura, no conteúdo, na seqüência e naformulação do texto naquelas passagens básicas em que são paralelos a Marcos. Comoexemplo disso servem os capítulos 4 e 5 de Marcos com os seus paralelos com os outrosdois evangelhos.3) Marcos apresenta pouco material que aparece somente no seu evangelho. O textoexclusivo de Mateus e Lucas se extende por vários capítulos.4) Parece que, em comparação com Marcos, partes de Mateus e Lucas apresentamcorreções lingüísticas e de conteúdo. Às vezes Mateus e Lucas concordam nessascorreções, às vezes não.Alguns exemplos de correções lingüísticas: Marcos 2.4ss; 2.7 e paralelos. Exemplosde correção do conteúdo: Marcos 6.14 e Mateus 14.1; Marcos 2.15 e Lucas 5.29.As conclusões dessas observações são: Mateus e Lucas conheciam o evangelho deMarcos e se basearam nele. Portanto, Marcos deve ser o evangelho mais antigo. Talveztenha havido um “Marcos-primitivo”, no qual Lucas se baseou. Isso explicaria algumasdiferenças entre Mateus e Lucas.A favor do documento Q existem os seguintes argumentos:1) Mateus e Lucas concordam — em parte literalmente — até nos textos que os doistêm a mais do que Marcos. Isso nos leva à conclusão de uma dependência literária naformulação do texto grego. Como exemplo compare Mateus 3.7-10 e Lucas 3.7-9.2) Nos textos que Mateus e Lucas têm a mais do que Marcos não há só discursos deJesus. Há também relatos dos atos de Jesus. Nesse aspecto, a designação “fonte dosdiscursos” é enganosa.Exemplos: Mateus 4 comparado com Lucas 4; Mateus 8.5-13 e paralelos, 18-22 e paralelos; Mateus 11.1-19 e paralelos.3) Nos relatos do sofrimento não é possível descobrir esses trechos. Aqui cadaevangelista segue a sua própria linha.4) Mateus e Lucas organizam o material de formas diferentes: Mateus apresenta osdiscursos em vários agrupamentos (Mt 5—7; 10; 13; 18; 24-25) e Lucas em dois blocos(6.20—8.3; 9.51—18.14). Isso mostra que os dois evangelhos não são completamentedependentes entre si, mas que se basearam em uma fonte textual comum.Vamos resumir as conclusões sobre o documento dos discursos:Provavelmente existiu uma versão dos discursos e dos atos de Jesus na língua grega,que Mateus e Lucas conheceram e usaram. Essa fonte se perdeu. Ela se tornouconhecida como o documento dos discursos. Como ele era em detalhes não sabemos.Conclui-se disso que os trechos de Mateus e Lucas em que eles se assemelhamfortemente pertenciam a esse documento, enquanto Marcos não incorporou no seuevangelho essa tradição.O documento dos discursos é, portanto, uma reconstrução literária baseadanosevangelhos que conhecemos. Não está comprovado como fonte documental.Para complementar a teoria das duas fontes ainda é necessário um comentário sobreo material exclusivo que pode ser achado somente em Mateus ou somente em Lucas. Já
 
não é possível saber se os autores dispunham de uma transmissão oral ou escrita dessematerial exclusivo. Mais frutífera é a reflexão sobre as ênfases teológicas dos textosexclusivos de cada um, pois esses textos nos dão indicações da mensagem que cadaevangelista queria transmitir.Seguindo a teoria das duas fontes, temos a seguinte figura para ilustrar adependência entre os três primeiros evangelhos:
1.5 Críticas e alternativas à teoria das duas fontes
Após a sua formulação por H. J. Holtzmann em 1863, a teoria das duas fontesalcançou uma predominância rara na história da exegese, pelo menos no campo protestante da interpretação dos evangelhos. Segundo R. Riesner,
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a igreja católica foi aque por mais tempo se opôs a essa teoria. Ainda em 1912 um decreto da comissão bíblica papal declarou que “a teoria não tinha o apoio do testemunho da tradição e nemde argumentos históricos”
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. Mesmo que oficialmente esse decreto não tenha sidorevogado, após a segunda guerra mundial os estudiosos católicos do NT adotaram ateoria das duas fontes sem restrições.R. Riesner diz: “Em 1960 parece ter vindo a vitória final. ‘O trabalho crítico sobreas fontes dos sinópticos chegou ao seu final com a teoria das duas fontes’ anunciou P.Vielhauer. E na
 Einleitung in das Neue Testament 
(Introdução ao NT) de W. Marxsenlemos: ‘A expressão
teoria das duas fontes
se afirmou tão fortemente na pesquisa quesomos tentados a abandonar o termo teoria ( no sentido de hipótese). Pois, de fato, podemos considerá-la uma solução segura e definitiva… .’ Todo estudante de teologiaestuda essa conclusão como segura e definitiva no seminário. Questionamentos ediscussões sobre alternativas são perda de tempo. Até o padre que preparaexegeticamente um texto sinóptico para a pregação conta com essa solução segura edefinitiva.”
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Será que uma teoria que conquistou a confiança tão grande dos estudiosos pode ser questionada seriamente? R. Riesner admite que sim ao entrar na discussão das críticasque foram levantadas a partir da metade dos anos 60.
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Não é possível fazer odetalhamento dessas críticas aqui. Vamos apresentar apenas as linhas gerais dessa posição para podermos entender as críticas levantadas.Pesquisas matemático-estatísticas feitas sobre o problema sinóptico levaram aconclusões que estão questionando a teoria das duas fontes como única solução possível para o problema. Os estudiosos B. de Solages e R. Morgenthaler provaram que é possível imaginar uma dinâmica de uso e dependência entre os sinópticos bastantevariada. Disso faz parte a solução que coloca Marcos como o mais antigo, mas apenascomo uma solução entre muitas outras.
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O matemático francês L. Frey examinou aseqüência das perícopes, das frases e das palavras dos evangelhos sinópticos commétodos de eficiência comprovada em outros campos da ciência e concluiu que não é
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15. “Wie sicher ist die Zwei-Quellen-Theorie?”, (Que certeza há na teoriadas duas fontes?) Theolbeitr. 2/77 (abreviado a seguir: R. Riesner, ZQT), p.51.1
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16. R. Riesner, ZQT, p. 51.1
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17. R. Riesner, ZQT, p. 51.1
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18. R. Riesner, ZQT, p. 53-55.1
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19. R. Riesner, ZQT, p. 55. Cf. também E. Linnemann,
Gibt es einsynoptisches Problem?
(Existe um problema sinóptico?), Stuttgart, 1992.
 
 possível demonstrar a dependência direta entre os sinópticos. Melhor seria explicar asemelhança entre os sinópticos pelo fato de terem se baseado em uma variedade defontes pré-sinópticas (cf. Lc 1.1-4).
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O argumento principal de Lachmann a favor de Marcos como o evangelho primitivo — o fato de que Mateus e Lucas concordam na seqüência das perícopes e da formulaçãodas palavras naqueles textos em que são paralelos a Marcos — é discutido equestionado por vários estudiosos. Eles explicam esse fenômeno com outros aspectos dateoria da utilização:R. Riesner cita ainda alguns critérios de pesquisa que podem ser aplicados à teoriade Marcos como o evangelho primitivo. Se for demonstrado que ela não pode ser sustentada, uma coluna da teoria das duas fontes cairia, e com isso a teoria toda. Osseguintes critérios entram em discussão:A teoria de Marcos como mais antigo é questionável se: — textos em Mateus e Lucas que diferem de Marcos não puderem ser explicadossatisfatoriamente; — no contraste com Marcos, Mateus e Lucas soarem muito semíticos na sualinguagem e mostrarem deteriorações no estilo; — as diferenças de Mateus e Lucas com a versão de Marcos puderem ser entendidascomo mais próximas da tradição oral; — Marcos for menos judeu do que Mateus e Lucas; — diferenças entre os sinópticos puderem ser explicadas como variantes de traduçãodo aramaico; — Mateus e Lucas concordarem em oposição a Marcos (os chamados “minor agreements”, concordâncias menores).Após aplicar esses critérios a diversos textos sinópticos, R. Riesner chega à seguinteconclusão: “A teoria das duas fontes tem a grande vantagem de simplificar consideravelmente o problema das fontes dos sinópticos e também de ser uma teoriafacilmente aplicável. Talvez aqui esteja um grande motivo para a popularidade dateoria. … Na minha opinião, a teoria das duas fontes traz mais dúvidas do que respostas.Para maior clareza, deveríamos falar de uma hipótese das duas fontes. A procura por soluções que venham de encontro à diversidade de questões apresentadas pelo problemasinóptico ainda não chegou ao fim.”
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R. Riesner não é o único que tem essa visão crítica da teoria das duas fontes, o quefica evidente nas observações de K. Haacker:“A teoria das duas fontes convence pela sua simplicidade. Mas isso não éargumentohistórico, e sim um convite para o comodismo. Ninguém pode dizer a priorique os procedimentos na origem dos evangelhos devem ter sido simples, pois nãoconhecemos processos literários comparáveis sobre os quais tenhamos melhoresinformações. Ao contrário, Lucas diz na introdução do seu evangelho ter conhecido eusado mais do que duas fontes. O problema sinóptico é, portanto, parecido com umaequação de um número desconhecido de variáveis. Não é aconselhável inventar, a esmo,ferramentas hipotéticas de auxílio para a solução do problema. Também não deveríamosignorar a possibilidade da existência de outras fontes desaparecidas.”
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20. R. Riesner, ZQT, p. 56.2
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22. R. Riesner, ZQT, p. 72.2
3
23. K. Haacker,
Neutestamentliche Wissenschaft 
(Ciência do Novo Testamento), 2 ed. 1985, p. 47.
 
Será que após essas observações o leitor dos evangelhos sinópticos terá de ficar semrespostas sobre a história da sua origem? Será que os elementos que temos no NT,unidos às informações que temos da igreja antiga, não podem nos conduzir a conclusõesmais convincentes do que as apresentadas para a teoria das duas fontes? Talvez ahipótese dos fragmentos (
diegesis
) não deveria ter sido abandonada tão rapidamente.Seja como for, no final do século passado o estudioso do NT Frédéric Godet apresentouuma alternativa para a teoria das duas fontes que merece reflexão.
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Em relação ao problema sinóptico ele se pronunciou no compêndio
 Bibelstudien
(Hannover, 1878) e na sua
 Einleitung in das NT 
. O comentário sobre Lucas tambémmostra a sua posição sobre o assunto.Ponto de partida para as reflexões de Godet é o conteúdo dos sinópticos, que eletenta aceitar sem opiniões pré-concebidas. Para interpretar e explicar esse conteúdo,Godet faz uso das informações sobre o ensino e a pregação da igreja primitiva em Atos.Em contraste com muitos outros autores, ele tem grande respeito também pelasinformações da igreja dos primeiros séculos sobre a autoria dos três primeirosevangelhos. A posição de Godet em relação ao problema sinóptico é caracterizada pelagrande confiança na confiabilidade da versão sinóptica e por uma desconfiança profunda nas reconstruções da teoria das duas fontes por causa das contradições nãoresolvidas associadas a ela.Com base nisso, Godet chegou às seguintes conclusões:Desde o início existiu uma tradição apostólica das palavras e dos atos de Jesus. O“ensino apostólico” citado em Atos 2.42 não era afirmação teológica sobre Jesus Cristo,tendo em vista a simplicidade dos apóstolos. Essa tarefa ficou reservada principalmente para Paulo. No início, é verdade, o ensino apostólico era predominantementetransmissão das palavras e atos de Jesus. Pois esse era o critério para a escolha de umapóstolo: ele deveria ser testemunha ocular dos fatos da vida de Jesus (At 1.21).Com isso Godet acredita que, já no início da história do cristianismo, os relatos dastestemunhas oculares da igreja primitiva se desenvolveram e foram colocados em formaescrita.
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Pelo fato de se falar aramaico e grego na igreja primitiva (veja o conflito em At 6),era necessário que já no início os relatos das testemunhas oculares fossem traduzidos para o grego. Provavelmente existiu algo como a tradução grega autorizada da versãoapostólica.Godet reconhece em Mateus e Pedro os apóstolos transmissores dessa versão. Os pontos principais da versão formada por Pedro seriam os atos de Jesus na Galiléia e emJerusalém. Com isso teria surgido a versão de Jerusalém na qual não só perícopesisoladas teriam se firmado, como também unidades de texto gregas mais extensas.Pedro teria transmitido essa forma básica da versão de Jerusalém nas suas viagens, ecomplementado com experiências pessoais da convivência com Jesus. Segundo as
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24. Frédéric Godet viveu confortavelmente de 1812-1900 na sua cidadenatal de Neuchâtel/Suíça. De 1832-1836 estudou em Berlim e se tornoueducador do jovem príncipe Frederico da Prússia em 1844. Depois voltoupara a sua cidade e se tornou pastor, fundou juntamente com alguns outrosa Academia de Neuchâtel e ensinou nessa escola de 1866 até 1887. A suaIntrodução ao NT e os seus comentários sobre Lucas, João, Romanos e 1Coríntios alcançaram boa reputação entre os leitores de língua alemã efrancesa.2
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25. Cf. B. Gerhardsson,
Die Anfänge der Evangelientradition
(Os inícios datradição dos evangelhos), Wuppertal, 1977.
 
informações da igreja antiga, João Marcos o teria acompanhado nas viagens comointérprete. O evangelho de Marcos teria surgido com base nessas viagens e estaria baseado, por um lado, na tradição de Jerusalém, e por outro, nos acréscimos dasexperiências pessoais de Pedro. Godet, com isso, adota a informação transmitida por Papias sobre a origem do evangelho de Marcos.A ênfase da versão transmitida por Mateus estariam nos ditos e discursos de Jesus(
logia
). Nesse sentido ele aceita a informação de Papias sobre Mateus. A forma básicadessa versão teria sido escrita em aramaico, pois essa era a língua que Jesus falava. Pelofato de a igreja primitiva falar duas línguas, Mateus teria preparado uma tradução grega,que, segundo Godet, seria claramente perceptível nos discursos do evangelho deMateus.Essas versões dos apóstolos Mateus e Pedro teriam sido registradas por muitos emaramaico e em grego. Dessa forma também teriam surgido agrupamentos mais extensosde perícopes.
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Essas versões teriam formado a base da proclamação no cristianismo primitivo, como Lucas 1.1-4 claramente indica. Em outras palavras: no princípio daIgreja de Jesus Cristo existiam os fragmentos (
diegesis
), que foram editados pela igrejade Jerusalém até o ano de 50 d.C. Formavam o fundamento de ensino do cristianismo primitivo. Era de se esperar que também enfatizassem os escritos que chamamos deevangelhos. No sentido acima, os fragmentos tiveram influência sobre os escritos de Marcos, pois este evangelista adotou a versão transmitida e ampliada por Pedro com as suasexperiências pessoais.O evangelho segundo Mateus recebeu o seu nome do fato de ter incorporado, alémda tradição dos fragmentos de Jerusalém, as palavras de Jesus transmitidas peloapóstolo Mateus. Não sabemos quem é o autor desse evangelho tão abrangente. Ele provavelmente vem do meio judaico, pois tenta demonstrar que a história de Israel secumpre na vida, sofrimento, morte e ressurreição de Jesus.O evangelho de Lucas está baseado em um discípulo de Paulo, de quem eleaprendeu o significado do evangelho para os gentios. Ele está fascinado por esseevangelho. Ele conhece a grande variedade das versões escritas da vida de Jesus, fazuma avaliação delas, aprofunda-se nas pesquisas, descobre fatos novos, que não tinhamsido divulgados até então e coloca tudo numa redação própria, em que o evangelho paraos gentios define o objetivo teológico do seu escrito (Lc 1.1-4).Godet acredita que os três evangelhos surgiram na mesma época em três lugaresdiferentes e de forma independente um do outro: Marcos em Roma (64), Mateus nooriente (66) e Lucas na Síria (66). Até que ponto é possível comprovar essa suposiçãoserá discutido nos capítulos seguintes, em que trataremos cada evangelhoseparadamente. No final da sua proposta. Godet deixa transparecer o que o orientou na busca por uma alternativa à teoria das duas fontes. É a questão da confiabilidade dos evangelhos. Na sua opinião, ela é questionada pela hipótese da utilização (dependência literária). Éevidente que dessa perspectiva, apóstolos ou discípulos de apóstolos não são levados asério como portadores de informações ou mesmo como autores dos evangelhos. Parareforçar essa posição, vemos em muitas introduções, a pergunta: Como o apóstoloMateus iria buscar e depender de informações do discípulo de apóstolo João Marcos?
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26. Cf. D. A. Carson & D. J. Moo & L. Morris,
Introduction
, p. 24: “Éprovável que grande parte do material dos evangelhos — mais do que oscríticos da forma gostariam de admitir — já tenha existido de forma escritano início da igreja. E provável, também, que grande parte do restante játenha sido agrupado em unidades de texto maiores.”
 
Baseado ainda em outros argumentos, esse questionamento tem o resultado de pôr emdúvida a autoriade Mateus para o primeiro evangelho, o que contraria a posição daigreja antiga. Com isso a confiança de muitas pessoas nos evangelhos certamente foiabalada.Se, no entanto, conseguimos provar que por trás dos evangelhos está a versão dosapóstolos, fortaleceremos a confiabilidade dos conteúdos a nós transmitidos. Tambémserá mais fácil entender porque a concordância em todos os detalhes não era possívelnem necessária. Com isso, os evangelhos ganham o caráter de relatos de testemunhasque, exatamente pela sua diversidade, se tornam tanto mais confiáveis.O estudante do NT que está convencido da veracidade e da confiabilidade datransmissão bíblica dos fatos, saberá avaliar a proposta de Godet e usará as sugestões para a solução do problema sinóptico como estímulo para a reflexão mais profundasobre o assunto. Isso porque as incertezas quanto à teoria das duas fontes são evidentese é necessário buscar soluções alternativas. É preciso estar aberto para a possibilidadede uma forma modificada da hipótese dos fragmentos ser demonstrada como o modelomais convincente de solução do problema sinóptico.
O EVANGELHO SEGUNDO MARCOS
1. Conteúdo
O evangelho segundo Marcos retrata o tempo do ministério público de Jesus.Começa com a apresentação de João Batista e o batismo de Jesus por João. Terminacom o sofrimento de Jesus e com os relatos dos encontros com o Cristo ressurreto. Aênfase dessa narrativa está nos atos de Jesus. Eles são apresentados em relatos breves enos dão uma visão nítida dos milagres de Jesus, dos seus efeitos sobre os habitantes daPalestina e das discussões de Jesus com os líderes dos judeus. É evidente que Marcostambém relata palavras e discursos de Jesus, mas, se contrastados com os seus atos,estão em segundo plano.Como já foi mencionado, o evangelho segundo Marcos é o mais breve dossinópticos. Desta forma se coloca como base para a pesquisa bíblica sobre os sinópticos.Quase todo o seu conteúdo está também em Mateus e em Lucas.Isso não caracteriza, no entanto, a dependência literária entre os outros doisevangelhos sinópticos e Marcos. As razões desse questionamento já foram citadas nocapítulo anterior.Colocamos Marcos antes dos outros dois sinópticos apenas por razões de método, para facilitar a aprendizagem do conhecimento bíblico.
2. Divisão, versículos-chave, afirmações-chaveC
APÍTULO
P
ERÍCOPES
V
ERSÍCULOS
-
CHAVE
I)1.1-13Introdução
1.1-8João Batista1.9-11O batismo de Jesus
1.11
1.12-13A tentação de Jesus
II)1.14—8.26Jesus na Galiléia
1.14-20O chamado dos discípulos
1.15-17
1.21-39Jesus em Cafarnaum2.13-17O chamado de Levi
2.17
2.18-22O jejum2.23-28Colhendo espigas no sábado
2.27s
3.13-19Os doze apóstolos
 
3.22-30A blasfêmia contra o EspíritoSanto3.31-35Os verdadeiros parentes deJesus
3.35
4.1-20A parábola dos quatro tipos desolo5.1-20A libertação do gadareno6.1-6Jesus é desprezado em Nazaré6.7-13O envio dos doze6.14-29O fim de João Batista6.30-44A multiplicação dos pães para5.000 pessoas7.1-23O que é puro e o que é impuro
7.20
8.10-13Os judeus pedem um sinal8.14-21Exortação aos discípulos
III)8.27—10.52Preparo para o sofrimento
8.27-30A confissão de Pedro emCesaréia de Filipe8.31-331ª anunciação do sofrimento8.34-38Quem quiser me seguir 
8.34b-36,38
9.2-13A transfiguração de Jesus9.31-322ª anunciação do sofrimento9.33-41Briga por posição entre osdiscípulos10.13-16Jesus abençoa as crianças
10.14s
10.17-27O jovem rico
10.25,27
10.33-343ª anunciação do sofrimento10.35-45O pedido dos filhos deZebedeu
10.45IV)11-12Jesus em Jerusalém
11.1-11Entrada em Jerusalém11.12-26A figueira11.15-19A purificação do templo12.1-12A parábola do vinicultor 12.13-17Relação com o estado
12.17
12.28-34O maior mandamento
12.19-31V)13O discurso apocalíptico13.30-32VI)14-16Sofrimento e ressurreição deJesus
14.3-9Jesus é ungido14.10-11Jesus é traído14.12-26Instituição da ceia
14.22-25
14.32-34A batalha em oração noGetsêmane
14.36
 
14.53-65Interrogatório diante dosinédrio
14.61s
14.66-72Pedro nega a Jesus15.1-19Processo diante de Pilatos15.20-41Crucificação e morte16.1-8A ressurreição de Jesus16.9-20Encontros com o ressurreto
16.15s
Essa forma de esboçar as perícopes de Marcos não pretende ser completa. Sãocitados somente os trechos mais relevantes para a síntese desse evangelho, e que devem, portanto, ser aprendidos. Isso não dispensa a leitura cuidadosa do próprio evangelho.Pelo contrário, será um desafio para tal.
Afirmações-chave
 Jesus disse: O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos ecrede no evangelho.
Marcos 1.15
 Pois o próprio Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a suavida em resgate por muitos.
Marcos 10.45
O sumo sacerdote lhe disse: “És tu o Cristo, o Filho do Deus Bendito?” Jesusrespondeu: “Eu sou, e vereis o Filho do homem assentado à direita do Todo-poderosoe vindo com as nuvens do céu”.
Marcos 14.61b-62
3. Gênero literário
O evangelho de Marcos é considerado por muitos o evangelho mais antigo. Isso poderia levar à conclusão de que em Marcos o leitor está mais próximo dos fatos davida de Jesus, o que não é o caso. O autor fez uma seleção de relatos sobre atos ediscursos de Jesus e os redigiu de forma aparentemente desconexa. Podemos observar essa característica na maneira com que ele liga os textos, ou seja, por meio deconectivos como “e”, “novamente” ou “de lá”. Não é possível reconhecer umcronograma exato dos atos de Jesus nesse evangelho, ao contrário do que temos emJoão.
1
Percebemos também que a estrutura do evangelho não leva em conta a seqüênciacronológica dos fatos, pois a tradição sobre a vida de Jesus é organizada de acordo comtrês pontos geográficos: os acontecimentos na Galiléia, os acontecimentos no caminho para Jerusalém e os acontecimentos em Jerusalém.Dessas observações concluímos que esse evangelho não pretende fazer umadescrição completa da vida de Jesus. O que deve ser ressaltado e proclamado, em vezdisso, são os grandes atos de Deus na vida de Jesus.Marcos organiza o seu evangelho do ponto de vista de um escritor. Ele decidiuorganizar o material de acordo com pontos geográficos, como poderia ter decididoorganizá-lo de acordo com parâmetros cronológicos.O que vale para a estrutura geral do livro, pode ser observado também nos textosindividuais. Em vários pontos do evangelho ele interrompe a sua apresentação com umainserção, o que deixa o leitor curioso para ver o fim daquela história. Ele conta, por exemplo, que os familiares de Jesus o procuram e querem prendê-lo, porque têm certezade que ele está louco (3.21). Antes de Marcos contar o término dessa história (3.31-35),descreve a discussão de Jesus com os escribas, que afirmam que Jesus expulsademônios pelo poder de Belzebu. Jesus adverte esses críticos para que não caiam na blasfêmia contra o Espírito Santo, que não pode ser perdoada. Só então Marcos voltaaos familiares de Jesus e conta como este reage contra os devaneios deles.
1

1. Cf. p. 51
 
Inserções desse tipo podem ser encontradas nos seguintes trechos: 5.25-34 entre5.21-24 e 35-43; 6.14-29 entre 6.6-13 e 30ss; 11.15-19 entre 11.12-14 e 20-25; 14.3-9entre 14.1-2 e 10-11. Essa forma de transmissão dos fatos não pode ser explicada pelaseqüência cronológica dos acontecimentos. Aqui um escritor estruturou o seu trabalhode forma intencional.Podemos observar esse aspecto também nos trechos em que um acontecimentodescrito mais tarde no evangelho é anunciado previamente por uma nota breve. É assimque Jesus pede que os seus discípulos aprontem um pequeno barco, para que a multidãonão o pressione (3.9). Se estava de fato precisando do barco, ou o que faria com o barco,só descobrimos no capítulo seguinte (4.1-2). Isso acontece também em outros trechos,como por exemplo em 11.11, que prepara a cena para 11.15ss e 14.54 que sinaliza o quevai acontecer em 14.66ss.João diz no final do seu evangelho, que não haveria lugar no mundo para os livros,se pudéssemos escrever tudo que Jesus fez (Jo 21.25). Marcos também transmite essaidéia da diversidade e da profusão do ministério de Jesus, só que de outra forma. Elereúne os muitos relatos de curas e expulsão de demônios em coletâneas que nãoressaltam o final individual de cada caso, mas que deixam um mesmo impacto (1.32-34;3.7-12; 6.53-56). O mesmo vale para o ministério de ensino de Jesus, também tãoabrangente (1.39; 2.13; 4.2,33; 10.1), do qual o evangelho só traz detalhes de alguns poucos relatos.Resumindo essas características, temos o seguinte quadro: o evangelho de Marcoscontém a tradição sobre o ministério de Jesus ordenada de acordo com parâmetrosgeográficos. No final do relato está a história do sofrimento e da ressurreição, na qualtambém a seqüência cronológica dos fatos tem importância. No restante do texto, vê-seque as perícopes não foram ordenadas aleatoriamente. O autor estruturou o seuevangelho de acordo com regras e um estilo literário definido, e assim ajuda o leitor aentender o ministério de Jesus.
4. Contexto histórico
 Não é por acaso que a mensagem libertadora de Jesus Cristo é associada aoalvorecer do reino de Deus (1.15). Marcos dá importância especial a esse aspecto, eressalta nos primeiros oito capítulos do seu evangelho, que formas isso assume na vidadas pessoas. Elas experimentaram os milagres de cura, ficaram admiradas sobre os seusfeitos poderosos e ouviram a sua pregação de arrependimento, que causava tanto o protesto dos teólogos judaicos, quanto a fé genuína de pessoas muito simples. Tudo issoacontecia na Galiléia, que para os judeus mais religiosos não era exatamente o melhor lugar para o aparecimento do Messias e para o início do reino de Deus. Para eles aquelaregião era de periferia, longe do centro vital dos escolhidos. Mas Jesus veio exatamente para os que estão distantes, para os pecadores, para os gentios. A boa notícia é para elese é isso o que importa para Marcos. Ele está escrevendo um evangelho para os gentios.É por isso que, quando ele fala de Jerusalém, da cidade do templo, do centro nervosodo judaísmo, ele relata quase exclusivamente as discussões de Jesus com os líderes dos judeus. Em Jerusalém é preparado o seu processo, aqui a sua sentença de morte é pronunciada, levada à força aos romanos e executada. O Messias de Israel morre por causa da incredulidade de Israel e assim se torna o Messias para todas as nações. É issoque Marcos aprendeu de Paulo e redescobriu nos relatos de Pedro sobre a vida de Jesus.
5. Ênfases teológicas
Se chamamos a Jesus de Messias de Israel, percebemos que no início do seu relato(até 8.26) Marcos economiza no uso do título Messias e de outras referências à pessoade Jesus. Somente algumas exceções são feitas nas indicações sobre o mistério da sua
 
 pessoa (2.10,17b,19,28). No mais, o relato nessa primeira parte é marcada, peloquestionamento intrigante: “Quem é este, que realiza esses poderosos feitos?” (4.41;6.2,14-16).Mas isso muda radicalmente com a pergunta de Jesus em Cesaréia de Filipe: “Masvós, quem dizeis que eu sou?” (8.29), que Pedro responde com a confissão: “Tu és oCristo”. A partir daí Jesus fala com os discípulos sobre a necessidade do seu sofrimento(8.31; 9.31; 10.33s) e da sua morte expiatória (10.45). Ele permite que os seusdiscípulos mais íntimos participem da transfiguração (9.2-8), responde a questões sobreo profeta Elias, que virá outra vez (9.11-13), declara que ele mesmo é o Cristo (9.41) e prepara a sua entrada triunfal em Jerusalém (11.1-11). Em Jerusalém, a questão da suaautoridade e de sua reivindicação de ser o Messias continua a ter relevância (11.27-33;12.1-12; 12.35-37; 13.26,27,32). Ela é colocada pelo sumo sacerdote no interrogatóriodiante do sinédrio: “És tu o Cristo, o Filho do Deus Bendito?” Jesus responde com adeclaração: “Eu sou, e vereis o Filho do homem assentado à direita do Todo-poderoso evindo com as nuvens do céu” (14.61s).Com isso o mistério sobre a sua pessoa é revelado. Essa revelação também suscita aoposição declarada, que resulta na sentença de morte.Os outros escritores de evangelhos lidam de forma diferente com a questão domistério sobre a pessoa de Jesus. João coloca a proclamação de Jesus como o Filho deDeus no centro do seu evangelho desde o início (Jo 1.14). A razão de Marcos ter escolhido outra forma certamente está relacionada à questão: Qual é a relação entre o poder da mensagem e dos milagres de Jesus, e o seu sofrimento e morte na cruz? O quecausou a mudança de rumo? Onde exatamente surgiu o conflito? Por que só emJerusalém esse conflito chegou ao clímax?Marcos relata que Jesus ordenava aos seus discípulos e às pessoas curadas por ele,que não falassem dele. Até aos demônios ordenou que se calassem (1.34,44; 3.11,12;5.43; 7.36; 8.26,30; 9.9). Por outro lado, na intimidade Jesus falava aos seus discípulossobre a sua missão (7.17s; 9.30s; 10.10); às vezes era necessário explicar-lhes as parábolas (4.10ss,34b). Segundo o relato de Marcos, ele fez todo o possível para proteger o mistério do Messias. Muitos estudiosos do NT argumentam que essa não éuma forma teológica de se estruturar um evangelho.
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Mas o que Marcos queria eradocumentar o que é imprescindível no relato sobre a vida de Jesus: Se Jesus quisesserealizar a missão que o pai celestial lhe delegara — levar o reino de Deus às pessoas,ensinar os discípulos e prepará-los para a sua missão — ele precisaria de tempo.Confessar precocemente que era o Messias teria causado o fim imediato do seuministério. Os romanos tinham ojeriza por esse tipo de comportamento. Mesmo que emgeral fossem tão tolerantes em questões religiosas, não toleravam a reivindicação do poder por alguém outro que o imperador. Um “rei dos judeus” não iria muito longe.Devemos a Marcos a representação tão dramática dessa situação na vida de Jesus.Os seus leitores teriam a oportunidade de sentir esse drama e, dessa forma, entender melhor o mistério da pessoa de Jesus. Ele não era nenhum libertador político e tambémnão queria que as expectativas pelo Messias, tão grandes naquela época, levassem o povo a aclamá-lo como tal (cf. Jo 6.15!). Ele queria simplesmente cumprir a missão doseu Pai celestial, que era de entregar a sua vida como pagamento por muitos (10.45).Dessa forma ele se tornou salvador de muitas pessoas.
1

2

2. W. G. Kümmel,
Introduction
, p. 6; cf. também p. 62, nota 30.1Hörster, Gerhard:
Introdução E Síntese Do Novo Testamento
. EditoraEvangélica Esperança, 1996; 2008, S. Mc 1:1
 
6. Unidade
Em todas as versões alemãs modernas temos a indicação de que há dificuldades comos manuscritos em relação aos versículos 9-20 do capítulo 16.Elberfelder, por exemplo, coloca no rodapé: “Os versículos 9-20 não constam dealguns dos manuscritos mais antigos.”Esta última observação, mesmo resumida, acerta em cheio a realidade dos fatos: Osversículos 9-20 não estão nos dois manuscritos completos mais antigos: o Sinaítico e oVaticano. Mas outros manuscritos como o Alexandrino, o Códice Efraimita“rescriptus”, o Códice Beza Cantabrigiense, cuja forma textual vem do século II,contém esses versículos. Além disso, alguns manuscritos menos importantes trazem aversão que a
Gute Nachricht 
(Bíblia na Linguagem de Hoje em alemão) cita nas notas.Como explicar as conclusões tiradas dos manuscritos?Alguns teólogos estão falando de um “final falsificado” do evangelho de Marcos, oque está fora de questão. Essa forma de tratar o assunto parece indicar que nesse textosão transmitidos fatos inverossímeis. Basta olhar para o texto e verificar que esse não éo caso. O que está nesse texto é descrito em detalhes nos outros evangelhos.Mesmo assim permanece a questão, se os versículos 9-20 de fato pertenceram aoevangelho original de Marcos. Isso é questionável porque os dois manuscritos citadosnão contém esses versículos. Em outras palavras, deve ter havido um evangelho deMarcos que terminava com o versículo 8, que não é exatamente um final de livro muitomarcante: “E de medo nada disseram a ninguém.” O que segue é um resumo dashistórias da ressurreição encontradas nos outros evangelhos. O objetivo com isso era dar um final adequado ao evangelho de Marcos? Quem teria acrescentado esse final?A maioria dos estudiosos atuais concorda que um revisor anônimo que trabalhavacom os evangelhos no século II tenha acrescentado os versículos 9-20. A essa altura eletinha acesso aos outros evangelhos e por isso pôde fazer um resumo dos seus capítulosfinais. É possível reconhecer esse tipo de influência em várias versões atuais.Mesmo assim, seria interessante refletir sobre as alternativas que F. Godet sugeriu.
3
Ele apresenta as conclusões da crítica textual que mostram, segundo ele, que esse finalnão fazia parte do texto original do evangelho:1) Entre os versículos 8 e 9 há uma ruptura evidente.2) O versículo 1 é repetido no versículo 9.3) O conteúdo dos versículos 9-20 consiste, em grande parte, de um resumo brevedos acontecimentos da páscoa, que, nos outros evangelhos, são descritos em detalhes.O final breve de Marcos, atestado por alguns manuscritos de menor importância (cf.
Gute Nachricht 
), provavelmente surgiu porque um evangelho que terminasse com oversículo 8 era considerado incompleto. Com base no testemunho dos manuscritos e noseu estilo estranho ao texto, é fácil reconhecê-lo como acréscimo posterior.Godet sugere que na reflexão sobre os versículos 9-20 pensemos no fato de queMarcos era companheiro de viagem de Pedro. Mas, de acordo com a antiga tradição,Pedro morreu como mártir na perseguição comandada por Nero. É possível imaginar que Marcos tenha fugido repentinamente de Roma e tenha deixado o seu evangelho emRoma, sem poder concluí-lo. Desse evangelho logo foram feitas cópias que tambémchegaram ao Códice Sinaítico e ao Códice Vaticano.Segundo a tradição da igreja antiga, Marcos realizou parte do seu ministério emAlexandria. Será que ele mesmo escreveu o final do seu evangelho lá e depois o envioua Roma? Isso explicaria a ruptura no texto antes do final tanto pelo tempo quanto peladistância para que o final chegasse ao seu destino. A favor dessa posição está o fato de
3

3. F. Godet,
Einleitung
(Introdução), p. 199-209.
 
que o estilo de Marcos é mantido no final, como também a continuação da atitudecrítica do autor em relação aos discípulos de Jesus (cf. 16.14). Esse final teria então sidoacrescentado ao texto original e, juntamente com o evangelho completo de Marcos, teriasido preservado em Roma. A partir do século II teriam surgido as primeiras cópias jácom esse final.A conclusão à qual Godet queria que chegássemos com essas reflexões pode ser observada nas observações que ele mesmo faz:O leitor atento das últimas páginas do evangelho talvez tenha percebido os sinaisinconfundíveis de uma mudança na compreensão da questão ali tratada. No início dessetrabalho eu estava em concordância com a maioria dos estudiosos, considerando essefinal falsificado. Apesar disso, por causa das observações a seguir, eu não conseguisuprimir um desconforto crescente em mim sobre a questão: 1) há o
crescendo
de umtema bem sinalizado e bem conduzido nesse final (cf. especialmente Klostermann, p.305); 2) nesse final chama a atenção a continuação do tom crítico em relação aosdiscípulos; esse aspecto está em harmonia impressionante com o restante do evangelhode Marcos. Será que um outro escritor, que não fosse o próprio autor, conseguiria penetrar tão profundamente nessa característica tão peculiar do livro? Com isso, fuilevado a questionar, se as provas antes mencionadas da falsidade do final de Marcoseram realmente tão irrefutáveis, quanto me pareciam anteriormente. A explanaçãoacima não é nada mais do que uma tentativa de responder à questão, sem a pretensão desolução definitiva do problema.
4
 Nesse sentido, concordo com Godet e gostaria de apresentar a sua tentativa aos meusleitores para que a testem e continuem refletindo sobre a questão.
7. Autor
O evangelho não cita o nome do autor. O título vem de índices do NT escritos noséculo II. Essa é, portanto, uma informação da igreja antiga. Que pontos confirmam essainformação? No evangelho não há pontos de apoio para essa posição. Há pessoas que se referemao jovem que, na hora em que Jesus foi preso, deixou o lençol com que se vestia nasmãos dos soldados (14.51). Que Marcos queria se identificar dessa forma como autor dolivro é pouco provável.Uma constatação a que devemos dar mais valor vem da
 História Eclesiástica
escrita por Eusébio (260-339). Ele cita o pai da igreja Papias, que viveu no início do século II,e, assim, ainda tinha contato com a era apostólica. Papias escreveu uma “Exposição das palavras do Senhor”, na qual se baseia no presbítero João que teria dito:Marcos escreveu com exatidão, mas não em ordem, as palavras e os atos do Senhor,dos quais, como intérprete do apóstolo Pedro, ele recordava. Pois ele mesmo não tinhaouvido e acompanhado o Senhor; mas, como dito, mais tarde seguiu a Pedro, queapresentava os seus ensinamentos de acordo com as necessidades dos seus ouvintes,mas não em forma completa dos discursos de Jesus. Por isso não é erro se Marcosanotou algumas coisas assim como a sua memória as ditava. Pois ele tinha uma grande preocupação: não omitir nada do que tinha ouvido, e não se tornar culpado de algumamentira no seu relato.
5
De qual Marcos estamos falando aqui? De João Marcos, que vinha de Jerusalém. Nacasa de sua mãe Maria se encontravam os cristãos da igreja primitiva (At 12.12). O seu primo era Barnabé (Cl 4.10). Na primeira viagem missionária ele acompanhou Paulo eBarnabé (At 12.25; 13.5). Mas o seu ministério na viagem terminou abruptamente e ele
4

4. F. Godet,
Einleitung
, p. 209.5

5. Eusébio,
História Eclesiástica
, III, 39.15.
 
regressou a Jerusalém (At 13.13). Paulo, naquela época, o considerou um fracassado; por isso não queria levá-lo na viagem seguinte. Barnabé tinha outra opinião, mas os doisnão chegaram a um acordo. Por isso se separaram e continuaram os seus esforçosmissionários independentes um do outro (At 15.37ss). Mais tarde, no entanto, Marcos énovamente mencionado como colaborador de Paulo (Fm 24; Cl 4.10; 2Tm 4.11).Evidentemente, ele conseguiu novamente a aprovação de Paulo. O NT não faz mençãodo trabalho dele como intérprete de Pedro.Que grau de confiabilidade tem a informação de Papias? Kümmel, nas últimasedições da sua Introdução, é cético em relação a esta informação e se baseia nasseguintes razões: segundo ele, o evangelho de Marcos contém erros nas indicaçõesgeográficas que uma pessoa originária de Jerusalém não podia cometer. Por exemplo,Gerasa não poderia estar na outra margem do mar da Galiléia (5.1). Também não seria possível ir de Tiro ao mar da Galiléia por Sidom e de lá chegar a Decápolis (7.31).Também a observação de que Jesus foi para o território da Judéia além do Jordão, nãofaria sentido (10.1).
6
Mesmo sem entrar em discussão abrangente e detalhada sobre o assunto, poderíamos perguntar se de fato a região dos gerasenos é tão distante do mar da Galiléia; por quenão seria possível passar por Sidom para ir de Tiro ao mar da Galiléia e por que oministério além do Jordão seria impossível na viagem para Jerusalém?As outras objeções de Kümmel contra a informação de Papias — como alguém deJerusalém escreve para cristãos-gentios? o relato sobre a morte de João Batista nãoencaixa nos costumes da Palestina; o autor negligencia o fato de que 6.35ss e 8.1ss sãovariantes de uma mesma história de multiplicação dos pães — não convencem.
7
Por issocreio que a informação de Papias é confiável.Concordo com muitos outros estudiosos, como também Kümmel pensava nas primeiras edições da sua Introdução, que João Marcos é o autor do evangelho (Carson& Moo & Morris
8
, Guthrie
9
, Gnilka?
10
, Pohl
11
, Wikenhauser 
12
).
8. Destinatários
Seguindo as conclusões de Godet sobre o final de Marcos, este evangelho foi escritoà igreja em Roma. Visto que se trata de uma hipótese, que mesmo Godet sugere comressalvas, precisamos ser cuidadosos com afirmações definitivas sobre os destinatários.Com base nas características do evangelho, os destinatários provavelmente estão emigrejas missionárias de cristãos entre os gentios.
9. Local e data em que foi escrito
Ainda de acordo com a sugestão de Godet, é fácil definir as duas coisas. Pedro provavelmente morreu como mártir sob Nero em 66. O evangelho foi escrito antes, mas próximo disso. Godet sugere o ano de 64 e pressupõe que foi escrito em Roma.Mesmo que sejamos céticos em relação às notícias da igreja antiga sobre JoãoMarcos, é possível determinar aproximadamente a data: com base nas orientações deJesus em Marcos 13.14, a igreja primitiva abandonou Jerusalém antes do cerco dosromanos e fugiu para Pela, na Peréia. Isso sugere que estas orientações teriam sido
6

6. W. G. Kümmel,
Einleitung
, p. 69.7

7. W. G. Kümmel,
Einleitung
, p. 69.8

8. D. A. Carson & D. J. Moo & L. Morris,
Introduction
, p. 92-95.9

9. D. Guthrie,
Introduction
, p. 69-72.1
0
10. J. Gnilka deixa aberta a questão da autoria, Das Evangelium nachMarkus, p. 32-33.1
1
11. A. Pohl, Das Evangelium des Markus, p. 16-24.1
2
12. A. Wikenhauser & J. Schmid, Einleitung, p. 210-216.
 
escritas antes de 66 d.C. Dessa perspectiva é impossível fazer afirmações quanto aolocal em que foi escrito o evangelho.
10. Comentários
W. Barclay,
Markusevangelium
, 4 ed. 1986; J. Ernst,
 Das Evangelium nach Markus
,
 NT, vol. 2, 1981; J. Gnilka,
 Das Evangelium nach Markus
E
KK, vol. 2/1, 2 ed. 1986,vol. 2/2, 2 ed. 1986; W. Grundmann,
 Das Evangelium nach Markus
,
T
hHK, vol. 2, 10ed. 1989; E. Haenchen,
 Der Weg Jesu — Eine Erklärung des Markusevangelium und der kanonischen Parallelen,
2 ed. 1968; E. Lohmeyer,
 Das Evangelium nach Markus
,
EK, vol I/2, 17 ed. 1967; D. Lührmann,
 Das Markusevangelium
, 1987; R. Pesch;
 DasMarkusevangelium
,
H
ThK vol. II/1, 5 ed. 1989, vol. II/2, 4 ed. 1991; A. Pohl,
 Das Evangelium des Markus
,
W
StB, 1986; F. Rienecker,
 Das Evangelium des Markus
, 10 ed.1985; A. Schlatter,
 Der Evangelist Markus
, 1935; J. Schmid,
 Das Evangelium nachMarkus
, RNT, vol. 2, 4 ed. 1958; J. Schniewind,
 Das Evangelium nach Markus,

 N
TD,vol. 1, 12 ed. 1977; E. Schweizer,
 Das Evangelium nach Markus
, NTD vol. 1, 16 ed.1983.
O EVANGELHO SEGUNDO MATEUS
1. Conteúdo
O primeiro evangelho do NT foi o que mais influenciou a história da igreja cristã. No século II ele já era conhecido em todo o cristianismo. Formava a base para ainstrução sobre as palavras e a vida de Jesus Cristo. Por essa razão, era lido nos cultos eservia de orientação no preparo dos candidatos ao batismo (catequese). No evangelho deMateus era também baseada a proclamação sobre as palavras de Jesus.Mesmo que ao longo da história da igreja os outros evangelhos tenham crescido eminfluência, o evangelho de Mateus continuou com a preeminência. Afirmações sobre a pregação de Jesus se orientam ainda hoje primeiramente por Mateus, pois contém oSermão do Monte, as parábolas sobre o Reino de Deus, as orientações de Jesus para asua igreja e o discurso sobre o juízo final.Sendo assim, o evangelho é caracterizado pelas grandes seqüências de discursos, quedefinem também a estrutura do evangelho.
2. Divisão, versículos-chave, afirmações-chave
C
APÍTULO
P
ERÍCOPES
V
ERSÍCULOS
-
CHAVE
1 e 2Histórias introdutórias
Árvore genealógica, osmagos, a fuga, infanticídio3 e 4Marcos I (introdução)
5-7O Sermão do Monte
As bem-aventuranças,antíteses
5.3-12, 13-17
RNT Regensburger Neues Testament, RegensburgEKK Evangelisch-katholischer Kommentar zum Neuen Testament, Zürich,Einsiedeln, Köln, Neukirchen ThHK Theologischer Handkommentar zum Neuen Testament, BerlinKEK Kritisch-exegetischer Kommentar über das Neue Testament, GöotingenHThK Herders theologischer Kommentar zum Neuen Testament, Freiburg,Basel, WienWStB Wuppertaler Studienbibel, WuppertalNTD Das Neue Testament Deutsch, Göttingen
 
Orar, andar ansioso
6.6-13, 24-33
Julgar, fazer 
7.1s, 7, 12-14, 21
8 e 9Marcos II (Jesus na Galiléia)
9.37s
Destaque: Levi é chamadoMateus
10Mensagem de envio
Envio, situação
10.16, 19
Seguir a Jesus, sofrer 
10.24, 32s, 37
11-12Marcos II (Jesus na Galiléia)
9.37
Destaques: pergunta de JoãoBatista“Ais” e exultação, clamor dosalvador 
11.28-3013Parábolas do Reino deDeus
O semeador, o joio no trigo,o grão de mostarda, ofermento, otesouro, a pérola, a rede14-17Marcos III (preparo para osofrimento) + Marcos IIDestaque: imposto no templo
18O ensino sobre a igreja
A briga por posição,disciplina na igreja
18.15-17, 18
Oração em conjunto, ocredor incompassivo
18.19s
19-22Marcos III e IV (Jesus emJerusalém)Destaques: os trabalhadoresna vinha, os dois filhosdiferentes23“Ai de vós”Ameaças, lamentação sobreJerusalém
23.8b24-25O sermão sobre o fim dostempos
Apocalipse (Marcos V)As dez virgens, os talentos, o juízo final
25.40, 4526-27O sofrimento28Relatos da ressurreição28.18-20
Afirmações-chave
Vós sois o sal da terra … . Vós sois a luz do mundo.
Matteus 13a, 14a
 
 Portanto, todo aquele que me confessar diante dos homens, também eu o confessareidiante de meu Pai que está nos céus; mas aquele que me negar diante dos homens,também eu o negarei diante de meu Pai que está nos céus.
Mateus 10.32-33
Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. Ide, portanto, fazei discípulos detodas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo;ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estouconvosco todos os dias até à consumação do século.
Mateus 28.18b-20
3. Gênero literário
A comparação com o evangelho de Marcos faz aparecer de forma especial ascaracterísticas de Mateus:Em vários lugares Mateus registra as perícopes de forma mais abreviada do queMarcos. Isso é evidente, por exemplo, no relato sobre a morte de João Batista (Mt17.14-21 / Mc 9.14-29). A questão é se isso é o resultado de uma revisão do evangelhode Marcos, ou se Marcos detalhou o relato mais resumido de Mateus. Ou será que osdois relatos foram escritos sem dependência um do outro mas a partir de uma outra basecomum? A situação atual das pesquisas não permite uma conclusão segura.A característica mais importante do evangelho de Mateus é a seqüência de discursos,que terminam sempre com palavras semelhantes no seu conteúdo: “Quando Jesusacabou de proferir estas palavras, …” (7.28; 11.1; 13.53; 19.1; 26.1). Isso dá aimpressão de que o autor reuniu os discursos de Jesus em seqüências temáticas. Essaimpressão é reforçada pelo fato de que Lucas reproduz esses mesmos discursos deJesus, só que em outros contextos. Para Mateus esses discursos de Jesus eram tãoimportantes, que ele atribuiu peso especial a eles ao relatar sermões interligados entre si por um tema comum.A estrutura deste evangelho demonstra que Mateus deu valor superior ao ensino deJesus do que Marcos. No entanto, ele não ignora os diálogos de Jesus com os seusconterrâneos, os judeus, nem os milagres de Jesus. Assim como Marcos, ele também osregistra. Mas a marca especial de Mateus é o ensino de Jesus.Salta aos olhos que Mateus pressupõe entre os seus leitores um certo conhecimentoda situação em que se passam os eventos do seu evangelho. Ele não explica costumes,tradições e expressões idiomáticas dos judeus, como por exemplo o costume de lavar asmãos (Mt 15.2 / Mc 7.2s), os filactérios que eram usados no braço (Mt 23.5), as franjasnos cantos das vestes (fios e cordões em azul e branco que deviam lembrá-los dosmandamentos da lei: Mt 23.5). Ele registra expressões tão vívidas de Jesus como “coaiso mosquito e engolis o camelo” (Mt 23.24) e “túmulos caiados” (Mt 23.27). Às vezesele até usa expressões aramaicas transliteradas para o grego, como por exemplo
raka
,que significa tolo, idiota (Mt 5.22) ou
korbanan
, que é tesouro do templo (Mt 27.6).A questão do divórcio é formulada como os rabinos da época costumavam formulá-la: “É lícito ao marido repudiar a sua mulher por qualquer motivo?” (Mt 19.3). Aresposta de Jesus é dada de forma semelhante: “Quem repudiar sua mulher, não sendo por causa de relações sexuais ilícitas, e casar com outra, comete adultério” (Mt 19.9). Nessa dependência tão forte da religiosidade judaica, constatamos que a validade dalei não foi interrompida (Mt 5.19; 23.3). Até a forma de expressão é definida por essadependência. Em vez de falar do reino de Deus (como Marcos e Lucas) Mateus fala doreino dos céus (veja as parábolas sobre o reino dos céus). Marcos só cita o “pai que estános céus” uma vez, enquanto Mateus fala dele 15 vezes (Mt 6.9; 7.11; 10.32s e outros).O que mais chama a atenção neste primeiro evangelho, além das seqüências dediscursos de Jesus, são as assim chamadas citações reflexivas. Nelas são mencionadosacontecimentos da vida de Jesus na sua relação com o AT e as suas promessas (Mt1.22s / Is 7.14; Mt 2.6s / Mq 5.1,3; Mt 2.15 / Os 11.1; Mt 2.17s / Jr 31.15; Mt 3.3; Is
 
40.3; Mt 4.14-16 / Is 8.22—9.1; Mt 8.17 / Is 53.4; Mt 12.17-21 / Is 42.1-4,9; Mt 13.35 /Sl 78.2; Mt 21.4 / Is 62.11; Zc 9.9; Mt 27.9s / Zc 11.13; Jr 18.2s). É evidente queMateus quer demonstrar nessas citações que em Jesus se cumpriram as promessasmessiânicas do AT: ele é o Messias de Israel.
4. Contexto histórico
Em que formas de vida da igreja primitiva este evangelho foi concebido? Em quesituações foi usado e depois transmitido a nós? Em que contexto este evangelho surgiu?Esta é a questão pelo “Sitz im Leben” (lugar vivencial) do surgimento do evangelho.Três possíveis respostas serão citadas e comentadas: Na sua essência, o evangelho é um lecionário. Assim denominamos os livros queregistravam a vida e o ministério de Jesus para serem lidos nos cultos da igreja primitiva. G. D. Kilpatrick,
1
que defende essa tese, supõe que uma parte da igreja primitiva tenha lido nos seus cultos textos de Marcos e da fonte de
logia
(dosdiscursos). Posteriormente teriam sido feitos acréscimos. Tudo isso teria resultado noevangelho de Mateus, que se transformou então em um lecionário, destinado às leituras públicas nos cultos.Como base para essa suposição, ele dá alguns argumentos: melhor estilo oral secomparado com Marcos, formulação mais resumida e mais exata, a repetição defórmulas e as frases completas nelas contidas. Estas são, de fato, características doevangelho de Mateus. Mas não são, por si só, suficientes para provarem o seu usolitúrgico. Por essa razão, há ainda outras explicações para o “Sitz im Leben” da origemdo evangelho.K. Stendahl
2
 supõe que há uma escola teológica por trás deste evangelho. Dessaforma teriam sido instruídos mestres e líderes das igrejas no cristianismo primitivo. Oque lhes era ensinado teria resultado no evangelho de Mateus. Como um dosargumentos principais ele cita o capítulo 18. Segundo Stendahl, esse não foi um ensinoespecífico para a igreja como um todo, mas muito mais um conjunto de orientações paraa liderança da igreja.Argumento a favor dessa idéia seria também o conhecimento e a interpretação doAT, que pressupõe o trabalho de estudo da Palavra com iniciados. Possivelmente,tratava-se então de uma “escola de Mateus”.Quem considera essa posição muito limitada, possivelmente concorde com D.Guthrie,
3
 que considera o evangelho de Mateus o guia de catequese na instrução docristianismo primitivo. Recém-convertidos a Jesus Cristo precisavam desse tipo deinstrução. O evangelho de Mateus é muito apropriado para isso, pois nele são tratadosos principais temas da fé cristã. A maior ênfase dele está no ensino de Jesus, e portanto,é ideal para passar esse ensino adiante. Por ter sido usado dessa forma, tornou-se umagrande influência não somente sobre a liderança, mas também sobre toda a igreja cristã primitiva.
5. Ênfases teológicas
O aspecto principal no evangelho de Mateus é o ensino sobre Jesus, ou seja, acristologia.O que importa para Mateus é demonstrar que Jesus de Nazaré é o Messias tãoesperado pelo povo judeu. O objetivo das citações reflexivas é servir de prova para essa
1

1. G. D. Kilpatrick,
The Origin of the Gospel according to St. Matthew
(Aorigem do evangelho segundo São Mateus), 1946.2

2. K. Stendahl,
The School of St. Matthew and its use of the Old Testament 
(A escola de São Mateus e o seu uso do AT), 1954.3

3. D. Guthrie,
Introduction,
p. 16.
 
demonstração. Vemos esse aspecto também no título messiânico que só Mateusapresenta dessa forma: Filho de Davi (cf. 12.23; 15.22; 21.9,15).Salta aos olhos também, o fato de que a árvore genealógica em Mateus começa comAbraão, o homem com quem Deus iniciou a história de Israel (1.1ss). Segundo Mateus,se Jesus é o Messias, isso não significa que ele veio para abolir a lei, mas para cumprí-la(5.17).Um segundo aspecto muito enfatizado se origina na tensão entre o particularismo e auniversalidade (a salvação é para todos). Os dois elementos estão presentes lado a ladona proclamação e na vida de Jesus.O particularismo se mostra nas palavras de Jesus que reforçam a verdade de que oseu ministério se restringe a Israel. Aos doze discípulos que ele envia, ordena: “Nãotomeis rumo aos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos; mas, de preferência, procurai as ovelhas perdidas da casa de Israel” (10.5-6). Ele lhes promete que nãoconseguirão terminar essa tarefa até que venha o Filho do homem (10.23).Semelhantemente, Jesus diz à mulher cananéia da região de Tiro e Sidom que lhe pedeajuda: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.” E com maisexatidão: “Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos” (15.24,26).Essa segunda rejeição também Marcos registrou; a primeira só Mateus.Por outro lado, a universalidade está presente nesse evangelho desde o início. Onascimento de Jesus tem efeito sobre todas as pessoas, até os astrólogos lá do oriente.Eles conseguem perceber o acontecimento pelos seus meios de reconhecimento e vêmadorar o Messias, o Rei de Israel (2.1-12). A árvore genealógica não vai só até Abraão.Ela também inclui nomes de mulheres gentias: Raabe e Rute. Quando Jesus interpreta a parábola do joio no meio do trigo, ele diz que o solo é o mundo (13.38). Na paráboladas bodas que um rei fez para o seu filho, depois que os convidados não responderam aoconvite do rei, os servos são enviados às ruas para convidarem ao casamento todos osque acharem (22.9). No sermão apocalíptico Jesus anuncia que, antes do fim do mundo,o evangelho do reino precisa ser pregado a todos os povos (24.14). Finalmente, oSenhor ressurreto delega a seus discípulos a grande missão: “Ide, portanto, fazeidiscípulos de todas as nações, …” (28.19).A tensão entre o particularismo e a universalidade nos ensina que este evangelho éescrito por uma testemunha de Jesus Cristo, que sabe que o Senhor dedicou a sua vidaaqui na terra aos judeus, mas que os discípulos têm a tarefa de levar o evangelho a todasas pessoas. O seu testemunho agiu principalmente sobre a ala helenística dos cristãos deorigem judaica.Um terceiro aspecto de grande ênfase em Mateus diz respeito ao ensino sobre aigreja, a eclesiologia. Somente no evangelho de Mateus encontramos declaraçõesespecíficas sobre esse tema.Após a declaração de Simão Pedro em Cesaréia de Filipe, Jesus lhe diz: “tu és Pedroe sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerãocontra ela” (16.18). No assim denominado sermão sobre a igreja (capítulo 18), Jesusensina a igreja como agir com membros que estão em pecado (18.15-17). A autoridade para ligar e desligar não é delegada somente aos apóstolos. Ela vale para toda a igreja.Aqui já é anunciado o que a reforma chamaria de sacerdócio universal dos crentes.A igreja precisa se posicionar quanto ao ensino ético de Jesus. Ela não podeaprender a crer somente, mas precisa demonstrar a sua fé ao fazer o que Jesus ensinou.Essa é a medida que Jesus vai usar para medir os seus discípulos no final dos tempos:Mateus 7.21-23; 25.31-46. O que é decisivo no final das contas não são palavras bonitase milagres fantásticos dos discípulos. O que vale para Deus é a prática humilde da suavontade.
 
A proximidade entre esse ensino e a carta de Tiago é inconfundível.Um quarto e último aspecto que recebe atenção especial em Mateus, é o ensinosobre as últimas coisas, a escatologia. Em Mateus, os discursos de Jesus sobre o finaldos tempos estão em dois capítulos. São significativamente mais abrangentes do que emMarcos e contêm tradições que só se encontram aqui em Mateus (tradição exclusiva).Essas tradições adicionais não têm caráter especulativo. Não apresentam materialque permita definir com maior exatidão o desenrolar dos acontecimentos no final dostempos. Tampouco contêm visões da glória do novo mundo de Deus. São na verdadeum auxílio para o ensino equilibrado, o que é característica do evangelho de Mateus. Oseu objetivo é prevenir contra o engano da hipocrisia. Exorta os seus leitores a estaremvigilantes e preparados a seguir os ensinos de Jesus. O propósito é preparar a igreja parao retorno de Jesus por meio da vida prática e coerente do discipulado.Visto que o evangelho de Mateus tem essas quatro ênfases teológicas, não é de seadmirar que tenha tido influência tão forte sobre toda a história da igreja de Jesus. Por todos os séculos, pessoas que queriam de fato ser cristãs, se basearam neste evangelho.Sempre de novo foi repetida a sua exortação contra a compreensão superficial da fé e daigreja. Por isso o evangelho de Mateus desencadeou muitos movimentos de avivamentoe de renovação da igreja de Jesus Cristo.
6. Unidade
O evangelho de Mateus, na forma como nos foi transmitido no NT, é o textocompleto e acabado de um autor. Nem os manuscritos e nem observações no conteúdo permitem dúvidas quanto à sua unidade.
7. Autor
O evangelho não faz menção alguma do seu autor. O nome de Mateus é citado notítulo do evangelho, que surgiu no século II e a partir de lá foi incorporado à tradição. Aatribuição desse evangelho a Mateus remonta, portanto, à tradição da igreja antiga. Elase baseia nos seguintes argumentos:Eusébio relata na sua
 História Eclesiástica
: “Mateus fez uma coletânea dosdiscursos de Jesus em hebraico; cada um, no entanto, os traduziu o melhor que pôde”.
4
De Irineu lemos: “Mateus também publicou um evangelho entre os hebreus na sualíngua, enquanto Pedro e Paulo pregavam em Roma e lá fundaram a igreja.”
5
 No quinto livro da
 História Eclesiástica
de Eusébio lemos o relato de Pantaenussobre o evangelho de Mateus. Pantaenus foi um teólogo muito hábil de Alexandria. Eleentendeu que a sua tarefa era a evangelização dos povos do oriente e viajou para a Índia.Quando chegou à Índia teria encontrado cristãos que já conheciam o evangelho deMateus. Deles ouviu que o Apóstolo Bartolomeu lhes pregara a boa notícia e lhesdeixara o evangelho segundo Mateus em hebraico.
6
E por último, Eusébio cita Orígenes no sexto livro da sua
 História Eclesiástica
, queteria dito no primeiro livro do seu comentário sobre Mateus:Com base na tradição tenho descoberto a respeito dos quatro evangelhos, que foramaceitos sem restrições na igreja de Deus por onde ela tem se espalhado debaixo do céu,que primeiro foi escrito o evangelho por Mateus, o que havia sido cobrador de impostose depois foi discípulo de Jesus Cristo. Foi escrito na língua hebraica para os que creramentre os judeus …
7
4

4. Eusébio,
História Eclesiástica
, III, 39.16.5

5. Irineu,
 Adversus Haereses
III, 1.1.6

6. Eusébio,
História Eclesiástica
, V, 10.1-4.
 
A tradição da igreja antiga confirma dois fatos sobre o primeiro evangelho: oapóstolo Mateus é o seu autor e ele escreveu o seu evangelho na língua hebraica.Quanto podemos confiar nessa tradição? Notamos que todos os testemunhos da igreja antiga atestam que o evangelho deMateus foi escrito em hebraico. Isso afirmam até os pais da igreja como Irineu eOrígenes, cuja língua materna era o grego, o que nos leva a concluir que eles tambémconheciam o evangelho de Mateus em grego. Tinham, portanto, mais informações sobrea origem deste evangelho.É de se imaginar que todos se basearam na mesma fonte: Papias. Presumivelmenterelacionaram as suas observações com o primeiro evangelho. Daí pode ter surgido atradição de que Mateus escreveu o evangelho em língua hebraica. Mas na verdade,Papias não se referiu ao primeiro evangelho. Ele simplesmente falou dos
logia
(palavras), que Mateus registrou em hebraico. Cada um então traduziu esses
logia
deacordo com as suas condições.Podemos concluir, portanto, que a tradição da igreja antiga se refere à proclamaçãode Jesus que o primeiro evangelho transmite por meio de Marcos. Essa tradição estaria baseada sobre o apóstolo Mateus, que teria registrado a formulação original hebraica. Atradução grega dessas palavras se tornou então uma parte fundamental do primeiroevangelho, que, por esta razão, recebeu o nome de “evangelho segundo Mateus”. Essatradução provavelmente foi feita pelo próprio Mateus, como Godet presume.
8
Seria, portanto, uma versão grega das palavras de Jesus autorizada por um apóstolo. Quem emseguida tomou a tradição dos atos de Jesus, que encontramos em Marcos, e as palavrasde Jesus, que são típicas em Mateus, ajuntou tudo e editou em um evangelho, nãosabemos.Quem é esse apóstolo Mateus?O seu nome está em todas as listas de apóstolos: Mateus 10.3; Marcos 3.18; Lucas6.15; Atos 1.13. Em Mateus 10.3 ele é denominado cobrador de impostos e com issorotulado como um daqueles homens tão odiados por seus conterrâneos, os judeus, por trabalharem para o estado romano, explorarem o povo e por enriquecereminescrupulosamente. Em Mateus 9.9-13 nos é relatado como Jesus o chamoudiretamente da coletoria para segui-lo e como Jesus, com essa atitude e também com arefeição que partilhou com os colegas de Mateus logo em seguida, se expôs à veementecrítica dos fariseus. Marcos e Lucas também registram a história desse chamado, com adiferença de que lá esse publicano é chamado Levi (Mc 2.13-17; Lc 5.27-32). Por isso, partimos do pressuposto de que ele tinha dois nomes, Levi Mateus.Foram levantadas algumas objeções contra a participação direta de um apóstolo naelaboração deste primeiro evangelho.
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Se de fato um apóstolo participou tão diretamentena edição deste evangelho, por que então ele não é um relato biográfico? Contra-argumentamos: Por que deveria ele fazer um relato biográfico, se o que importava a ele — a igreja antiga assim o diz — não era a biografia de Jesus, mas as suas palavras?Há questionamentos também quanto às habilidades lingüísticas do autor. Como umhomem simples da Palestina possuía conhecimentos tão abrangentes da língua grega?Isso pressupõe a tradução do evangelho em hebraico ou aramaico para o grego pelo próprio Mateus. A resposta é óbvia. Quem trabalhava como cobrador de impostosnaquela época necessitava de bons conhecimentos da língua grega, pois a língua francadaquela parte do império romano era o grego.
7

7. Eusébio,
História Eclesiástica
, VI, 25.3-4.8

8. F. Godet,
Einleitung
, p. 416.9

9. Cf. W. G. Kümmel,
Einleitung
, p. 92.
 
As ênfases teológicas desse evangelho já mostraram que o autor possuía bomconhecimento do AT e também boa capacidade de reflexão teológica. De onde umcobrador de impostos adquiriu esse conhecimento? Ele provavelmente não estudou comum mestre da lei entre os judeus, como Paulo. Mas teve três anos de estudo teológicocom o próprio Senhor Jesus. Será que isso não é suficiente para explicar a sua proficiência teológica?A última objeção dos críticos à autoria de Mateus a ser mencionada aqui é o fato deque, segundo a teoria das duas fontes, Mateus dependeu de Marcos. Como pode umapóstolo depender de um discípulo de apóstolo? Esse argumento se torna sem valor quando observamos que (1) a teoria da prioridade de Marcos — e com isso a teoria dasduas fontes — está sendo questionada e também (2) que a tradição da igreja antiga baseava somente as palavras de Jesus — e não os seus atos relatados em Marcos — noapóstolo Mateus.Podemos concluir, portanto, que o primeiro evangelho recebeu o seu nome por causado apóstolo Mateus, porque este, segundo a tradição da igreja antiga, registrou as palavras de Jesus que deram forma ao primeiro evangelho. A questão sobre quemtomou essas palavras e as editou juntamente com o material que também encontramosem Marcos precisa permanecer aberta.8. DestinatáriosOs primeiros leitores desse evangelho eram cristãos-judeus familiarizados com oscostumes judaicos e com o AT. O seu objetivo era mostrar e demonstrar aos seus patrícios que Jesus era o Messias de Israel. Eles tinham consciência de que o reino deDeus também era para os gentios. Por isso, os destinatários certamente estão na alahelenística do cristianismo entre os judeus.
9. Local e data
Esse evangelho certamente foi escrito em um local que pudesse ser a pátria da alahelenística do cristianismo de origem judaica. Que lugar seria melhor para isso do queAntioquia da Síria, ponto de partida das viagens missionárias do apóstolo Paulo? Essaigreja, marcada pelo cristianismo judaico-helenístico, levou o evangelho de Jesus Cristoaos gentios e com isso cumpriu a missão que Jesus lhes delegou no primeiro evangelho.Há bons argumentos, portanto, a favor de Antioquia da Síria como local em que Mateusfoi escrito.A data tradicional parte da teoria da prioridade de Marcos. Ela entende que Mateus22.7 é uma indicação de que a destruição de Jerusalém no ano 70 já acontecera. Daí seconclui que o evangelho foi certamente escrito após 70 d.C. Com base nas condiçõeseclesiásticas já bem desenvolvidas pressupostas no evangelho (capítulo 18), e com basena teologia, a data sugerida fica entre 80 e 100 d.C.
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Precisamos rebater essa opinião. Ela pressupõe que nem Mateus 22.7 e tampouco asorientações para a igreja no capítulo 18 são palavras de Jesus. Essas afirmações sãovistas como concepções desenvolvidas pela igreja nos seus primórdios e colocadas na boca de Jesus posteriormente. Isso contradiz a reivindicação de veracidade dos própriostextos como também do testemunho apostólico (cf. 1Jo 1.1-4). Além disso, équestionável se Mateus 22.7 é uma indicação da destruição de Jerusalém.Por esses motivos, a data precisa ser determinada com base em outras reflexões. Hárazões para aceitarmos a proposta de Godet de que os evangelhos sinópticos surgiramna mesma época, o que significa que não houve influência mútua na sua elaboração.
11
Sendo assim, o registro feito por Mateus das palavras de Jesus deve ter acontecido já
1
0
10. W. G. Kümmel,
Einleitung
, p. 90.1
1
11. Cf. p. 18 — 21
 
 bem cedo, talvez até durante o ministério de Jesus na Palestina.
12
A relação entre essas palavras de Jesus e o material que também encontramos em Marcos, teria sidoestabelecida no contexto muito próximo da destruição de Jerusalém, como mostra aindicação para esse evento: “quem lê, entenda” (Mt 24.15). O ano de 66 d.C., sugerido por Godet como data em que o evangelho foi escrito, merece consideração especial.
10. Comentários
W. Barclay,
Matthäusevangelium
, 3 ed. 1980; J. Gnilka,
 Das Matthäusevangelium
,HThK vol. I/1, 2 ed. 1988, vol I/2, 1988; W. Grundmann,
 Das Evangelium nachMatthäus
, ThHK, vol. 1, 6 ed. 1986; E. Lohmeyer & W. Schmauch,
 Das Evangeliumnach Matthäus
, KEK, volume especial, 3 ed. 1962; U. Lutz,
 Das Evangelium nachMatthäus
, EKK, vol. I/1, 2 ed. 1989, vol. I/2, 1990; G. Maier,
 Das Matthäusevangelium1
, Neuhausen-Stuttgart, vol. 1, 3 ed 1983, vol. 2, 3 ed. 1988; W. Michaelis,
 Das Evangelium nach Matthäus,
2 volumes, 1948/1949; F. Rienecker,
 Das Evangelium desMatthäus
, WStB, 13 ed. 1985; A. Schlatter,
 Der Evangelist Matthäus,
1929, 7 ed. 1982;E. Schweizer,
 Das Evangelium nach Matthäus
, NTD, vol. 2 16 ed. 1986; Th. Zahn,
 Das Evangelium des Matthäus
, Leipzig-Erlagen, 4 ed. 1922, Wuppertal, 1984.
O EVANGELHO SEGUNDO LUCAS
1. Conteúdo
O evangelho de Lucas apresenta algumas peculiaridades que o distinguem dosoutros sinópticos. Esse evangelho começa com um prólogo, que fala sobre o materialque o autor tinha à disposição para escrever o seu evangelho, como também sobre oobjetivo e métodos do autor. Como mostra a divisão em partes, o conteúdo de Marcos éseguido em Lucas até a “grande lacuna” (Mc 6.45—8.26). A complementação dessematerial está nas histórias sobre a infância de Jesus, na “pequena intercalação”, na“grande intercalação” e nas histórias da ressurreição (cf. partes entre aspas na divisãoabaixo). Salta aos olhos nesse evangelho a atenção especial que Jesus dá aos pecadores,aos marginalizados pela sociedade, às mulheres e aos pobres. O início do livro de Atosdos Apóstolos evidencia que este livro e o evangelho de Lucas formam uma unidade. Oautor tomou a humanidade de Jesus, o seu ministério, sofrimento, morte e ressurreição,como também a propagação do evangelho de Jerusalém até Roma, e fez de tudo o temade um relato geral. O evangelho é a primeira parte desse relato geral.
2. Divisão, versículos-chave, afirmações-chave
C
APÍTULO
P
ERÍCOPES
V
ERSÍCULOS
-
CHAVE
1.1—4.13Introdução
1.1-4Prólogo1.5—2.52Histórias da infância
2.10s,14,29s
3.1—4.13Preparo
4.14— 9.50Jesus na Galiléia
4.14— 6.19Marcos II (1.14—3.19)6.20— 8.3sPequena intercalação6.20-49O Sermão do Monte7.1—8.3Como Mateus:Material exclusivo:
1
2
12. Cf. Gerhardsson,
Die Anfänge der Evangelientradition
(O início datradição dos evangelhos).
 
O centurião de CafarnaumJovem de NaimPergunta de João BatistaA pecadoraTestemunho de JoãoBatistaMulheres entre os discípulos8.4—9.17Marcos II(Mc 4.1—6.44)
Grande lacuna
(Mc 6.45—8.26)9.18-50Marcos III(Mc 8.27—9.40)
9.51— 19.27“Relato de viagem”
1ª parte do “relato de viagem”9.51—18.14Grande intercalação9.51— 12.53Como Mateus:Material exclusivo:“Ais” e exultaçãoEnvio dos 70Palavras sobre oraçãoO bom samaritanoA luzMaria e MartaA volta de JesusO agricultor rico12.54— 18.14Só material exclusivo:A torre de Siloé, a parábolada figueira,Os primeiros lugares àmesa,A parábola da grande ceia
14.11
Ovelha/moeda perdida efilho pródigo
15.18s,24
Administrador infiel, o ricoe LázaroOs 10 leprosos
Sermão apocalíptico
(17.20-37)A viúva insistente, o fariseue o cobrador de impostos18.25— 19.272ª parte do “relato deviagem”18.15-43Marcos III19.1-27Como Mateus:Material exclusivo:TalentosZaqueu
19.9s19.28— 24.53Jesus em Jerusalém
19.28— 21.4Marcos IV21.5-38Marcos V
21.36
22-23Marcos VI24Relatos da ressurreiçãoComo Mateus:Material exclusivo:
 
Mulheres no túmuloDiscípulos de EmaúsO círculo de discípulosAscensão de Jesus
Afirmações-chave
 Não temais: eis que vos trago boa nova de grande alegria, que o será para todo o povo; é que hoje vos nasceu na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor.
Lucas 2.10,11
 Porque este meu filho estava morto e reviveu, estava perdido e foi achado.
Lucas 15.24
 Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o perdido.
Lucas 19.10
3. Gênero literário
Com 96 páginas no texto grego, o evangelho de Lucas é o livro mais extenso do NT.O evangelho de Mateus tem 87 páginas.O terceiro evangelho é caracterizado por um estilo literário mais refinado. Além de“amém” não há uma única palavra proveniente do hebraico. O material comum a este eos outros dois evangelhos sinópticos é dirigido conscientemente a leitores de fala grega.É verdade, no entanto, que o autor foi mais econômico na transmissão de palavras deJesus do que na narrativa dos fatos.As histórias introdutórias dos primeiros dois capítulos saem um pouco desse padrão.Ali encontramos um estilo grego que lembra a língua “semiticizada” da Septuaginta.Isso é ressaltado especialmente nos hinos de louvor 
Magnificat 
,
 Benedictus
e
 Nuncdimittis
. Esses cânticos são semelhantes em sua linguagem aos salmos do AT. Issoacontece em virtude do local de origem das histórias sobre a infância de Jesus. Este não pode ser achado no helenismo, como muitos querem fazer crer, mas no judaísmo. Sãotradições exclusivas que o autor achou nas suas pesquisas com as pessoas relacionadasaos fatos.Por causa dos seus leitores, o evangelista evita pedras de tropeço que a tradição nosoutros sinópticos pode registrar: os sentimentos de Jesus não são mencionados (cf. Lc6.10; 18.22 com Mc 3.5; 10.21). O juízo dos parentes sobre Jesus falta em Lucas (cf.Mc 3.20s). Em raras ocasiões Jesus cura pelo toque (Lc 6.19; 5.13); na maioria doscasos o evangelista não menciona o toque (cf. Lc 4.39; 9.42 com Mc 1.31; 9.27).De acordo com o relato do terceiro evangelista, Jesus já cedo se identificou como oMessias (Lc 4.21). Desde o início ele é chamado e reconhecido como
 Kyrios
(Senhor;Lc 5.8; 7.13; 10.1,41; 22.61 e outros).O que interessa a esse autor são as pessoas como indivíduos e as suas histórias devida: Zacarias, Isabel e Maria, Marta e Maria, Zaqueu, as mulheres em volta de Jesus, ohomem que foi crucificado do lado dele. Nesse evangelho são registradas palavras docrucificado, que não se acham nos outros evangelhos.
4. Contexto histórico
O evangelho de Lucas começa com um prólogo em que o autor se refere àquelas pessoas que fizeram relato oral ou por escrito sobre a vida de Jesus. Ao mesmo tempo, oautor explica que tipo de pesquisas ele mesmo fez e como registrou os seus resultados.Esse prólogo, é único no NT e por isso merece considerações mais detalhadas.Que a Bíblia é a Palavra de Deus vinda a nós por meio de palavras de homens,raramente nos é apresentado de forma tão clara quanto no evangelho de Lucas. Paradescrever a história do surgimento desse livro não precisamos nos basear somente emsuposições. O próprio autor conta como surgiu a sua obra de dois volumes, o que podeser verificado em Lucas 1.1-4. É evidente nesse prólogo que o autor dá importância àconfiabilidade nos seus relatos.Para alcançar esse objetivo ele se baseia em diversas fontes. Fundamental para issosão as tradições dos apóstolos, que foram testemunhas oculares do ministério de Jesus.
 
Como “ministros da Palavra” eles relataram esse fato. Logo em seguida as suas palavrasforam registradas. Muitos desses testemunhos escritos estavam à disposição de Lucas.Ele se aprofundou no assunto, testou tudo minuciosamente e depois registrou asconclusões de sua pesquisa num relato bem ordenado.O objeto dessas diferentes fontes são as “histórias que aconteceram entre nós”. Oque elas significam? O que não?A palavra “histórias” pode significar fatos que de fato ocorreram, como tambémcontos inventados. Quando falamos de histórias do jornal, dificilmente estamos pensando nas notícias sobre os fatos das primeiras páginas, mas antes nos contos que pertencem ao âmbito da conversação. O valor das afirmações dessas histórias nãodepende de os fatos terem acontecido ou não.Quando, por exemplo, Lutero usa na sua tradução o termo “Geschichten” (histórias),isso leva a um mal-entendido; soa como se o conteúdo desse evangelho fosse de contos,cuja confiabilidade histórica não seria tão importante. É evidente que isso não é o caso, pois Lucas usa um termo grego aqui que pode ser melhor traduzido por “fatos”, ou“acontecimentos”. Paralelo a isto está o esforço do evangelista de verificar tudocuidadosamente. O próprio autor dá muita importância à veracidade histórica.Portanto, nesse evangelho estamos diante de fatos que realmente aconteceram. Quefatos estão em jogo aqui? O autor diz: esses fatos se realizaram “entre nós”. Ele mesmonão era testemunha ocular de Jesus. Por isso precisou se basear nos relatos dosapóstolos para poder falar sobre os fatos da vida de Jesus. Mas no caso de Paulo ele eracompanheiro de viagem. Os fatos que lá ocorreram, ele mesmo vivenciou e por isso eratestemunha ocular deles. Sendo assim, ele não escreve somente o evangelho, mas, numsegundo volume, retrata a vida dos apóstolos (Atos dos Apóstolos, cf. At 1.1-3).Quando fala de “fatos que entre nós se realizaram”, está falando em dois aspectos: osfatos da vida de Jesus e o ministério dos apóstolos depois de Pentecostes. Para escrever o primeiro livro ele dependeu de relatos de testemunhas oculares.Desde que existe a igreja de Jesus Cristo, a tradição dos apóstolos é propagada por meio dela (At 2.42). O que os apóstolos ensinaram? A condição para o seu chamado erater acompanhado a Jesus durante todo o seu ministério (At 1.21,22). Tinham de ser capazes de relatar como testemunhas oculares o que tinham experimentado com Jesus, oque tinham ouvido e visto com ele, e o que as suas mãos haviam tocado (1Jo 1.1-4). Por isso o seu ensino não consistia de reflexões teológicas profundas — isso ficarareservada a Paulo —, mas de relatos simples dos acontecimentos na vida de Jesus. Nesses relatos cada apóstolo colocou as suas ênfases, como a comparação entre osevangelhos já mostrou.
1
Visto que a igreja primitiva desde o início falava duas línguas, o aramaico e o grego(cf. At 6), logo o ensino precisou ser apropriadamente editado em língua grega. Não demorou muito para que o grupo que falava grego tivesse que abandonar Jerusalém na perseguição por causa de Estêvão. Os perseguidos se espalharam pelaJudéia e Samaria e começaram a propagar a mensagem de Jesus Cristo. Mas osapóstolos permaneceram em Jerusalém e assim não puderam transmitir a tradição arespeito de Jesus nas novas igrejas. E quem o fazia? O autor dá uma resposta: no início,a tradição dos apóstolos foi transmitida oralmente. Muitos, então, tentaram preparar umrelato baseado na tradição dos apóstolos. Esses relatos escritos, que se perderam paranós, eram conhecidos para o autor desse evangelho. Dele o autor tira informaçõesimportantes para a elaboração do evangelho. Mas ele não se dá por satisfeito com essesrelatos.
1

1. Cf. p. 8 — 1
 
Lucas diz expressamente que ele vasculhou todos os relatos e testemunhoscuidadosamente. Provavelmente ele foi se informar com as pessoas que tinham asinformações. Possivelmente também encontrou ainda outras fontes escritas. O resultadode seu trabalho está no evangelho. Ele descobriu muitas coisas que não estão nos outrosevangelhos, como as histórias sobre a infância de Jesus, a pesca maravilhosa e ochamado de Pedro, as parábolas tão marcantes da ovelha perdida, da moeda perdida edo filho pródigo, do agricultor rico, do administrador infiel, do rico e de Lázaro, dofariseu e do publicano e muito mais. Causa impacto especial a sua história dosofrimento, como mostram as palavras de Jesus na cruz que só Lucas registra. Nãosaberíamos muitas coisas sobre Jesus, se Lucas não tivesse se esmerado nesse tipo de pesquisa.E por último, o evangelista menciona que reuniu todas as informações de quedispunha e as colocou em ordem, para assim apresentar o seu evangelho. Nacomparação com Marcos e Mateus, que registram muitas coisas da mesma forma queLucas, a parte central de Lucas resulta mais abrangente (9.51—19.27). Nesse trecho eledestaca o caminho de Jesus para Jerusalém, um tempo de preparo para o sofrimento.Muito do que é enfatizado por Lucas está nesse trecho. Nas outras partes encontramosuma ordem da tradição apostólica semelhante à de Marcos e Mateus.Assim Deus usou um homem muito capacitado para instruir a sua igreja sobre osacontecimentos da vida de Jesus de forma confiável.
5. Ênfases teológicas
O tema central do terceiro evangelho é “Jesus, o Senhor” (cf. Lc 2.10s). O ministériode Jesus é visto a partir dessa perspectiva no evangelho de Lucas.O autor dá expressão acentuada ao amor que Jesus tem pelos grupos desprezados emarginalizados da sociedade. A esses grupos pertencem pecadores assumidos e outrosque são assim rotulados pela sociedade (Lc 5.1ss; 7.36ss; 15.1ss; 18.9ss; 19.1ss;12.39ss). Mas também os samaritanos, tão desprezados pelos judeus, pertencem a essegrupo (Lc 10.30ss; 17.11ss). Esse evangelista também dá mais atenção às mulheres nogrupo de seguidores de Jesus do que os outros sinópticos (Lc 7.12,15; 8.2s; 10.38ss;23.27ss).O autor desse evangelho destaca a atitude crítica de Jesus em relação às riquezas.Por isso ele registra bem-aventuranças que divergem significativamente das encontradasem Mateus (Lc 6.20s). É por isso também que Lucas registra “ais” que não encontramosem nenhum outro evangelho (Lc 6.24s). Essa também é a razão para ele transmitir a nósas parábolas do agricultor rico (Lc 12.15ss), do administrador infiel (Lc 16.1-9) e dorico e de Lázaro (Lc 16.19ss). O que é criticado nessas passagens não é a exploração eopressão por meio das posses, mas as posses em si, porque se tornam a pedra de tropeço para os que as possuem, pois procuram a realização das suas vidas nas riquezas. Dessa ede outras constatações, surgiu a dissertação do arcebispo de Paderborn, J. Degenhardt,com o título sugestivo “Lucas — evangelista dos pobres”.
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O tema desse evangelho nãoé a piedade judaica pelos pobres, mas o amor de Deus que vale para todos osmarginalizados, portanto, também para os pobres.Esse evangelista estabelece uma relação entre a história de Jesus e a história domundo. Isso se torna evidente na indicação da data de seu nascimento (Lc 2.1s). Oaparecimento de João Batista também é colocado no seu contexto político (Lc 3.1s). Ésomente esse evangelista que nos revela os nomes dos imperadores romanos (por exemplo At 11.28; 18.2). A sua grande preocupação é esclarecer a relação entre os
2

2. J. Degenhardt, “Lucas — Evangelist der Armen” (Lucas — evangelistados pobres), Stuttgart, 1965.
 
cristãos e o estado romano. Por isso ele destaca a inocência de Jesus aos olhos dasautoridades romanas (Lc 23.4,14,20,22,47). A comparação com os outros sinópticosdemonstra a evidência que Lucas deu ao fato de que as autoridades romanas nãoconcordavam com a crucificação de Jesus (Lc 23.25; cf. Mc 15.15; Mt 27.26). SegundoLucas, os líderes judeus são responsáveis pela morte de Jesus na cruz (Lc 20.20,26;23.2,5,18s,23,25).A ênfase especial desse evangelho é a parte central, o chamado relato de viagem.Quem lê os capítulos 10-19, percebe logo que não se trata aqui de um relato detalhadode viagem. Não dá nem para reconhecer a rota exata da viagem, o que provavelmentenão é o objetivo do autor. O tema é outro, é teológico. Jerusalém é a cidade das disputase do sofrimento. A parte central do evangelho mostra como Jesus prepara os discípulos para esse sofrimento. Os evangelhos sinópticos têm sido chamados de histórias desofrimento com uma longa introdução. Isso certamente é verdade em relação a Lucas, principalmente se considerarmos a parte central. Por causa desse trecho, o evangelhotem uma divisão em três partes aproximadamente iguais.Essa divisão em três partes também pode ser notada em outros trechos. Segundo avisão do autor, a história de Deus com a humanidade também é dividida em três grandesépocas: a época do AT, que também pode ser denominada a época da lei e dos profetas;a época do ministério de Jesus (Lc 16.16 cf Mc 11.12) e a terceira grande época, a épocada igreja de Jesus, como a descreve Atos dos Apóstolos. O aparecimento de Jesus Cristoé, pois, o centro da história da salvação. É possível dar mais um passo: visto que o autor associa os acontecimentos da vida de Jesus com a história do mundo, a época doministério de Jesus é, na visão dele, o centro da história do mundo.Certamente esse autor não introduziu o pensamento de acordo com categorias dehistória da salvação. Ele achou essa linguagem nos profetas do AT, sobretudo tambémem Paulo que considerava Jesus o ponto central da história da humanidade, o momentoem que houve a guinada total. Lucas retomou esse tema e colocou o seu relato sobreJesus nesse contexto. H. Conzelmann crê que pode acrescentar mais um argumento aisso: Por causa da demora da volta de Jesus, teria sido necessário tratar a história daigreja da perspectiva de temas diferentes. Por isso a expectativa pela vinda próxima deJesus teria sido abafada no evangelho de Lucas (Lc 19.11ss; 21.8; cf. Mc 13.6; 17.20s;Mt 25.14ss).
3
E H. Conzelmann não está sozinho nessa posição, mas no grupo dos quedefendem a escola histórico-comparativa. A. Schweizer foi o que mais difundiu a teoriado choque inicial (“Urschock”) por causa da demora da volta de Jesus.
4
 No entanto, a expectativa pela volta de Jesus não é, de forma alguma, ignorada emLucas (cf. Lc 3.9,17; 10.9,11; 18.7s; 21.32). Em comparação com os outros sinópticos,aqui o tempo presente é mais caracterizado como tempo de salvação, enquanto a históriade Jesus vai ficando no passado e a volta de Jesus é colocada no futuro.
6. Unidade
 Não há como negar que o livro tenha vindo do próprio autor na forma como o temoshoje. Tanto a evidência externa dos manuscritos quanto a evidência interna comprovama unidade desse escrito.
7. Autor
 Nem o evangelho e nem tampouco Atos nos dão indicação direta ou indireta sobre oautor do livro. Falta em Papias um testemunho a respeito de Lucas, como ele tem a
3

3. H. Conzelmann,
Die Mitte der Zeit 
(O ponto central das épocas), p. 87-127.4

4. A. Schweizer,
Die Geschichte der Leben-Jesu-Forschung
(A história dapesquisa sobre a vida de Jesus), 1913.
 
respeito de Marcos e Mateus. Recebemos alguma informação nos seguintes escritos daigreja antiga:Irineu escreve: “Lucas, companheiro de viagem de Paulo, registrou o evangelho por este pregado em um livro”.
5
No Cânon Muratóri (final do século II) lemos o seguinte:“O terceiro evangelho, segundo Lucas. Esse médico o escreveu depois da ascensão deJesus quando Paulo o requisitou para guia de suas viagens, de acordo com o pensamentodeste. Mas ele também não viu o Senhor em carne, e por isso, com base no seuconhecimento, ele também inicia a relatar desde o nascimento de João”
6
.Queremos analisar ainda o prólogo segundo Marcion escrito no século IV, em quediz:Lucas é um sírio de Antioquia, médico de profissão, um discípulo de apóstolo; maistarde ele acompanhou Paulo até o martírio. Depois de ter seguido o Senhor fielmente,sem mulher e sem filhos, faleceu aos 84 anos na [?] Böotien, cheio do Espírito Santo.Visto que já existiam evangelhos — o de Mateus na Judéia, o de Marcos escrito naItália — ele escreveu, movido pelo Espírito Santo, nas regiões da Acaia, todo esseevangelho, informando já no prólogo que antes deste, outros evangelhos tinham sidoescritos e que era necessário levar aos cristãos provenientes dos gentios um relato exatoda salvação, para que não fossem arrastados por mitologias judaicas e não fossemenganados por fantasias vazias e heréticas e assim perdessem o caminho da verdade.
7
De quem se fala em todos esses textos da igreja antiga? De Lucas, o médico queencontramos como companheiro de viagem de Paulo nas suas cartas (Cl 4.14; Fm 24;2Tm 4.11). Os relatos de viagem de Atos, em que o autor usa a 1ª pessoa “nós”, levam àconclusão de que o autor era um companheiro de Paulo nas suas viagens.
8
A tentativa dese provar que a linguagem e o estilo do terceiro evangelho são obrigatoriamente de ummédico não foi bem sucedida, visto que a linguagem e os termos por ele usados faziam parte da língua grega mais sofisticada.Uma indicação sobre o autor poderia ser o fato de que Marcion, por volta de 140d.C., só reconhecia o evangelho de Lucas como obra de um apóstolo. Visto queMarcion era defensor de Paulo, podemos supor que ele considerava o evangelho deLucas trabalho de um discípulo de Paulo. A favor da proximidade com Paulo falam osseguintes aspectos do conteúdo do livro: o autor destaca a universalidade da salvação(Lc 4.27; 24.47). Ele também enfatiza a necessidade da fé (Lc 8.12; 18.8). Para ele oamor de Deus pelos pecadores tem grande importância (Lc 15.11ss). Acima de tudo, asalvação vale para eles (Lc 19.9). Como Paulo, o autor fala de Jesus como o Kyrios(Senhor).W. G. Kümmel, no entanto, observa a respeito dessas reflexões sobre o conteúdo,que elas contêm idéias e termos geralmente usados no cristianismo helenístico, quedificultariam uma relação com Paulo.
9
Ele crê que o autor deste evangelho está distanteda teologia de Paulo. Por isso o autor interpreta a morte de Jesus como um destinodivino (Lc 9.2; 17.25; 24.26), e não como morte expiatória. Acima de tudo, falta emLucas, segundo Kümmel, a indicação da morte substitutiva, como em Marcos 10.45.
5

5. Irineu,
 Adversus Haereses
III, 1.1.6

6. Cânon Muratóri, linhas 3-8, trad. para o alemão por Hennecke &Schneemelcher,
NT Apohryphen
I, 3.19.7

7. E. Lohse,
Entstehung des NT 
(Origem do NT), p. 95.8

8. Cf. p. 70 — 739

9. W. G. Kümmel,
Einleitung
, p. 118.
 
Uma lacuna destas seria impensável para um discípulo de Paulo (cf. também Mc 15.34).Ele vê a linguagem da substituição somente nas palavras da ceia do Senhor.Sendo assim, W. G. Kümmel chega à seguinte conclusão: “Em virtude dainterpretação divergente da morte de Jesus, é impossível aceitarmos que o evangelho deLucas esteja próximo à teologia de Paulo; disso concluímos que a tradição que atribui aautoria desse evangelho a Lucas é altamente questionável.”
10
Segundo ele, a única coisaque poderíamos dizer sobre o autor, é que ele era cristão-gentio.Compartilham dessa convicção H. Conzelmann,
11
E. Haenchen,
12
E. Lohse,
13
A.Wikenhauser.
14
Discordam dela F. Godet,
15
D. Guthrie,
16
A. Schlatter,
17
J. Schmid,
18
Th.Zahn.
19
Estes consideram o companheiro de viagem de Paulo, chamado Lucas, o autor do Evangelho e de Atos. As objeções contra a autoria de Lucas mencionadas acima nãoderrubaram a tradição da igreja antiga. Partilho essa convicção com eles.Há razões para isso no próprio Evangelho e em Atos. Mesmo que Lucas não tenhatratado conceitualmente da morte substitutiva de Jesus, ele o fez na narrativa. Só Lucasmenciona que na cruz o inocente moribundo ora pelos seus inimigos (Lc 23.34). SóLucas conta como o Senhor ressurreto abre o entendimento dos seus discípulos para ofato de que o Messias sofreu para que em seu nome seja pregado o arrependimento parao perdão dos pecados (Lc 24.46). Por isso a teologia da substituição na morte de Jesusnão era tão estranha ao autor desse evangelho. As parábolas do filho pródigo e dofariseu e publicano também mostram a proximidade entre o autor e o ensino da justificação do apóstolo Paulo (cf Lc 15.24-32 com Rm 4.17 e Lc 18.13s com Rm 4.5).
8.Destinatários
Lucas dedicou o seu livro a Teófilo, um homem culto e provavelmente muitoinfluente. Se era cristão não sabemos. De qualquer maneira, Lucas menciona queTeófilo era instruído em palavras (essa é a formulação exata no original). Isso podesignificar que Teófilo já fora instruído na fé em Jesus Cristo e que agora deveria ser fortalecido nela pelo livro de Lucas. Podia ser também que Teófilo, como funcionárioromano, tivesse recebido notícias sobre os cristãos e agora queria informaçõesconfiáveis a respeito da fé cristã.É possível também que ele quisesse se engajar na propagação desse livro entre osgrupos que conheciam a fé cristã. Sendo assim, o livro não seria endereçado somente aum homem, mas a esse grupo de leitores.
9. Local e data
Sobre o local da origem desse evangelho só podemos afirmar que foi fora daPalestina, pois foi escrito por um cristão-gentio para os cristãos-gentios. Nada mais podemos afirmar com base nas fontes disponíveis.A referência clara à destruição de Jerusalém é tida como prova a favor da dataçãoentre 80 e 90 d.C. O cerco, conquista e a destruição da cidade como também oextermínio de muitos moradores é descrita com tantos detalhes que muitos estudiosos
1
0
10. W. G. Kümmel,
Einleitung
, p. 118.1
1
11. H. Conzelmann,
Die Mitte der Zeit 
, p. 184, obs. 4.1
2
12. E. Haenchen,
Die Apostelgeschichte
(Atos dos Apóstolos), p. 99-103.1
3
13. E. Lohse,
Entstehung des NT 
, p. 96.1
4
14. A. Wikenhauser & J. Schmid,
Einleitung
, p. 255-256.1
5
15. F. Godet,
Einleitung
, p. 225-233.1
6
16. D. Guthrie,
Introduction
, p. 98-109.1
7
17. A. Schlatter,
Einleitung in die Bibel
(Introdução à Bíblia), p. 304.1
8
18. J. Schmid,
Das Evangelium nach Lukas
(O Evangelho segundo Lucas),p. 6-7.1
9
19. Th. Zahn,
Das Evangelium des Lukas
, p. 1-10.
 
consideram o texto
vaticinia ex eventu
(profecia após o evento; Lc 19.43.s; 21.20,24).Precisamos observar, no entanto, que o que mais caracterizou a destruição de Jerusalém — o templo em chamas e as inúmeras crucificações nos arredores de Jerusalém — nãosão mencionados.O leitor, no entanto, que não exclui profecia genuína e exata e ainda leva emconsideração que Atos dos Apóstolos surpreendentemente não fala da destruição deJerusalém, mesmo que isso seria extremamente importante na perspectiva da história daigreja primitiva, vai aceitar com F. Godet uma data antes de 70 d.C., provavelmente emmeados dos anos 60.
20
10. Comentários
F. Bovon,
 Das Evangelium nach Lukas (Lk 1.1—9.50)
, EKK, vol. III/1, 1989; F.Godet,
 Kommentar zu dem Evangelium des Lukas
, (Hannover, 2 ed. 1890), Giessen,1986; W. Grundmann,
 Das Evangelium nach Lukas
, ThHK, vol. III, 10 ed. 1984; J.Jeremias,
 Die Sprache des Lukasevangeliums
, KEK, volume especial, 1980; I. H.Marshall,
The Gospel of Luke
, NIGTC, 1978; A. Schlatter,
 Das Evangelium des Lukas
,Stuttgart, 3 ed. 1975; W. Schmithals,
 Das Evangelium nach Lukas
Z
BK, vol. 3/1, 1980;G. Schneider,
 Das Evangelium nach Lukas
Ö
TKNT, vol. 3/1 e 3/2, 2 ed. 1984; E.Schweizer,
 Das Evangelium nach Lukas
, NTD, vol. 3, 19 ed. 1986; H. Schürmann,
 Das Lukasevangelium (Kap 1-9.50)
, HThK, vol. III/1, 3 ed 1984; Th. Zahn,
 Das Evangeliumdes Lukas
, (Leipzig-Erlangen, 4 ed. 1920), Wuppertal, 1988.
O EVANGELHO SEGUNDO JOÃO
1. Conteúdo
O quarto evangelho se distingue dos sinópticos por algumas característicasespeciais.
1
Só destaca alguns atos de Jesus, pois a ênfase está nos discursos de reflexão emeditação que giram em torno da revelação de Deus em Jesus, do conhecimento deDeus e da fé naquele que está se revelando. Nesses discursos encontramos umalinguagem peculiar que pode ser definida com mais exatidão. Aqui passamos a conhecer Jesus como filho de Deus, que tinha um relacionamento único e íntimo com o Pai nocéu. A vida de Jesus reflete a glória de Deus (Jo 1.14) e alcança o seu ápice na morte nacruz e na ressurreição.A divisão em partes também diverge da divisão dos sinópticos, pois o evangelho deJoão é organizado de acordo com o modelo biográfico. Este evangelista ressalta asvárias viagens de Jesus a Jerusalém para as festas especiais dos judeus:2.1-2GALILÉIA2.131º período em JERUSALÉM1ª PÁSCOA4.1—4.43GALILÉIAMarço/Abril5.12º período em JERUSALÉM6.1; 7.1GALILÉIA2ª PÁSCOA7.2,8,103º período em JERUSALÉMFESTA DOS TABERNÁCULOSSetembro / outubro11.55; 12.1;18.284º período em JERUSALÉM3ª PÁSCOA
2
0
20. Cf. p. 18 21ZBK Zürcher Bibelkommentare. Neues Testament, ZürichÖTKNT Ökumenischer Taschenbuchkommentar zum Neuen Testament(Comentário de bolso ecumênico sobre o Novo Testamento)1

1. Cf. p. 10ss.
 
Esses dados do quarto evangelho são a única fonte histórica que dizem que, após oseu batismo, Jesus exerceu o ministério público por aproximadamente três anos.Mostram também que houve mais viagens na Palestina no seu ministério do que osevangelhos sinópticos documentam. Mais um aspecto importante é que só conhecemosmuitos detalhes sobre nomes e locais da Palestina graças a este evangelho. Tudo issoindica que o autor dava valor a dados históricos e por isso os registrou. Como jáindicado acima, ele usa o modelo biográfico para contar a sua história.
2. Divisão, versículos-chave, afirmações-chave
O material comum aos sinópticos pode ser ordenado da seguinte forma:
C
APÍTULO
P
ERÍCOPES
V
ERSÍCULOS
-
CHAVE
1Prólogo1.1-5, 12, 14
Introdução
1.29
2Casamento em Caná daGaliléiaPurificação do templo emJerusalém
2.25
3Conversa com Nicodemos
3.3, 16s
Testemunho de João Batista
3.36
4Conversa com a mulher deSamaria
4.24
5Cura do doente do tanque deBetesda
5.24
6Multiplicação dos pães para5.000
“Eu sou o pão da vida”
6.35, 68s7Jesus na festa dostabernáculos
“Quem crer em mim, … doseu interior …”
7.16s, 388Jesus e a adúltera
“Eu sou a luz do mundo”
8.12, 31s, 589Cura do cego de nascença
10“Eu sou o bom pastor”
10.7, 11, 14, 27-3011Ressurreição de Lázaro
11.25s
12Jesus é ungido em BetâniaEntrada em Jerusalém
12.45
13Lava-pés
13.15-17, 34s14-16Discursos de despedida
14.6, 26s
15“Eu sou a videiraverdadeira”
15.1s; 16.33b
17Oração sacerdotal
17.15, 17, 1918-19Sofrimento
18.37
20Relatos da ressurreição
20.21, 23, 29b21Epílogo
Afirmações-chave
 
 Eu sou o pão da vida; o que vem a mim, jamais terá fome; e o que crê em mim, jamaisterá sede.
João 6.35
 Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas, pelo contrário terá a luzda vida.
João 8.12
 Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim, será salvo; entrará e sairá e achará pastagem.
João 10.9
 Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem a mim, assimcomo o Pai me conhece a mim e eu conheço o Pai e dou a minha vida pelas ovelhas.
João 10.14,15
 Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá; e todo oque vive e crê em mim, não morrerá, eternamente.
João 11.25,26
 Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim.
João 14.6
 Eu sou a videira, vós os ramos. Quem permanecer em mim, e eu nele, esse dá muito fruto; porque sem mim nada podeis fazer.
João 15.5
3. Gênero literário
O evangelista escreve em grego simples, sem erros, mas de grande impacto sobre osleitores. O texto é caracterizado por um vocabulário relativamente pequeno, sentençassimples e por uniformidade em todas as partes do evangelho. Não é difícil reconhecer o pano de fundo semítico nas frases e no vocabulário. R. Schnackenburg
2
conclui dissoque o autor vem do judaísmo, mas viveu muito tempo em contexto helenístico. Algumasvezes ele preservou expressões hebraicas no seu texto grego, mas as traduziu na maioriadas vezes para os seus leitores gregos: Rabi (1.38 e em outras sete passagens), Rabôni(20.16), Messias (1.41; 4.25), Cefas (1.42), amém (25 vezes), hosana (12.13), maná(6.31,49) e outros. Isso mostra que ele estava preocupado em traduzir as palavras deJesus de Nazaré para a língua do seu contexto helenístico. A missiologia modernachama esse processo de contextualização. Dessa forma, as palavras de Jesus recebemuma coloração grega, mas o fundo semítico ainda transparece.O autor usa um estilo inconfundível, que também é reconhecível na primeira cartade João. Ele convida o leitor à reflexão. Esse texto não foi escrito para pessoas com pressa. Mas quem procura algo para meditar profundamente, acha-o aqui. O estilo éreforçado no prólogo, mas também é encontrado em muitos outros lugares doevangelho, principalmente nos discursos e na oração sacerdotal (Jo 17). Como devemosinterpretar esse estilo? Será ele o fruto de longa reflexão sobre a pessoa e obra de JesusCristo? Evidentemente o autor passou a conhecer a Jesus melhor depois da páscoa,como afirma repetidas vezes. Será uma meditação sobre a história de Jesus sob o pontode vista da páscoa? Se fosse assim, não teríamos discursos de Jesus no evangelho, masmeditações de um discípulo sobre as palavras de Jesus. Isso contradiz o testemunho doautor registrado em João 21.24. Por que Jesus, como um oriental, não poderia ter faladoem estilo de meditação? E será que o registro das palavras de Jesus nos outrosevangelhos são de fato discursos uniformes e não coletâneas de citações?A favor desse segundo aspecto está a forma típica de pensar dos orientais, queencontramos nos discursos do evangelho de João. Ela não é retilínea, objetiva, comoseria de se esperar da retórica grega. A forma oriental trabalha mais com repetições,afirmações paralelas e alusões a coisas já ditas. Vemos em João uma forma de pensar em círculos, como é comum na retórica oriental. Não seria o propósito do autor registrar e transmitir a nós esse estilo de Jesus? Isso nos levaria a concluir que a forma deargumentação de João, inconfundível, seria o estilo da retórica de Jesus de Nazaré.
2

2. R. Schnackenburg,
 Johannesevangelium
, IV/1, p. 91-93.
 
2
Temos, portanto, no evangelho de João, a pregação de Jesus em uma linguagemque era adequada aos leitores de fala grega. Mesmo assim, o autor manteve o estilo deJesus, que correspondia à forma oriental de desenvolver o pensamento.
4. Contexto histórico
O evangelho de João não se distingue somente pela linguagem com característicassemíticas, pelo estilo de meditação e pela forma de pensar em círculos. O seu conteúdoestá relacionado a diversos movimentos religiosos do contexto da igreja primitiva.Bem presente está a influência do AT. É verdade que o número de citações do ATnão está acima da média. Mas estão distribuídos de forma eqüitativa por todo oevangelho. Às vezes são estabelecidas ligações surpreendentes com o AT (cf. Jo 10.34).Em outros trechos, mesmo sem citar uma passagem específica, são feitas alusões ao AT(por exemplo, Jo 1.45; 2.22).O argumento principal para a escolha de citações do AT é a importânciacristológica. O que interessa é demonstrar que Jesus é o Messias prometido. Nele secumpriu o que o AT diz, por exemplo, sobre o cordeiro pascal (Jo 19.36; cf. Êx 12.46).Essa forma de interpretação do AT, que denominamos tipológica, é encontrada tambémem outros trechos do evangelho de João.Além das citações, há algumas expressões que fazem lembrar o AT. Quando Jesuschama Natanael de verdadeiro israelita “em quem não há dolo” (Jo 1.47), somoslembrados de Salmos 32.2. Quando Jesus diz que o Pai “lhe deu autoridade para julgar, porque é o Filho do homem”, (Jo 5.27), vemos por trás disso a visão de Daniel 7.14,22.Quando os fariseus dizem ao cego de nascença: “Tu és nascido todo em pecado, e nosensinas a nós?” (Jo 9.34), eles aludem a Salmos 51.7.Também as imagens características nos discursos de Jesus vem do AT: pão e luz, pastor e rebanho, videira e galhos. Todas estão relacionadas à tradição de esperança doAT. As correspondências apontam para uma direção: esse evangelho tem a sua origemno AT. Mas esse não é o único pano de fundo histórico-religioso.Há também uma relação bem definida com o judaísmo da época.Com isso queremos dizer o judaísmo do tempo em que se originou o NT. Nelealgumas vertentes precisam ser analisadas: o judaísmo helenístico, como o encontramos principalmente em Filo de Alexandria; o judaísmo da Palestina, cujos representanteseram os fariseus e rabinos; as seitas judaicas, das quais principalmente os essênios deQumran, têm certa proximidade com o evangelho de João.Queremos apresentar suscintamente as influências dessas diversas linhas. C. H.Dodd
3
 e C. K. Barrett
4
consideram especialmente grande a influência do judaísmohelenístico. Barrett escreve: “Poderíamos esperar que o judaísmo helenístico estivesseem relação paralela íntima com a obra de João; e isso se comprova na prática”.
5
O fato é que no evangelho de João aparecem várias possíveis alusões a Filo deAlexandria. Isso vale sobretudo para o prólogo e nele especialmente para a apresentaçãode Jesus como o
logos
(Jesus como a Palavra: Jo 1.1-14), mas também para a
2Hörster, Gerhard:
Introdução E Síntese Do Novo Testamento
. EditoraEvangélica Esperança, 1996; 2008, S. Mc 1:1-Jo 1:13

3. C. H. Dodd,
The Interpretation of the Fourth Gospel
(A interpretação doquarto Evangelho), Cambridge, 1953.4

4. C. K. Barrett,
Das Evangelium nach Johannes
, p. 54-58.5

5. C. K. Barrett,
Das Evangelium nach Johannes
, p. 57.
 
compreensão da natureza de Deus (Deus é espírito: Jo 4.23s; Deus é luz: 1Jo 1.5; sóDeus é verdadeiro: Jo 17.3; não é possível compreender a Deus: Jo 1.18). Também asfiguras simbólicas (fonte da vida, caminho, pastor e rebanho) podem ser achadas emFilo. Mesmo assim, permanecem diferenças consideráveis em relação ao judaísmohelenístico. Enquanto a interpretação do AT no evangelho de João é tipológica, em Filoencontramos uma explicação filosófico-alegórica do AT. Sobretudo faltam noevangelho de João conceitos do helenismo como imortalidade, incorruptibilidade,alegria, piedade, virtudes e outros.Evidentemente precisamos contar com certa abertura do quarto evangelho emrelação ao judaísmo helenista (cf. Jo 7.35; 12.20s.), mas é quase impossível falar deinfluência decisiva a não ser no prólogo.Que peso tinha a influência do judaísmo da Palestina?Enquanto P. Billerbeck 
6
 e A. Schlatter 
7
crêem que tinha peso considerável, W. G.Kümmel
8
e A. Wikenhauser 
9
discordam. R. Schnackenburg
10
acha que deve ser levadoem consideração pelas seguintes razões:Como
tora
no judaísmo da Palestina, também
nomos
é designação, por um lado, dalei mosaica (Jo 1.17; 7.19,23), e, por outro, de todo o AT (Jo 1.45; 8.17 e outros). Alémdisso, a interpretação que os rabinos davam à lei, tem influência sobre alguns textosdesse evangelho: a circuncisão no sábado (Jo 7.22), carregar cargas no sábado (Jo 5.10),ouvir um acusado antes de condená-lo (Jo 7.51) etc. Encontramos regras rabínicas deintrepretação de textos em várias passagens: 6.31ss; 7.23; 8.56; 10.34; 12.41. Aconversa de Jesus com Nicodemos está marcada pela arte rabínica do debate.Todas essas observações isoladas confirmam que o evangelho de João vive detradições que têm a sua origem no judaísmo da Palestina. Mas não é possível comprovar a influência significativa desse judaísmo sobre o evangelho de João.E com a seita de Qumran é diferente? Na época da publicação dos primeiros manuscritos de Qumran, havia grandeesperança de novas revelações. K. G. Kuhn mostra isso quando escreve: “Nesses novostextos estamos tocando o solo original do evangelho de João e esse solo original é …uma religiosidade judaico-palestina de uma seita de estrutura gnóstica.”
11
 Não demorou para que surgisse uma explicação biográfica. A suposição sugerida foide que João teria sido um membro da seita de Qumran. O seu estilo de vida marcado pelo ascetismo, a pregação no deserto e o seu chamado claro ao arrependimento eram provas dessa teoria. João, filho de Zebedeu, era discípulo de João Batista, conclusãotirada de Jo 1.35-42. Como autor do quarto evangelho, teria transmitido essa influênciade Qumran. Essa explicação biográfica está baseada em número exagerado desuposições.Mais evidentes que isso são os paralelos entre o texto do evangelho e os escritos deQumran. Tanto em um como em outro prevalece o mesmo dualismo luz-trevas (Jo 1.5;3.19); verdade-mentira (Jo 8.44s); espírito-carne (Jo 3.6; 6.63); de baixo-de cima (Jo8.23; 3.13,31); terreno-celestial (Jo 3.12); Deus-mundo (Jo 3.16; 8.23).
6

6. Strack & Billerbeck,
Kommentar zum NT 
, vol. II.7

7. A. Schlatter,
Der Evangelist Johannes
(O evangelista João), Stuttgart,1948.8

8. W. G. Kümmel,
Einleitung
, p. 184-185.9

9. A. Wikenhauser & J. Schmid,
Einleitung
, p. 328.1
0
10. R. Schnackenburg,
 Johannesevangelium
, IV/1, p. 108-110.1
1
11. K. G. Kuhn, “Die in Palästina gefundenen hebräischen Texte und dasNT” (Os textos achados na Palestina e o NT), ZThK 47, 1950, p. 210.
 
 Na seita de Qumran existe uma consciência muito clara de eleição, como mostra aregra da seita
12
e o livro da adoração
13
: Os filhos da luz e os filhos das trevas sãofirmados por Deus nos seus caminhos. Isso nos faz lembrar os paralelos em Jo 8.23,44-47.O assunto do Espírito Santo também é ensinado em Qumran de forma semelhante aoevangelho de João: os filhos da luz são plenos do Espírito. Ele é ativo e presente. Elemedia o acesso a Deus pela verdade. Ele é o intercessor, defensor e consolador. Deacordo com Qumran, no entanto, esse Espírito já foi dado sempre ao homem e só precisa de liberdade para se desenvolver .
14
No evangelho, o Espírito é concedido aosdiscípulos após a partida de Jesus. A maior diferença, no entanto, é a base para aeleição: em Qumran a pureza e rigidez na observação da lei são decisivas. No evangelhode João é a fé em Jesus Cristo (Jo 5.40-44 e outros).Essas observações levam às seguintes conclusões:“Esses exemplos podem ser suficientes para justificar a afirmação de que há pontosde interseção significativos entre o evangelho de João e Qumran, mas é difícil provar noevangelho uma incorporação irrestrita das convicções de Qumran.”
15
“Precisamosconcluir disso que o evangelho de João e a comunidade de Qumran provavelmentetenham tido o mesmo pano de fundo comum, mas também que o pensamento deQumran não pode ter sido o solo original sobre o qual foram edificadas as formas de pensamento de João.”
16
Entre os estudiosos do NT do século XX tornou-se predominante a convicção de queo pano de fundo religioso do evangelho de João é sobretudo o gnosticismo. Adificuldade maior dessa posição está no fato de que não temos escritos que provem aexistência de um gnosticismo gentio na época do surgimento do NT. Os documentos dognosticismo gentio mais antigos que temos datam do século VII ou VIII. São os escritosdos mandeus. R. Bultmann foi o que mais se baseou neles no seu comentário sobre oevangelho de João. De fato, há semelhanças surpreendentes entre eles e o evangelho deJoão. Neles encontramos o mesmo dualismo luz-trevas, de cima-de baixo, morte-vida,Deus-mundo. O conceito da verdade tem importância especial nesses escritos. Descreveo relacionamento com o ser supremo e também com as outras pessoas, e pode tambémse tornar o poder de salvação personificado. Impossível não pensar nas palavras deJesus: “Eu sou a verdade” (Jo 14.6). O mais surpreendente nesses escritos é que elestambém falam de um personagem de salvação, um enviado celestial, que desce como arevelação, atrai as centelhas de luz divina e as leva de volta para Deus. O paralelismocom o prólogo de João não pode ser ignorado.Por conseguinte, a pergunta fundamental é: Quem é dependente de quem? Oevangelho de João foi escrito no mais tardar no final do primeiro século e os textos dosmandeus no século VII ou VIII. Continua valendo a afirmação de C. Colpe, quando dizque um personagem de salvação, como aparece nos escritos gnósticos, não pode ser comprovado em épocas pré-cristãs.
17
Esse fato e as outras diferenças que podem ser observadas entre João e as convicções dos mandeus levaram W. G. Kümmel àconclusão de que o evangelho de João não pode ter sido influenciado pelos escritos dosmandeus. Segundo ele não é possível estabelecer uma relação entre o evangelho de João
1
2
12. Sektenregel: 1QS 3.15-21; 4.15-19.1
3
13. Hodajoth: 1QH 15.12-17.1
4
14. 1QS 4.20-23.1
5
15. R. Schnackenburg,
 Johannesevangelium
, IV/1, p. 116.1
6
16. W. G. Kümmel,
Einleitung
, p. 187.1
7
17. “Gnosis”, in RGG 3, II, 1648ss.
 
e círculos dos mandeus ou mesmo de outros círculos. A semelhança seria explicada pelofato de que os escritos dos mandeus são testemunhas de um gnosticismo judaico, quetambém é o pano de fundo intelectual do evangelho de João.
18
E será que há fontes paraesse gnosticismo judaico?As Odes de Salomão poderiam ser esse tipo de fonte. Aceita-se que foram escritasna primeira metade do século II d.C. Provavelmente se originaram no contexto sírio. Hámuitas dúvidas ainda sobre esses escritos, mas provavelmente são gnósticos. Neles encontramos conceitos que, segundo o evangelho de João, são gnósticos: luz,vida, verdade, água viva, Espírito Santo, conhecer, crer, alegria, amor … . Mas hátambém outras expressões que não têm paralelo no evangelho de João, como leite, carta,imagem de luz … .A dificuldade reside também na pergunta quem depende de quem. Schnackenburgacredita poder demonstrar por meio de exemplos que as Odes de Salomão sãodependentes do evangelho de João.
19
Isso o leva à seguinte conclusão: “Podemosconcluir que as Odes de Salomão são importantes como ilustração da temática elinguagem figurada gnóstica, mas não podem ser consideradas pano de fundo concretodo evangelho de João. A dependência inversa é mais provável.”
20
Digno de nota nesse contexto são também os escritos de Nag-Hammadi. Em 1945nesse lugar na região de Chenoboskion no Egito foram encontrados 50 tratadosgnósticos em língua copta. Entre eles estavam o Evangelho de Tomé, o evangelho daVerdade (Evangelium Veritatis) e o apócrifo de João. Para a relação com o evangelhode João, o evangelho da Verdade é importante. Surgiu por volta de 150 d.C. Nele sãodiscutidas as questões da salvação do homem e da origem do salvador. O homem vemde Deus e está destinado a voltar para Deus. O salvador abre esse caminho para a volta,ao revelar Deus e possibilitar o conhecimento de Deus. A salvação acontece por meiodo conhecimento da revelação divina.Apesar de algumas semelhanças conceituais, o caminho da salvação no evangelhode João é descrito de forma totalmente diferente. Base para a salvação não é somente arevelação de Deus, mas a encarnação do filho de Deus até o ponto da morte substitutiva(Jo 1.29). O caminho da salvação é achado por aqueles que crêem nesse salvador: João3.16. A questão gnóstica é respondida de forma antignóstica: Salvação só é possível por meio da associação com Jesus de Nazaré, o filho de Deus que entrou na história dahumanidade.
Resumo do contexto histórico
 Nenhum dos contextos histórico-religiosos paralelos pode ser comprovado comofonte do evangelho de João. Além do AT, o desafio do movimento gnóstico judaicoteve impacto mais forte sobre o autor. Ele aproveitou as questões que surgiram nessegnosticismo e as respondeu de forma antignóstica. A sua afirmação-chave é: “E o Verbose tornou carne e habitou entre nós e vimos a sua glória, glória como do unigênito doPai, cheio de graça e de verdade” (Jo 1.14). É uma afirmação contra a convicçãognóstica de que Deus não podia se tornar homem de verdade. O autor teve um encontrocom o filho de Deus que se tornou homem. Isso o capacita a contradizer a heresiagnóstica. Ele faz isso ao se basear na vida e na proclamação de Jesus. Acima de tudo eleusa os discursos de Jesus, nos quais há semelhança de conceitos com os escritos deQumran e semelhança de expressões com os escritos gnósticos, mas que se opõem aosconceitos gnósticos de salvação ao apresentar a salvação que Jesus trouxe: Ele, filho deDeus, se fez verdadeiro homem. Assim se tornou o nosso salvador.
1
8
18. W. G. Kümmel,
Einleitung
, p. 188-189.1
9
19. R. Schnackenburg,
 Johannesevangelium
, IV/1, p. 126-127.2
0
20. R. Schnackenburg,
 Johannesevangelium
, IV/1, p. 127.
 
5. Ênfases teológicas
O evangelho de João apresenta quatro ênfases teológicas: o ensino sobre Jesus(cristologia), o ensino sobre a salvação do homem (soteriologia), o ensino sobre a igreja(eclesiologia) e o ensino sobre as últimas coisas (escatologia). Esses elementos nãoestão desconexos no texto, mas interrelacionados, como vamos mostrar em seguida.A cristologia em João tem o objetivo de demonstrar que Jesus é o filho de Deus (cf.Jo 20.31). O Cristo, o Messias esperado pelo povo judeu, é anunciado desde o iníciocomo o filho de Deus (Jo 1.17,41,49), o que ultrapassa todas as expectativas. Ele é oFilho na sua plenitude (cf. 1Jo 1.3; 3.8,23; 4.9,15 e outros).Mas isso não está em contradição com a apresentação de Marcos, que tentouesconder cuidadosamente o mistério da pessoa de Jesus para evitar que ele fossereconhecido muito cedo como o Messias? Se examinarmos com mais atenção as palavras de Jesus no evangelho de João, perceberemos que Jesus nunca seautoproclamou Messias. É verdade que os outros lhe deram esse título, como também ossinópticos relatam (Jo 4.25; 7.25-31; 7.41s; 10.24; 11.27; 12.34). Mas Jesus evitou sefundamentar nesse título. Somente a uma mulher em Samaria ele admitiu ser o Messias(Jo 4.26). Nos outros ouvintes ele não confiava (Jo 2.24). Sempre que queriam aclamá-lo rei, ele se retirava (Jo 6.14s.). No evangelho de João, Jesus se identifica como filho de Deus desde o início,descrevendo, desta forma, o seu relacionamento especial com o Pai, que nos sinópticossó é indicado, mas não omitido. João mostra que é exatamente neste ponto que surge oconflito entre Jesus e a liderança judaica.Em que o evangelista baseia essa tradição? Ele mesmo encontrou o filho de Deusque se tornou homem e viu nos seus sinais a glória de Deus (Jo 1.14). Ele participou doevento em que Jesus fez o cego de nascença ver de novo (Jo 9.5,39) e esteve presentequando Jesus ressuscitou o morto (Jo 11.25s). Ele ouviu as declarações do “Eu sou” emque Jesus disse que era o pão da vida (Jo 6.35), a luz do mundo (Jo 8.12), a porta para orebanho (Jo 10.7), o bom pastor (Jo 10.11), a ressurreição e a vida (Jo 11.25), ocaminho, a verdade e a vida (Jo 14.6), a videira verdadeira (Jo 15.1), um rei (Jo 18.37).Até esta última, todas as declarações do “eu sou” são precedidas pelo artigo definido.Jesus é a luz; além dele o mundo não tem luz. Jesus é o pão; sem ele o mundo morre defome. Jesus é o caminho; não há outro caminho para Deus. Jesus é a verdade; além delenão há outras verdades. Jesus é a vida; todas as outras propostas levam à morte. Essareivindicação de Jesus pelo absoluto é a verdadeira razão para a condenação à morte,que o sinédrio judeu declarou para Jesus (Jo 19.7).Todas essas palavras tão cheias de significado e de desafios apontam para osouvintes: eles devem crer em Jesus, segui-lo, permitir que ele lhes mostre o caminho para Deus. As reivindicações que Jesus faz para si não são um objetivo em si, mascontribuem para a salvação dos ouvintes e leitores. Nesse sentido, a cristologia doevangelho de João serve à soteriologia. Por outro lado, vale dizer também que asoteriologia só alcança o seu objetivo por estar fundamentada nessa cristologia.O que é especialmente marcante na soteriologia desse quarto evangelho?Três pontos serão ressaltados: A universalidade da salvação (a salvação é paratodos), a morte substitutiva de Jesus na cruz e o chamado à fé.A soteriologia de João é marcada pela universalidade pois aqui se trata da salvaçãodo mundo: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu filho unigênito para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3.16). Ossamaritanos reconheceram esta verdade ao se convenceram de que ele era de fato oMessias quando afirmaram: “este é verdadeiramente o Salvador do mundo” (Jo 4.42).Por meio da sua vinda, vida e morte ele abriu o caminho para a salvação de todos que
 
cressem nele. Assim fica claro que essa universalidade não é igual ao universalismo (no final Deus vai achar uma forma de salvar a todos). Sem fé e relacionamento pessoal com Deus não há acesso à salvação.O fundamento para a salvação de todos os que crêem é a morte substitutiva de Jesus Cristo. Alguns expositores negam o fato de que no evangelho de João a morte de Jesus tem importância central. Mesmo assim eu continuo crendo na unidade do evangelho e, portanto, na interpretação da morte de Jesus como afirmada por João Batista: “Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29). A isso corresponde a interpretação que Jesus dá ao pão quando diz: “Eu sou o pão vivo que desceu do céu; …o pão que eu darei pela vida do mundo, é a minha carne” (Jo 6.51). As tentativas de atribuir esses trechos à redação da igreja antiga não têm fundamento com base na tradição dos manuscritos.É importante notar também o grande valor que João dá ao chamado à fé: João3.16,36; 5.24; 6.40,47 e outros. Mas que significa fé, em João? Freqüentemente encontramos em João conceitos como crer e reconhecer, crer e confessar, lado a lado.Disso podemos concluir o seguinte: crer significa reconhecer as palavras de Jesus como vindas de Deus, que as revelou, e assim também reconhecer e se associar à pessoa de Jesus.Isso não esgota o assunto, como assinala Schnackenburg: “De uma interpretação mais acurada concluímos que a fé joanina não significa somente uma decisão existencial em reação ao convite do Deus que se revela, mas é, também, e acima de tudo, um a ligação com aquele que traz a salvação; é discipulado em que o fiel segue aquele que abriu o caminho, e é o mediador da salvação.”
21
A este contexto pertencem as expressões “estar em Cristo”, “permanecer em Cristo” e “dar frutos”.A soteriologia em João é caracterizada pela universalidade porque diz respeito a todos. Mas ela indica para a fé e para o discipulado do indivíduo. A morte de Jesus recebe importância central para a salvação do mundo. Ela é interpretada como morte vicária e vitória sobre todos os poderes inimigos de Deus (Jo 19.30).Que significado a igreja tem para os crentes? Será que nesse evangelho temos orientações para a eclesiologia? Ou João diz respeito somente ao indivíduo e ao seu relacionamento pessoal com o filho de Deus?O termo igreja não aparece no quarto evangelho. Mas será que ele omite o conceito igreja? Quem lê os capítulos 10; 15; 17; 20.19-23 e 21 dificilmente chegará a essa conclusão. O discurso do pastor (“Eu sou o bom pastor”) realça o relacionamento de Jesus com aqueles que o Pai lhe confiou. São representados pelo rebanho que o pastor  pastoreia. Ele sabe que é responsável por essa comunidade. O discurso da videira (“Eu sou a videira verdadeira”) fala da ligação entre os ramos e a videira. Não podem existir independentes um do outro. A oração sacerdotal descreve a intercessão de Jesus pelo seu círculo mais próximo de discípulos e também por todos aqueles que, por meio desse círculo, vieram a crer em Jesus. O objetivo de Jesus é que sejam um. Ele capacita esse círculo de discípulos com o Espírito Santo, com a autoridade para perdoar pecados e os envia ao mundo. Ele celebra a ceia com esse círculo. Ele consagra Pedro como pastor  para esse grupo.É evidente que no evangelho de João a eclesiologia não é um tema isolado e independente. Ela está intimamente relacionada com a cristologia. A eclesiologia surge quando nos associamos com a pessoa de Jesus por meio da fé.Dos sinais da graça só se fala perifericamente: de forma indicativa sobre o batismo em João 3.5 e da ceia em João 6.54-56. Os dois textos, no entanto, necessitam de uma interpretação acurada. Somente podemos fazer algumas sugestões: “nascer da água” não
2
1
21. R. Schnackenburg,
 Johannesevangelium
, IV/1, p. 140.
 
 podia estar relacionado com o batismo cristão pelo interlocutor de Jesus, muito menos o batismo infantil, praticado hoje. Ele estava pensando mais no batismo de João, que também tinha sentido na mente dos leitores do evangelho (Jo 1.15-28). As palavras sobre a ceia em João 6.54-56 estão relacionadas com o discurso sobre o pão da vida,que é um chamado à fé em Jesus. Uma equiparação automática das indicações sobre os sinais da graça descritos em João com o batismo e a celebração da ceia de hoje, podelevar a erros grosseiros de interpretação.Já foi mencionado que no quarto evangelho a escatologia presente está em constante tensão com a escatologia futura. Por um lado, Jesus proclama: “Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou, tem a vida eterna, não entra em juízo, mas passou da morte para a vida” (Jo 5.24). Isso parece indicar que para o crente a morte está vencida e a vida eterna tomou o seu lugar. Por outro lado, Jesus anuncia aos seus seguidores a vida eterna no futuro quando diz: “De fato a vontade de meu Pai é que todo homem que vir o Filho e nele crer, tenha a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia” (Jo 6.40). Essa tensão entre a salvação que já começou com o que há de se cumprir ainda, é compartilhada também pelos escritos paulinos. Certamente a ênfase na salvação no tempo presente é mais forte em João do que em qualquer outro escrito do NT. Mas mesmo assim, o evangelista não omitiu o que ainda vai se cumprir: a ressurreição dos mortos (Jo 6.40), o juízo vindouro (Jo 5.28,29) e a volta de Jesus (Jo 21.22). Mas o seu tema principal continua a presença da salvação de Deus na pessoa de Jesus Cristo.Essa pessoa é o centro da teologia deste evangelista. A soteriologia, a eclesiologia e a escatologia de João precisam ser interpretadas por esse prisma. A característica principal do quarto evangelho é essa teologia com o seu centro cristológico.
6. Unidade
De que maneira o quarto evangelho chegou à forma com que se nos apresenta hoje?Essa pergunta surge obrigatoriamente durante a leitura do evangelho. Por um lado, o evangelho se caracteriza por uma unidade singular, tanto que poderíamos dizer que o autor o escreveu em uma sentada. Por outro lado, há trechos inexplicáveis, que nos fazem supor terem existido diversos extratos de tradições até a forma atual.
7.53— 8.11
não está nos manuscritos mais antigos do NT e provavelmente foi acrescentado ao evangelho de João de outras fontes.
21
 parece ser um epílogo de outro autor, já que em 20.30s é feito o encerramento do evangelho. Em 21.24 a mão de alguém que ajudou o autor é evidente.
5-6
surge a pergunta se os capítulos foram trocados, já que a mudança de local de Jerusalém para a Galiléia acontece sem aviso ou explicação.
15-17
 parecem um acréscimo posterior ao final do discurso em 14.31.A isso acrescentam-se ainda observações que muitos estudiosos do NT consideram desequilíbrios teológicos: Por um lado, o quarto evangelho enfatiza o tempo presente da salvação (escatologia presente; 3.18,36; 5.24; 11.25). Por outro lado, fala também da ação futura no fim dos tempos (escatologia futura; 5.28s; 6.39s,44b,54; 12.48). Será que esses desníveis têm alguma relação com a história das tradições? Várias soluções foram sugeridas.Talvez tenha havido trocas de folhas, por engano, no trabalho dos copistas noscapítulos 5 e 6 como também nos capítulos 14 e 15. Trocas de páginas são comprovada sem escritos antigos.
22
2
2
22. R. Schnackenburg,
 Johannesevangelium
, IV/1, p. 41.
 
E. Schweizer 
23
e A. Wikenhauser 
24
defendem essa posição, que, no entanto, é pouco provável porque os trechos supostamente trocados não têm a mesma extensão.Outros tentam comprovar a utilização de várias fontes, que supostamente foram introduzidas no evangelho. Em Lucas há menção explícita de que os evangelistas trabalhavam com fontes diversas (Lc 1.1-4). R. Bultmann foi o que mais trabalhou comessa hipótese das fontes. Ele tentou comprovar a existência de escritos de duas fontes no evangelho de João: a fonte dos sinais e a fonte dos discursos da revelação. Para comprovar a primeira, ele se baseou na enumeração dos sinais em 2.11 e 4.54. Concluiu daí que na fonte dos sinais a enumeração continuava, mas o evangelista não deu seqüência a ela no seu texto. A fonte dos discursos da revelação se fundamenta nosdesníveis presentes nos discursos de Jesus no evangelho de João. É verdade que após a reconstrução da fonte original feita por Bultmann, o pensamento do texto é retilíneo(ex.: 6.27-59; 6.27,34s,30-33,47-51a,41-46).
25
Mas a estrutura de pensamento típica de João — e provavelmente a de Jesus também — foi quebrada por meio dessa reconstrução.Como complementação para a separação das fontes, ou como alternativa a ela, ésugerida a revisão redacional. O que se quer dizer com isso é que a obra do autor foi continuada por um de seus discípulos. A favor disso estaria a observação em João21.24s. Supõe-se que esse discípulo fez acréscimos e mudanças que explicariam os desníveis que encontramos no texto hoje. R. Schnackenburg crê que, com esta hipótese,a maioria dos desníveis podem ser explicados, sem, no entanto, colocar em dúvida a veracidade das tradições, já que mesmo o discípulo era da escola joanina.
26
Mesmo assim, essa tentativa de solução não é tão inofensiva, pois já ficou demonstrado que também é usada para aliviar tensões teológicas com base em revisões redacionais. O problema com isso é que é muito fácil substituir o texto em questão pela imaginaçãoque o intérprete faz do texto.Pode ser também que o autor não tenha escrito o seu evangelho de uma só vez.Talvez teve de interromper o seu trabalho e reiniciá-lo depois de algum tempo. Achou que alguns acréscimos eram importantes, sem que achasse necessário reescrever todo o texto. Talvez ele não teve tempo de trabalhar os desníveis. De qualquer forma, segundo a opinião de W. Wilkens
27
, o evangelho passou por um processo de expansão na mão do evangelista. Isso é imaginável, mas não pode ser comprovado historicamente. Por isso esta solução é considerada pura especulação por muitos eruditos.Considerando e avaliando as diversas propostas de solução, parece que R.Schnackenburg tem razão nos seguintes aspectos:Do ponto de vista literário, o evangelho de João está baseado em extratos diversos e independentes, mas na base é obra completa do evangelista. Ele se baseia em tradições que não surgiram de fontes escritas. Em alguns lugares há semelhança com a tradição dos sinópticos. Para o material exclusivo em João, o autor dispunha de impressões pessoais, relatos falados e material oral que era material confiável. Em alguns trechos o autor se baseia aparentemente em material litúrgico (prólogo). O evangelista não pôde
2
3
23. E. Schweizer,
Ego eimi
, p. 109ss.2
4
24. A. Wikenhauser,
Evangelium nach Johannes
, p. 34-37.2
5
25. R. Bultmann,
Evangelium nach Johannes
.2
6
26. R. Schnackenburg,
 Johannes evangelium
, IV/1, p. 59-60.2
7
27. W. Wilkens,
Die Entstehungsgeschichte des vierten Evangeliums
.Zürich, 1958.
 
dar a última forma ao seu livro. Por isso uma revisão redacional foi necessária. Essa revisão está no capítulo 21 e talvez também explique outros desníveis em outros trechos do evangelho.
7. Autor
Uma discussão detalhada da questão da autoria se faz necessária porque dela dependem decisões sobre o valor histórico do quarto evangelho. No evangelho mesmo temos as seguintes informações: foi escrito pelo discípulo a quem Jesus amava (Jo 21.20-24). Esse discípulo estava do lado de Jesus na última ceia de Jesus com os seus discípulos (Jo 13.23). Ele é o discípulo que estava diante da cruz de Jesus e a quem Jesus confiou a sua mãe (Jo 19.26). Provavelmente também é ele a testemunha da morte de Jesus (Jo 19.35). Juntamente com Pedro ele corre para o túmulo na manhã do dia da páscoa e se convence de que o túmulo está vazio (Jo 20.2). Quando o ressuscitado preparou uma pesca maravilhosa para os discípulos — especialmente para Pedro — esse discípulo é o que primeiro reconhece a Jesus (Jo 21.7).Destas indicações resulta que o autor é apresentado — presumivelmente pelos seus discípulos — como a testemunha ocular e amigo íntimo de Jesus. O nome não é mencionado. Este só pode ser dado por conclusões dos outros evangelhos e escritos do NT.Em vários textos temos a menção de um grupo mais íntimo entre os discípulos de Jesus (Mc 5.37; 9.2; 14.33). São Pedro, Tiago e João. Segundo Lucas 22.8, Pedro e João prepararam a última ceia. Segundo Lucas 5.1-11, Tiago e João são sócios de Simão que são evidentemente diferenciados dos outros pescadores. Mesmo depois de Pentecostes,Pedro e João estão juntos (At 3.11; 4.13; 8.14). Paulo menciona Tiago, Cefas e João como colunas da igreja primitiva (Gl 2.9).Disso concluímos: se estamos procurando nesse grupo íntimo dos discípulos aquele a quem Jesus amava, Tiago e Pedro estão excluídos. Tiago morreu como mártir já noano de 44 d.C. Em João 21 Pedro está diante do discípulo amado. Dos três só sobrou João, filho de Zebedeu.Essa conclusão tem apoio também na observação de que, neste evangelho, João,filho de Zebedeu, nunca é citado pelo seu nome, apesar da intimidade com Jesus. Será que o autor fez isso por elegância de estilo?A favor de uma testemunha ocular como autor desse evangelho estão as seguintes observações: o autor conhece os costumes judaicos muito bem. Os rituais de purificação(Jo 2.6) e diversas festas judaicas, entre elas a festa dos tabernáculos (Jo 7.37). Ele é o único entre os autores de evangelhos a oferecer dados sobre a história judaica, ao mencionar nomes de sumo sacerdotes (Jo 11.49; 18.13ss). Ele lembra vários detalhes geográficos e topográficos. Exatidão nas citações exclusivas é marca sua em vários trechos: João 2.6; 4.5,6; 5.2; 6.9,19; 12.3; 13.24; 18.6,10; 19.39; 21.8,11. Daí vem a conclusão: ao olharmos atentamente para o evangelho vemos apoio para a informação de que uma testemunha ocular escreveu o quarto evangelho.Essa posição é reforçada pela tradição da igreja antiga. Ao final do segundo século já estava definida a posição de que João, filho de Zebedeu, era o autor do quarto evangelho. Alguns exemplos disso são:Irineu escreve no seu
 Adversus haereses
em torno de 180 d.C.: “Depois disso João,o discípulo do Senhor, que tinha reclinado ao lado dele, ele mesmo publicou o evangelho enquanto estava na Ásia.”
28
2
8
28. Irineu,
 Adversus Haereses
III, 1.2 in Eusébio,
História Eclesiástica
, V,8.4.
 
Policrato, Bispo de Éfeso, em uma carta ao bispo Vítor de Roma, escrita em torno de190 d.C., cita as testemunhas da tradição da Ásia Menor: “… além disso também João,o que reclinou do lado de Jesus …, que foi enterrado em Éfeso.”
29
 No Cânon Muratóri lemos: “O quarto evangelho, o de João, um dos discípulos.Quando os seus co-discípulos e bispos o desafiaram, ele disse: ‘Jejuem comigo por três dias a partir de hoje, e o que for revelado a cada um, queremos contar uns aos outros.’ Naquela noite veio a revelação a André, um dos discípulos, de que João, em seu nome deveria anotar tudo, depois que todos verificassem o que tinha escrito.”
30
Todas essas declarações vêm do século II. Até lá a autoria de João filho de Zebedeu ainda não era reconhecida por todos, pois alguns grupos atribuíam o quarto evangelho ao gnóstico Cerinto. Em quem então Irineu baseia as suas informações? Na sua carta ao gnóstico Florino, Irineu menciona Policarpo como informante: “Os anciãos antes de nós, os que conviveram com os apóstolos, não lhe transmitiram essesensinos. Eu vi a você quando ainda era criança, no sul da Ásia Menor na companhia de Policarpo … como Policarpo contava do relacionamento com João e com os outros, que tinham visto o Senhor, e de como ele se lembrava das palavras deles e daquilo que eletinha ouvido deles a respeito do Senhor, dos seus milagres e do seu ensino.”
31
Além disso ele se refere a presbíteros na Ásia: “Todos os presbíteros, que tinham se encontrado com João, o discípulo do Senhor, … Alguns não viram somente a João, mastambém outros apóstolos.”
32
Se resumirmos tudo que foi dito até agora, podemos chegar à seguinte conclusão parcial: indicações do quarto evangelho e do restante do NT são direcionadas pelatradição da igreja antiga para a convicção de que João, filho de Zebedeu, é o autor desse evangelho.Esse resultado, no entanto, é questionado pela crítica histórica. Os seguintes argumentos lhe servem de base:Há indícios aparentes do fato de que Irineu não tinha conhecimentos exatos sobre o contexto histórico da época. Ele fala de João, o discípulo do Senhor, e quer com isso dizer o filho de Zebedeu, mas não o afirma explicitamente. Acrescente-se a isso que a lembrança de Policarpo vem da sua infância. Será que ele entendeu corretamente tudo que fora falado naquela época? De qualquer maneira, Policarpo sempre falava de João,que tinha visto o Senhor. Era esse o filho de Zebedeu? A pergunta é justificada porque Papias, no prólogo da sua “Interpretação das palavras do Senhor”, cita dois discípulos do Senhor com o nome João: o filho de Zebedeu e o presbítero.
33
Teria acontecido uma troca aqui?Há apoio a esse questionamento no próprio evangelho: a linguagem do livro mostra muitas semelhanças com o gnosticismo. Isso combina com uma testemunha ocular de Jesus oriundo da Palestina? Entretanto, essa linguagem é encontrada também na seita de Qumran. Como pode um do grupo dos doze depender do evangelho de Marcos em alguns trechos? Se o próprio Marcos depende da tradição apostólica, como F. Godet
2
9
29. Eusébio,
História Eclesiástica,
III, 31.3.3
0
30. Em alemão por E. Hennecke e W. Schneemelcher,
Neutestamentliche Apokryphen
, vol. I, 3, p. 19. Em português pelo tradutor.3
1
31. Eusébio,
História Eclesiástica
, V, 20.4.3
2
32. Irineu,
 Adversus Haereses
, II, 33.3; in Eusébio,
História Eclesiástica
, III,23.3.3
3
33. Cf. W. G. Kümmel,
Einleitung
, p. 207.
 
afirma,
34
essa pergunta é desnecessária. Como pode uma testemunha ocular do ministério de Jesus esquematizar de tal forma a polêmica entre Jesus e os judeus? Masisso Paulo também faz (Rm 2.17; 3.1; 1Ts 2.14,15). Se isso acontece de fato, depende evidentemente do círculo de leitores. Todos os eventos dos quais, segundo os sinópticos, o filho de Zebedeu participou, faltam em João. Isso é estranho, mas compreensível, quando percebemos que esses evangelhos já existiam e eram pressupostos pelo autor do quarto evangelho.A última objeção é feita com base na observação de Atos 4.13, que cita Pedro e João como homens “iletrados e incultos”. Como surgiu então essa obra tão teológica em todos os sentidos? Se, no entanto, refletirmos sobre o fato de que o parecer em Atos 4foi dado aproximadamente no ano 30 d.C., e o evangelho foi escrito no fim do primeiro século, temos aí um intervalo de 60 anos de ensino apostólico. Isso não seria suficiente para dar bons frutos teológicos?Apesar de todas as dúvidas lançadas sobre esses questionamentos críticos, W. G.Kümmel conclui: “A autoria do evangelho de João pelo filho de Zebedeu está descartada.”
35
R. Schnackenburg não consegue concordar com essa posição.
36
Por isso ele sugere outra tentativa de solução, que tenta respeitar os indícios do NT, a tradição da igreja antiga como também os questionamentos da crítica: O texto original do evangelho vem de João, o filho de Zebedeu, que relatou os acontecimentos da vida de Jesus e os interpretou pela perspectiva da ressurreição. Esse texto foi então desenvolvido para a forma em que hoje encontramos o evangelho por um aluno de João. Esse aluno teria então usado a expressão para o apóstolo “o discípulo a quem Jesus amava.” Depois da morte de João, é esse aluno quem garante a transmissão correta do texto — também emnome dos outros alunos (Jo 21.23). Essa forma de transmissão seria responsável também pelas rupturas no evangelho. A tentativa de Schnackenburg é a que mais me convence.J. A. T. Robinson é ainda mais enfático na defesa de João, filho de Zebedeu como autor desse evangelho. Ele diz: “Creio ser muito mais fácil crer que a função dos discípulos de João era basicamente de fazer aquilo para que temos dados concretos, ou seja, de servir de testemunha de que esse discípulo escreveu tudo isso e que o testemunho que foi dado na sua presença … , é verdadeiro.”
37
8. Destinatários
 No evangelho de João só encontramos dados sobre os receptores em formas de indicações. Dessas indicações e do contexto histórico só podemos tirar algumas conclusões.Os destinatários estão nos círculos de leitores que haviam sido influenciados pela heresia do gnosticismo judaico. De acordo com João 20.31, o objetivo do livro é que os seus leitores creiam que “Jesus é o Cristo, o Filho de Deus.”Possivelmente são pessoas que ainda não se tornaram cristãs e vivem no ambiente judaico influenciado pelo gnosticismo. Se devemos procurar esse ambiente no judaísmo.


Fonte:
http://www.amormariano.com.br

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