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segunda-feira, 27 de maio de 2013

457-A CRÍTICA TEXTUAL




CRÍTICA TEXTUAL DA BÍBLIA SAGRADA

DEFINIÇÃO
Crítica de um documento é o exercício de julgamento de uma pessoa sobre todas as questões envolvidas na compreensão de seu significado, verificação de sua verdade e apreciação de seu valor. A crítica é essencialmente uma disciplina de apreciação, não um compromisso de encontrar falhas, e não necessariamente destrutivas. As questões que o estudo crítico levanta relacionam-se com as fontes delineadas e o uso que se faz delas, a identidade do escritor, credenciais, propósito e o estilo e estrutura literária do próprio documento.


O dialogo entre alguém que aceita a leitura crítica da Bíblia e outro que crê na inspiração e na integridade da Bíblia é difícil, porque cada um parte de concepções diferentes. O crítico radical da Bíblia pressupõe que a Bíblia é apenas uma obra literária como qualquer outra, como tal devendo ser julgada pelos padrões da crítica histórica e literária; ademais, segundo esses críticos, existe uma evolução religiosa, pelo que as explicações naturais de fenômeno bíblico devem substituir as sobrenaturais. Esses críticos veem a Bíblia como um livro escrito por autores humanos, ignorando, portanto a função do Espírito Santo na inspiração dos autores da Bíblia.

AS BASES FILOSÓFICAS E TEOLÓGICAS DA CRÍTICA BÍBLICA
A filosofia idealista de Immanuel Kant (1724-1808), combinada com as ideias de Schleiermacher, Hegel e Ritschl, formou um respaldo filosófico favorável a uma abordagem critica da Bíblia. Kant fez dos ensinos de Locke sobre a sensação e de Descartes sobre a razão as chaves do reconhecimento de fenômenos da natureza mas propôs em sua Crítica da Razão Pura(1781) que o homem não poderia conhecer a Deus ou a alma, classificados por ele como dados do mundo do “noumena”, pelo sentido ou pela razão. Sua formação pietista levou-o a afirmar o sentido do dever ou consciência moral do homem, chamados por ele de “imperativo categórico”, como base da religião Kant concluiu em Crítica da Razão Prática (1788) que, como o homem tem um juízo moral, há um Deus que produz esse juízo. Os postulados da alma e da vida imortal são essenciais para que os homens que obedecem aos ditames da consciência sejam recompensados, uma vez que geralmente os bons não recebem galardão nessa vida.

Kant nega que o homem possa conhecer o mundo dos “noumena”. Não há portanto, lugar em seu sistema para uma revelação histórica e objetiva de Deus na Bíblia, considerada por ele um livro de história, escrito pelo homem, devendo como tal ser analisado pela crítica histórica como qualquer outro livro. Não há lugar para Cristo, o homem-Deus, no sistema kantiano. O homem em seu livre arbítrio e sua noção imanente daquilo que é certo, torna-se criador de uma religião pela qual desenvolve a moralidade nele inerente. Há uma linha lógica de continuidade entre o idealismo kantiano e o liberalismo moderno, para o qual cada um tem dentro de si a “centelha do divino” que precisa cultivar para alcançar uma boa conduta moral e a consequente imortalidade. Com essas ideias, Kant ajudou na formação de uma estrutura filosófica para a crítica bíblica e a moderna teologia liberal.

A CRÍTICA BÍBLICA
O racionalismo do Iluminismo e a filosofia idealista da era romântica foram, pois, os pais de uma crítica da Bíblia que visa destruir a natureza sobrenatural da Bíblia como revelação e que transforma a Bíblia num relato da evolução subjetiva da religião na consciência humana.

A alta crítica, ou crítica histórica ou literária, ou, como também é conhecida, a introdução bíblica, geralmente associada a essas ideias destrutivas, é simplesmente o cuidadoso estudo do pano de fundo histórico de cada livro da Bíblia; a baixa crítica, ou crítica textual, é uma tentativa de determinar se o texto que temos é aquele que saiu das mãos do autor. A baixa crítica tem conseguido assegurar ao texto da Bíblia um alto grau de fidelidade a fim de que estejamos seguros de ter os escritos dos autores originários da Bíblia. Por isso nenhuma doutrina ou ensino ético da Bíblia pode ser questionado nem pelo crítico mais radical. É a alta crítica, e não a baixa, que tem destruído a confiança de muitas pessoas na revelação divina da Bíblia.

A popularização da alta crítica é associada ao nome de Jean Astruc (1684-1766), médico francês do século XVIII, que em 1753 dividiu o livro de Gênesis em duas partes. Ele propôs o uso de dois documentos como fontes, por ter encontrado o nome Elohim (Deus) empregado em vários lugares e Javé (Senhor) em outros. Johann G. Eichhorn (1752-1827), outro crítico, responsável pela afirmação de que ao Bíblia deveria ser lida como um livro humano e analisado com recursos humanos, deu a tais estudos o nome de alta crítica.

Eichhorn notou outras características literárias; o uso dos nomes de Deus levou-o a crer que não somente o Gênesis mas o Hexateuco (Gênesis a Josué) eram documentos compostos. Em 1853, Hupfield foi o primeiro a sugerir que o Pentateuco era obra de ao menos dois autores, em vez de uma narrativa composta de muitas fontes por Moisés.

A “Alta Crítica” ou “Crítica Histórica”, estando ligado ao exame dos vários livros da Bíblia do ponto de vista de sua história. Por exemplo, trata da idade, autoria, formas literárias, estágios de composição e autenticidade canônica. Traça sua origem, preservação e integridade, mostrando seu conteúdo, caráter geral e valor. É uma disciplina que vem ajudando muito na comprovação de um cânon genuíno da Escritura. Algumas vezes a expressão “Alta Crítica” tem sido considerada extremamente prejudicial para uma atitude adequada e reverente para as Sagradas Escrituras. Isso se aplica quando o erudito perdeu de vista a inspiração da Palavra e a substituiu por sua própria atitude de ceticismo e incredulidade.

A Alta Crítica, no uso popular, designou um grupo particular de teorias que supõem que vários livros bíblicos não são o que parecem. As duas teorias mais frequentes são:

1) A Hipótese de Desenvolvimento relacionada ao Pentateuco. Esta é uma hipótese de trabalho, desenvolvida pelos eruditos alemães Graf e Wellhausen, que é hoje comumente ensinada como o ponto de partida para o estudo bíblico acadêmico.

Esse estudo começa com a suposição de que os cinco livros de Moisés são uma composição de quatro fontes distintas: duas narrativas históricas (J e E); Deuteronômio (D); e um documento relacionado principalmente com adoração e ritual (P, que teria sido composto por sacerdotes). Wellhausen acreditava que o padrão de adoração de Israel se desenvolveu de santuários e locais para um único templo em Jerusalém, que se tornou o único lugar onde os sacrifícios poderiam ser oferecidos. Dessa forma, D e P foram escritos, pelo menos em parte, para reivindicar a aprovação de Moisés para essa organização. Wellhausen datou J e E na antiga monarquia, uma vez que eles refletem a aceitação inquestionável de santuários locais. Ele identificou Deuteronômio como o livro da Lei encontrado no templo durante as reformas de Josias (621 a.C.; 2Rs 22.8-20) e o descreveu como um tratado pseudomosaico do século VII impondo a centralização da adoração. O documento P ele situou após o exílio, durante o tempo em que, segundo sua teoria a compilação final estava sendo feita à mão e conduzida sob a direção de Esdras.

De acordo com essa visão, nenhum material dos cinco livros foi escrito por Moisés; D e P foram posteriores a Moisés e expressavam ideias de que Moisés (uma figura muito obscura, na mente de Wellhausen) podia jamais ter tido. De modo não surpreendente, a negação especulativa da autoria mosaica e sua afirmação de que a figura de Moisés foi usada enganosamente para promover uma posição não mosaica foram sustentadas para levantar graves questões sobre autoridade da Bíblia. Pode a autoridade divina ligar-se à ficção mascarando fatos?

2) Data do Século II Proposta para o Livro de Daniel. Esta segunda teoria pode ser datada por um escritor anticristão de século III chamado Porfírio. Ele sustentava que Daniel foi escrito quando Antíoco Epifânio estava perseguindo os judeus e que seu propósito era encorajar os perseguidos. Não aceitando que Daniel seja profecia de predição, a teoria trata dos panoramas dos impérios terrenos nos capítulos 2, 7, 8 e 11 como sendo escritos após o evento para manter a confiança de que Deus esteve o tempo todo no controle, e logo traria aflição a Antíoco e levantaria seu próprio reino de forma visível. Para o livro ter esse efeito, entretanto, ele teria de ser aceito como uma produção do século VI na qual os capítulos sobre visões foram escritos pelo próprio Daniel. Aqui novamente estava uma teoria envolvendo mentira e falsidade em questões de fato que nega a uma parte da Bíblia a autoridade da verdade.

Outras teorias, que são às vezes citadas como exemplos da mais alta crítica são igualmente problemáticas.

REFUTAÇÃO A CRÍTICA BÍBLICA
Os escritores bíblicos sempre assumem que, porque Deus é verdadeiro e as Escrituras são sua Palavra para nós, todas as afirmações bíblicas são verdadeiras. Os adeptos da Alta Crítica que acham que há boas razões para concluir que, por exemplo, as cartas que usam o nome de Paulo e reivindicam sua autoridade apostólica não foram escritos por ele ou que outros capítulos incluídos nos livros que usam os nomes dos profetas não foram escritos ou conhecidos por aqueles profetas, ou que narrativas que dão a entender serem fatos (p.ex., Adão e Eva, os patriarcas, o Êxodo, as histórias de milagres dos Evangelhos) são realmente ficção, devem defender a retirada deles do cânone bíblico. O fato de eles pensarem assim demonstra não só irreverência para com as Escrituras, mas também falta de entendimento quanto à sua natureza.

Há clara evidência no mundo da erudição de que as teorias da Alta Crítica já escritas são desnecessárias e, na verdade, artificiais. Elas foram criadas com um fundo de preconceito contra a soberania divina, os milagres e desejo por explicação naturalísticas do aparentemente sobrenatural. Atualmente essas correntes teológicas são menos fortes. Embora a hipótese de Wellhausen ainda seja frequentemente ensinada aos iniciantes como se fosse uma certeza, profissionais do todas as escolas de pensamento a estão presentemente questionando de todos os ângulos. A autenticidade de todas as cartas de Paulo, todos os livros proféticos do Antigo Testamento, toda a história do Gênesis e dos Evangelhos e, na verdade, todos os fatos da Bíblia que foram questionados em qualquer época do passado são atualmente defendidos pelos eruditos com pelo menos tanta convicção quando pareciam no ceticismo para os céticos.

Mas isso não quer dizer que o apropriado trabalho de crítica bíblica, tanto a Alta quanto a Baixa, está encerrada ou que algum dia será. A forma da mente revelada de Deus está presente nas expressões de seus escritores humanos, e, portanto, o trabalho de exploração em todos os ângulos do que eles escreveram deve continuar. As técnicas da crítica são as ferramentas para essa tarefa. Até a metade do século XX, os eruditos bíblicos eram vistos pelos críticos principalmente como coletores, guardiões e servos de tradições, e o interesse critico centralizava-se nas suas fontes e nas formas literárias de seus materiais. Mas recentemente, o interesse centralizou-se nos escritores como pensadores e comunicadores por seu próprio direito, e as técnicas principalmente cultivadas foram aquelas relacionadas com a crítica literária e social, investigando como o conhecimento dos assuntos sobre os quais os escritores estavam escrevendo condicionou o que eles diziam.

Todas estas são linhas adequadas e necessárias de investigação, e não devemos nos desencorajar na sua procura pelo fato de que, às vezes, surgem respostas erradas. As teorias que formamos, contudo devem sempre ter em vista aquilo que os teóricos da “Alta Crítica” esquecem que as Escrituras Sagradas são a verdadeira e fidedigna Palavra de Deus.

EVIDENCIAS PARA TEXTOS BÍBLICOS
O crítico bíblico sincero utiliza-se de três fontes principais de evidência para determinação das palavras exatas, as mais próximas dos manuscritos originais. Além de examinar os manuscritos e versões, o crítico também deve usar outra fonte valiosa, os escritos dos Primeiros Pais da Igreja.

OS PAIS DA IGREJA
Esses homens foram grandes líderes, teólogos, professores e eruditos dos primeiros séculos depois de Cristo. Eram cristãos dedicados que escreveram sermões, comentários e harmonias. Eles defendiam ardentemente a fé contra as incursões pagãs e heresias.

Estes homens citaram livremente a Bíblia, não só mencionando todos os 27 livros do Novo Testamento, mas virtualmente cada versículo destes 27 livros. Geisler e Nix, no livro “Introdução Geral à Bíblia”, afirmam: “Cinco pais apenas, de Irineu aEusébio, possuem quase 36 citações do Novo Testamento”.

Há alguns anos, Sir David Dalrymple estava jantando com um grupo de letrados, quando alguém perguntou se, caso todo o Novo Testamento fosse destruído no século IV, seria possível formá-lo de novo a partir dos escritos dos Pais da Igreja dos séculos II e III. Dois meses depois ele disse a um dos participantes: “A pergunta despertou minha curiosidade e como possuía todas as obras existentes dos Pais da Igreja dos séculos II e III, comecei uma pesquisa. Até agora encontrei o Novo Testamento inteiro, exceto 11 versículos”.

O testemunho dos escritos dos Pais da Igreja quanto à autenticidade do texto é de suma importância. Primeiro, por causa de sua devoção a Deus e à sua Palavra, eles foram extremamente cuidadosos ao copiar as Escrituras. E segundo, por terem vivido tão perto dos dias apostólicos. É provável que tivessem tido acesso a manuscritos que não existem mais hoje. Há possibilidade de que alguns tivessem acesso aos próprios originais.

OS ROLOS DO MAR MORTO
Os Rolos do Mar Morto, descobertos, provavelmente, em 1947 por beduínos árabes chegaram às mãos dos estudiosos no fim daquele ano e no começo de 1948. As descobertas se realizaram nas cavernas nos penhascos margosos que distam entre um e dois km ao oeste da extremidade nordeste do Mar Morto, localidade esta que é conhecida pelo nome árabe de Cunrã (Qumran), perto de uma fonte copiosa de água doce chamada Ain Fexca (Feshkha). Esta localização à margem do deserto de Judá faz com que às vezes haja a expressão “Rolos de Ain Fexca”, ou “Rolos do Deserto de Judá”.

Os rolos foram vistos por vários estudiosos na parte posterior do ano 1947, e alguns deles confessam que na época, menosprezaram-nos como sendo falsificações. Um dos professores que reconheceram a verdadeira anti­guidade dos rolos foi o falecido Professor Eleazar L. Sukenik da Universidade Hebraica, e ele conseguiu mais tarde comprar alguns deles. Outros rolos foram levados para a Escola Americana de Pesquisas Orientais em Jerusalém, onde o Diretor interino, Dr. John C. Trever, percebendo seu grande valor, mandou fotografar os pedaços que foram levados a ele. Uma das suas foto­grafias foi enviada ao Professor William F. Albright, que imediatamente declarou que esta foi “a descoberta a mais importante que já tinha sido feita no assunto de manuscritos do Antigo Testamento”.

Escritos pelos essênios, entre o primeiro século antes e o primeiro século depois de Cristo, as partes bíblicas deste rolo nos fornecem manuscritos centenas de anos mais antigos que quaisquer outros. Partes de cada livro do Antigo Testamento foram encontradas, com exceção de Ester. De especial interesse são os rolos do livro do Profeta Isaías, porque um dentre os dois documentos é o livro completo do grande profeta. Trata-se de um manuscrito hebraico de Isaías Mil anos mais antigo do que qualquer outro já descoberto. De maneira notável, os rolos confirmam a exatidão do texto mossorético do Antigo Testamento.

OS PAPIROS DAS TUMBAS DO EGITO
De grande interesse para os eruditos bíblicos é uma certa quantidade de papiros descobertos recentemente (1931) nas tumbas do Egito. Estes têm sido frequentemente considerados os de benefício mais importantes para a crítica textual do Novo Testamento, desde que Tischendorf anunciou a descobertas dos Códices Sinaíticos. Esses papiros foram adquiridos por um colecionador de manuscritos, A. Chester Beatty. Outros se encontram na Universidade de Michigan e nas mãos de particulares. Eles contêm partes do Antigo Testamento em grego: trechos consideráveis de Gênesis, Números e Deuteronômio, e trechos de Ester, Ezequiel e Daniel. Três manuscritos do grupo são livros do Novo Testamento: porções de trinta folhas dos Evangelhos e Atos, oitenta e seis folhas das Epístolas Paulinas e dez folhas da parte do meio do livro de Apocalipse. Esse material é de maior importância, pois data do século III, ou antes. O texto é de tão alta qualidade que se compara aos Códices Vaticano e Sinaítico.

O fragmento de John Rylands é um pequeno pedaço de papiro com apenas 38,96 cm por 6,4 cm. Embora tão pequeno, é reconhecido como o manuscrito mais antigo de qualquer parte do Novo Testamento. Está escrito de ambos os lados e contém uma parte do Evangelho de João: 1.31-33,37,38. Foi obtido em 1920.

Em 1956, Victor Martin, professor de filologia clássica na Universidade de Genebra, publicou um códice de papiro do Evangelho de João: o Papiro Bodmer II. Este incluía os capítulos 1.1 até 14.26, sendo datado de 200 d.C. Trata-se provavelmente do livro mais antigo do Novo Testamento.

CONCLUSÃO
Qualquer que seja a variante das leituras descobertas pelos críticos textuais, é um fato reconhecido que nenhuma delas de maneira alguma altera a doutrina cristã.
Os críticos Wescott e Hort, Erza Abbot, Philip Scraff e A. T. Robertson avaliaram cuidadosamente as evidencias e concluíram que o texto do Novo Testamento é mais de 99% puro.

A relevância da crítica textual bíblica

QUÃO CONFIÁVEIS SÃO AS CÓPIAS E TRADUÇÕES DO TEXTO BÍBLICO?
"S. Jerônimo", de Caravaggio. Jerônimo foi o tradutor da Bíblia do hebraico e grego para o latim, na obra que ficou conhecida comoVulgata Latina.
A Bíblia se acha em demanda popular. Isto se reflete no lançamento, virtualmente a cada ano, de novas traduções da Bíblia. Algumas delas rapidamente atingem uma circulação de centenas de milhares de exemplares e, em alguns casos, até milhões de exemplares. Mas, uma pessoa talvez pergunte: ‘Por que continuar a publicar novas traduções? Há, em português, as Traduções Almeida, a Soares católica e outras versões mais antigas. Por que precisamos de novas?’
Razões Para Novas Traduções
Há várias razões boas, mas se destacam três. Primeira, a língua muda continuamente. Isto torna as traduções mais antigas difíceis de entender e, às vezes, até desorientadoras em seu sentido.
Por exemplo, a palavra inglesa "costa", nos tempos antigos, não se referia apenas à costa marítima. Costumava significar o lado ou limite de um país. Assim, a Versão Rei Jaimes e a Douay católica, ambas publicadas primeiramente há mais de 360 anos atras, falam do apóstolo Paulo viajando pelas "costas superiores" até Éfeso. (Atos 19:1) No entanto, o registro bíblico mostra que Paulo viajou a Éfeso pelo "país da Galácia e da Frígia", uma jornada que não o levaria a parte alguma perto da costa marítima! (Atos 18:23) Assim, A Nova Bíblia Estadunidense, uma moderna tradução católica de 1970, em inglês, reza: "Paulo atravessou o interior do país e chegou a Éfeso".
Poderiam ser citados muitos exemplos similares. Assim, a mudança, com o passar dos anos, no sentido de certas palavras, torna valiosa uma tradução nova e atualizada.
Uma segunda razão para se publicarem novas traduções da Bíblia é que nos anos recentes descobriram-se muitos milhares de antigos documentos escritos. E tais documentos seculares fornecem melhor entendimento das línguas originais — hebraico, aramaico e grego — em que a Bíblia foi escrita.
Não faz muito tempo, pensava-se que muitas palavras no Novo Testamento eram palavras bíblicas especiais, por assim dizer. Mas, agora, estas mesmas palavras, segundo se verificou, achavam-se na correspondência comum dos tempos bíblicos — em escrituras, documentos oficiais, e até mesmo em recibos. Ver como tais palavras eram usadas nos documentos seculares daquele tempo tem sido de ajuda para se conseguir, em certos casos, uma tradução bíblica mais precisa.
Uma terceira razão importante para novas traduções da Bíblia é a descoberta de cada vez maior número de antigos manuscritos da Bíblia. Somente em relação ao Novo Testamento há mais de 4.600 exemplares de manuscritos existentes, no todo ou em parte, em grego; também, mais de 8.000 mais cópias em latim e cerca de 1.000 em outras línguas.
A Bíblia se acha em demanda popular. Isto se reflete no lançamento, virtualmente a cada ano, de novas traduções da Bíblia. Algumas delas rapidamente atingem uma circulação de centenas de milhares de exemplares e, em alguns casos, até milhões de exemplares.
Mas, uma pessoa talvez pergunte: ‘Por que continuar a publicar novas traduções? Há, em português, a TraduçãoAlmeida, a Soares católica e outras versões mais antigas. Por que precisamos de novas?’.
"Bíblia de Lutero", tradução para a língua alemã feita pelo famoso reformador, impressa pela primeira vez em 1534. Lutero começou o trabalho de tradução em 1521 e percorreu vilas, mercados e feiras para ouvir o povo falando e fazer uma tradução que fosse, ao mesmo tempo, fidedigna e acessível. Lutero baseou-se no resultado do trabalho do humanista e filósofo Erasmo de Roterdã, que em 1516 compilou de 6 textos antigos (sendo 5 do período bizantino) para a formulação do Novo Testamento grego. Esta obra ficou conhecida como "Textus Receptus". 
Estabelecendo um Texto
Felizmente, o tradutor da Bíblia não precisa examinar pessoalmente cada manuscrito. Críticos especializados, homens tais como B. F. Wescott e F. J. A. Hort, D. Eberhard Nestle e Rudolf Kittel compararam as modalidades e variações características de cada manuscrito importante e estabeleceram o que são chamados de "textos" na língua original. Os "textos" que prepararam adotam as melhores leituras disponíveis de todos os manuscritos. Amiúde, alistam nas notas marginais as letras do código e as designações dos manuscritos e das versões que apóiam tal leitura, seguidas de pormenores de todas as importantes leituras alternativas. Tais críticos não se preocupam com a tradução da Bíblia para o inglês ou para qualquer outra língua, mas trabalham apenas com a língua original. Daí, o tradutor da Bíblia entra em cena. Seu trabalho é colocar o texto na língua original em qualquer língua que ele deseje. Guia-se pela evidência que os críticos textuais tenham ajuntado.
Crítica Textual
A crítica textual tem que ver com o trabalho dos críticos textuais ao elaborarem o "texto" da língua original em que se baseiam os tradutores da Bíblia. O trabalho dos críticos textuais é às vezes chamado de"baixa crítica", para diferençá-lo da "alta crítica". Visto que seu propósito é recuperar o texto original do escritor bíblico, trata-se de crítica construtiva e não periogosa como são as "críticas" (alta crítica) que admitem pressupostos liberais de interpretação.
Como um exemplo do trabalho dos críticos textuais, considere o versículo bíblico, 1 Timóteo 3:16. A VersãoTrinitária reza: "Deus se manifestou em carne". No entanto, a maioria das traduções modernas dizem: "Aquele que se manifestou em carne". Por que a diferença? E por que as traduções modernas substituíram "Deus" por "Aquele que"? Porque os críticos textuais identificaram como o texto original do escritor da Bíblia obviamente rezava.
A antiga contração para "Deus" era representada pela forma grega, ao passo que as letras gregas literalmente significando "aquele" na escrita uncial ou de maiúsculas eram OC. Pode ver quão fácil seria converter "aquele" para o título "Deus" por simplesmente colocar um único traço no meio do "O" e uma barra no alto de ambas as letras. E esta é uma alteração que foi feita em alguns manuscritos antigos.
Os críticos textuais expuseram esta alteração. Westcott e Hort mostram em suas Notes on Select Readings (Notas Sobre Leituras Seletas) que só se acha tal alteração em manuscritos escritos desde o fim do quarto século em diante. Até mesmo no famoso manuscrito Alexandrino do quinto século, exposto no Museu Britânico, um exame microscópico revelou que o traço e a barra foram adicionados por outra mão numa ocasião muito posterior!
Os críticos textuais também conseguem identificar outras alterações ou erros. Vários indícios os ajudam. Por exemplo, a confusão das letras que se parecem muito, a omissão ou duplicação de frases, devido ao olho seguir a linha errada, ou a incorporação de uma nota explicativa marginal ao próprio texto.
Cuidado Meticuloso ao Copiar
A existência de tais erros poderia mover a pessoa a perguntar: ‘Quão comuns são os erros ou as variações nos manuscritos? Como podemos estar seguros de que os antigos manuscritos bíblicos, que servem de base para os críticos textuais, são razoavelmente exatos, visto que nenhum deles é original?". É verdade que é fácil que os erros surjam quando são feitas repetidas cópias de um autógrafo. No entanto, é importante notar a forma meticulosa em que os exemplares das Escrituras eram verificados e corrigidos pelos copistas.
Os escribas hebreus eram especialmente reverentes. Usavam de escrupuloso cuidado ao lidar com o texto. Possuíam sistemas de verificação, tais como o de contar o número das letras em cada seção, até mesmo o número de vezes em que certas letras apareciam. Nenhuma palavra era escrita de memória. Até mesmo se um rei falasse com um escriba enquanto ele escrevia o nome de Deus, Iahweh, o rei devia ser ignorado. Depois de um manuscrito ficar pronto, era verificado, ou examinado pelos revisores.
Os manuscritos copiados em grego fornecem evidência do trabalho de correção. Pode-se ver isto, por exemplo, no famoso Códice Sinaítico, um manuscrito da Versão dos Setenta, grega, do quarto século. O revisor adicionou na margem superior um trecho que fora omitido erradamente de 1ª Coríntios, capítulo treze. Daí, colocou umas flechas indicando onde o trecho deveria ter aparecido no texto real.
A respeito do efeito de tal cuidado escrupuloso, o Dr. Hort observa: "O grande volume de palavras do Novo Testamento se destaca acima de todos os processos discriminatórios da crítica, porque está livre de variação, e só precisa ser transcrito. Se trivialidades relativas . . . forem postas de lado, as palavras, em nossa conclusão, ainda sujeitas à dúvida mal podem chegar a constituir a milésima parte do Novo Testamento inteiro."
O falecido crítico textual bíblico, Sir Frederie Kenyon, fez a seguinte declaração confirmadora na introdução de seus sete volumes sobre os "Papiros Bíblicos de Chester Beatty": "A primeira e mais importante conclusão a que se chega à base do exame deles [dos então recentemente descobertos papiros do segundo ao quarto século] é a satisfatória de que confirmam a exatidão essencial dos textos existentes. Não aparece nenhuma variação substancial ou fundamental quer no Velho quer no Novo Testamento. Não há omissões ou adições importantes de trechos nem variações que afetem fatos ou doutrinas vitais. As variações do texto afetam questões menores, tais como a ordem das palavras ou as palavras precisas usadas."
Que o cuidado em copiar era eficaz em praticamente eliminar os erros se evidencia também do recentemente descoberto Rolo "A" do Mar Morto, de Isaías, que data por volta de 100 a.C.. Este rolo tem cerca de mil anos mais do que era anteriormente o exemplar mais antigo conhecido do livro bíblico de Isaías em hebraico. Todavia, há poucas diferenças entre as duas cópias de Isaías, movendo o Professor Millar Burrows a observar em seu livro The Dead Sea Scrolls (Os Rolos do Mar Morto): "É algo de admirar que por uns mil anos, o texto tenha sofrido tão pouca alteração".
Retrato de copista medieval. A meticulosidade e idoneidade dos copistas do período é, hoje, praticamente inquestionável. 
São Realmente Tão Antigos?
Todavia, alguém talvez pergunte: ‘Como se pode estar tão certo de que aqueles Rolos do Mar Morto e outros manuscritos descobertos são tão antigos? Há realmente evidência de que são?’. Sim, há. A paleografia, que tem a ver com o estudo de escritos antigos, oferece notável evidência. Os estilos de escrita variam de período em período, mudando com a moda do dia, e, também, como a língua muda com o passar dos anos. Os antigos documentos escritos amiúde são datados com o emprego desta ciência da paleografia. Considere um exemplo.
No Rolo "A" do Mar Morto, do Livro de Isaías, tanto as letras hebraicas waw como yohdh têm aparência similar. Este era o estilo por volta do primeiro e do segundo séculos, mas, em períodos posteriores, o yohdh era visivelmente menor do que waw. Este é apenas um exemplo de como o estudo do estilo de escrita pode ajudar a datar um manuscrito.
Naturalmente, há a possibilidade de que alguém tente forjar um manuscrito antigo, fazendo tudo parecer antigo. E houve uma ou duas pessoas no século dezenove que tentaram fazer isso. Uma delas foi Constantino Simonides. Mas, foi exposto pela criteriosa crítica textual. Atualmente, o uso de testes de datar do carbono-14, embora não sejam conclusivos, também ajudariam a expor uma falsificação. No entanto, o estudo cuidadoso ainda é o meio mais valioso de se determinar a idade de manuscritos e de expor quaisquer tentativas de falsificação.
O que ajuda os críticos bíblicos em tal trabalho, hoje, são as fotos de manuscritos antigos, que são colocadas em microfilme, ou publicadas em facsímile (e na Internete). Críticos em todo o mundo podem estudar pormenorizadamente os manuscritos. Assim, as possibilidades de falsificação que consigam escapar são deveras diminutas. Seria muito mais fácil falsificar notas de banco, pois então só seria necessária a perícia técnica, ao invés de o conhecimento da paleografia.
Base Para Confiança
Por conseguinte, pode-se ver que o estudo dos manuscritos antigos é uma ciência verdadeira que se torna cada vez mais exata a cada ano. E toda nova tradução da Bíblia, se se basear em plena evidência, sem preconceitos, torna-se cada vez mais refinada e exata. Assim, a crítica textual moderna fornece razão para a completa confiança de que a Bíblia chegou até nós hoje essencialmente inalterada.
Naturalmente, é somente isso que seria de se esperar. Pois o próprio Deus Onipotente inquestionavelmente teve a ver com a preservação tão fiel de Sua Palavra durante todos esses anos. Não importa de que modo ele seja considerado, a fidedignidade geral do texto da Bíblia está além de dúvida.

O desenvolvimento da crítica textual


Uma vez reunidos todos os manuscritos e as demais evidências que dão testemunho quanto ao texto das Escrituras, o estudante da crítica textual torna-se herdeiro de uma tradição grandiosa. Ele passa a ter à sua disposição grande parte dos documentos que devem ser usados a fim de apurar a verdadeira redação do texto bíblico. Esta aula trata do desenvolvimento histórico da ciência da crítica textual.

Distinção entre a alta crítica e a baixa crítica
Levantou-se muita confusão e controvérsia em torno da questão da "alta" crítica (crítica histórica) e da "baixa" crítica (crítica textual) da Bíblia. Parte dessa controvérsia resultou da má compreensão do termo “crítica” aplicado às Escrituras. Em seu sentido gramatical esse termo diz respeito meramente ao exercício do julgamento. Quando se aplica à Bíblia, é usado no sentido de exercício do julgamento da própria Bíblia. Todavia, existem dois tipos básicos de crítica, e duas atitudes básicas diante de cada tipo. Os títulos atribuídos a esses dois tipos de crítica nada têm que ver com sua importância, conforme ilustra o debate que se segue.

A alta crítica (histórica)
Quando se aplica o julgamento dos estudiosos à autenticidade do texto bíblico, esse julgamento se chama alta crítica, ou crítica histórica. O assunto desse tipo de julgamento dos especialistas diz respeito à data do texto, seu estiIo literário, sua estrutura, sua historicidade e sua autoria. O resultado é que a alta crítica na verdade não é parte fundamental da nossa matéria “Introdução Geral ao Estudo da Bíblia”. Antes, a alta crítica é a própria essência da Introdução Especial. Os resultados dos estudos da alta crítica, feitos pelos herdeiros da teologia herética dos fins do século XVIII, não passam de um tipo de fruto altamente destrutivo.

O Antigo Testamento. A última data atribuída aos documentos do An¬tigo Testamento induziu alguns estudiosos a atribuir seus elementos so¬brenaturais a lendas ou mitos. Isso resultou na negação da historicidade e da autenticidade de grande parte do Antigo Testamento por parte dos estudiosos céticos. Na tentativa de mediar entre o tradicionalismo e o ceticismo, Julius Wellhausen e seus seguidores desenvolveram a teoria documental, a qual propõe datar os livros do Antigo Testamento de modo menos sobrenaturalista. O resultado foi que desenvolveram a teoria JEDP sobre o Antigo Testamento.
Tal teoria baseia-se em grande parte no argumento de que Israel não possuía escrita, antes da monarquia, e que um Código Eloísta (E) e um Código Javista (j) baseavam-se em duas tradições orais a respeito de Deus ("E" indicava o nome de Eloim e "j" o nome de Jeová [Yahweh]). A esses foi acrescentado o Código Deuteronômico (D) (documentos atribuídos ao tempo de Josias) e o chamado Sacerdotal ("Priestly" em inglês, de onde se origina o "p") do judaísmo pós-exílico. Essas opiniões não agradaram aos estudiosos ortodoxos, pelo que se levantou uma onda de oposição. Essa oposição surgiu só depois de longo tempo, de modo que o mundo dos estudiosos na maior parte seguiu a teoria de Wellhausen, de W. Robertson Smith e de Samuel R. Driver. Quando, finalmente, a oposição levantou sua voz contra a "crítica destrutiva", esta foi considerada insignificante, desprezada e arquivada. Entre os opositores estavam os proponentes de uma "crítica construtiva", como William Henry Green, A. H. Sayce, Franz Delitzch, James Orr, Wilhelm Moller, Eduard Naville e Robert Dick Wilson.

O Novo Testamento. A aplicação de princípios semelhantes aos escritos do Novo Testamento surgiu na escola de teologia de Túbingen, por orientação de Heinrich Paulus, de Wilhelm de Wette e de outros. Esses homens desenvolveram princípios que desafiavam a autoria, a estrutura, o estilo e a data dos livros do Novo Testamento. A crítica destrutiva do modernismo induziu à crítica da forma, aplicada aos evangelhos, à negação da autoria de Paulo da maior parte das cartas a ele atribuídas até então. Chegou-se à conclusão de que só se poderia reconhecer como autenticamente paulinas as "Quatro Grandes" (Romanos, Gaiatas, 1 e 2 Coríntios). Por volta do final do século XIX, estudiosos ortodoxos competentes começaram a desafiar a crítica destrutiva da escola da alta crítica. Dentre esses estudiosos ortodoxos estavam George Salmon, Theodor v DM Zahn e R. H. Lightfoot. A obra desses homens quanto à alta crítica deve certamente ser considerada crítica construtiva. Grande parte do trabalho recente feito no campo da alta crítica revelou sua natureza racionalista na teologia, ainda que reivindicasse estar fundamentada na doutrina cristã ortodoxa. Esse racionalismo mais recente manifesta-se mais abertamente quando versa sobre certos assuntos como os milagres, o nascimento virginal de Jesus e sua ressurreição física.

A baixa crítica (textual)
Quando o julgamento dos estudiosos se aplica à confiabilidade do texto bíblico, ela é classificada como baixa crítica, ou crítica textual. Abaixa crítica aplica-se à forma, ou ao texto da Bíblia, numa tentativa de restaurar o texto original. Não deve ser confundida com a alta crítica, visto que a baixa crítica, ou crítica textual, estuda a forma das palavras de um documento, e não seu valor documental. Muitos exemplos de baixa crítica podem ser encontrados na história da transmissão do texto bíblico. Alguns desses exemplos foram produzidos por leais defensores do cristianismo ortodoxo, mas outros provieram de seus mais veementes opositores. Os estudiosos que se interessam por obter o original de um texto, mediante a aplicação de certos critérios ou padrões de qualidade, são críticos textuais. Em geral, o trabalho desses homens é construtivo, e sua atitude básica, positiva. Alguns deles seguem o exemplo de B. R Westcott, sir Frederick G. Kenyon, Bruce M. Metzger e outros. Os que usam esses critérios para tentar destruir o texto são "descobridores de defeitos", apenas se interessam por encontrar falhas, e seu trabalho é basicamente negativo e destrutivo.
Visto que muitos dos que abraçaram a alta crítica investiram muito tempo e energia no estudo da crítica textual, tem havido uma tendência para que se classifiquem todos os críticos textuais com o termo "modernistas", críticos destrutivos, ou críticos apegados à "alta crítica". Ao fazerem isso, alguns cristãos virtualmente "atiraram o bebé no ralo junto com a água do banho". Desaprovar a crítica textual meramente por que certos críticos da "alta crítica" empregaram esse método em seu trabalho dificilmente representa uma posição justificável, digna de ser defendida. A questão mais importante não é se a crítica é alta ou baixa, mas se é sadia, ortodoxa. Trata-se de assunto de evidências e de argumentações, não de pressuposições apriorísticas.

O desenvolvimento histórico da crítica textual
A história do texto da Bíblia na igreja pode ser dividida em vários períodos básicos, de modo especial com referência ao Novo Testamento: 1) o período de reduplicação (até 325), 2) o período de padronização do texto (325-1500), 3) o período de cristalização (1500-1648) e 4) o período de crítica e de revisão (1648 até o presente). Neste período de crítica e de revisão, tem havido uma luta entre os proponentes do "texto recebido" e os que advogam o "texto criticado". Nesse debate o texto criticado tem ocupado a posição de predominância. Ainda que não haja muitos estu¬diosos hoje que defendam seriamente a superioridade do texto recebido, deve-se observar que não existem diferenças substanciais entre o texto recebido e o texto criticado. As diferenças porventura existentes entre ambos são meramente de ordem técnica e não doutrinária, visto que as variantes não acarretam implicações doutrinárias. Apesar disso, tais estudos "críticos", com frequência, são úteis para interpretar a Bíblia, e para todos os propósitos práticos as duas tradições textuais comunicam o con-teúdo dos autógrafos, ainda que estejam separadamente guarnecidas de pequenas diferenças escribais e técnicas.

O período de reduplicação (até 325)
A partir do século III a.C., os estudiosos de Alexandria tentaram res¬taurar os textos dos poetas e proseadores gregos. Foi nesse centro cultural que a versão do Antigo Testamento chamada Septuaginta (LXX) veio à luz, entre cerca de 280 e 150 a.C. Alexandria também era um centro de cristianismo durante os primeiros séculos da igreja, posição que conser¬vou até o surgimento do islamismo, no século VII. Entende-se que essa cidade seria o centro de atividade intelectual, na tentativa de restaurar o texto da Bíblia antes de 325. Todavia, não houve basicamente nenhuma crítica textual verdadeira do Novo Testamento durante esses séculos. Foi, antes, um período de reduplicação de manuscritos, em vez de avaliação de textos. No entanto, em contraposição a Alexandria, na Palestina, de 70-100 d.C, estudiosos rabínicos efetuaram diligente trabalho textual no Antigo Testamento.

As cópias dos autógrafos (até 150). Durante a segunda metade do século I, os livros do Novo Testamento eram escritos sob a direção do Espírito Santo, sendo, portanto, inerrantes. Não há dúvida, porém, de que as cópias desses autógrafos, feitas em papiro, vieram a perder-se com o tem¬po. Mas antes de perecer, foram providencialmente recopiados, e circularam pelas igrejas. As primeiras cópias foram feitas ao redor de 95 d.C., logo depois de os originais terem sido produzidos. Tais cópias também eram feitas em rolos de papiro; mais tarde, haveriam de ser recopiadas em códices de papiro; mais tarde, seriam usados velinos e pergaminhos. Poucas dessas cópias chegaram até nós, se é que realmente chegaram.
Conquanto houvesse muitas cópias dos autógrafos, no início, nem todas tinham a mesma boa qualidade, visto que, tão logo começaram a ser feitas, erros e lapsos de escrita foram-se imiscuindo. A qualidade de uma cópia dependia da capacidade do escriba. As cópias de grande exatidão eram muito caras, por serem trabalho de escribas profissionais. Alguns escribas menos categorizados faziam cópias inferiores, ainda que o baixo custo permitisse uma distribuição mais ampla. Algumas cópias tinha péssima qualidade, por serem feitas por pessoas sem qualificação profissional, para uso de indivíduos ou grupos especiais.

As cópias das cópias (150-325). Quando o período apostólico estava chegando ao fim, as perseguições contra a igreja foram-se tornando cada vez mais generalizadas. Perseguições esporádicas culminaram em duas perseguições imperiais sob o comando dos imperadores Décio e Diocleciano. Os cristãos, além de terem de enfrentar intensa perseguição, sofrendo até mesmo a morte, frequentemente viam suas Escrituras Sagradas confiscadas e destruídas. Em decorrência dessa destruição, havia o perigo de as Escrituras se perderem, ficando a igreja sem seu Livro Sagrado. Por isso, os cristãos costumavam fazer cópias de quaisquer manuscritos que possuíssem, com a maior rapidez possível. Visto que os escribas corriam o perigo de ser perseguidos, caso fossem apanhados, as Escrituras frequentemente eram copiadas por "amadores", e não por "profissionais", i.e., pelos próprios membros da igreja. Numa situação como essa, era mais fácil os erros penetrarem no texto.
Enquanto isso, nesses mesmos anos, a igreja de Alexandria iniciara um trabalho pioneiro em sua área geográfica: comparava textos e os publicava. Isso, por volta de 200-250. O exemplo de iniciativa dessa igreja foi seguido em outras partes do Império, de modo que se criou um trabalho básico de crítica textual, quando se deu a perseguição do imperador Décio (249-251). Orígenes em Alexandria trabalhou em sua obra Héxapla, embora jamais viesse a ser publicada integralmente. Além desse trabalho a respeito do Antigo Testamento, ele escreveu comentários sobre o Novo Testamento, tornando-se uma espécie de crítico textual. Entre outros exemplos de trabalhos primitivos na área da crítica textual está “Lucian recension”, a obra de Julius Africanus sobre “Susanna”, e a de Teodoro de Mopsuéstia, “Cântico dos cânticos”, na região ao redor de Cesaréia. Esses críticos primitivos executaram uma espécie de seleção elementar e revisão dos documentos, mas suas obras não conseguiram deter a onda de criação casual, não-sistemática e, em grande parte, sem objetivo de textos paralelos, ou variantes do texto do Novo Testamento.

O período de padronização (325-1500)
Depois da igreja ter se libertado da ameaça de perseguição, logo após a promulgação do Édito de Milão (313), sua influência se fez sentir no processo de cópia dos manuscritos da Bíblia. Esse período ficou marcado pela introdução de códices de velino e de pergaminho e, no final do período, de livros feitos de papel. Durante esse período, os unciais gregos cederam lugar aos manuscritos minúsculos, i.e., obras impressas foram substituídas por outras escritas num tipo modificado de escrita cursiva. Ao longo desse período, as revisões críticas dos textos eram relativamente raras, exceto pelos esforços de estudiosos como Jerônimo (c. 340-420) e Alcuíno de Iorque (735-804). Todavia, o período especial entre 500 e 1000 testemunhou a obra massorética no texto do Antigo Testamento, de que resultou no Texto massorético.
Quando o imperador Constantino escreveu a Eusébio de Cesaréia, dando-lhe instruções para que providenciasse 50 exemplares das Escrituras Cristãs, iniciou-se um novo tempo na história do Novo Testamento. Foi o período da padronização do texto, quando o Novo Testamento começou a ser copiado com todo o cuidado e fidelidade, a partir dos manuscritos existentes. O texto de uma região particular era copiado por copistas dessa região. Quando Constantino transferiu a sede do Império para a cidade que levou seu próprio nome (Constantinopla), seria bem razoável supor que tal cidade haveria de dominar o mundo de fala grega, e que seus textos escriturísticos haveriam de tornar-se os textos predominantes para a igreja. Foi o que ocorreu, sobretudo tendo em mente o patrocínio do imperador, que mandou produzir cópias cuidadosas do texto do Novo Testamento.
Em decorrência do precedente criado por Constantino, grande número de manuscritos copiados com todo o cuidado foram produzidos ao longo da Idade Média; todavia, revisões oficiais, planejadas com o máximo cuidado, eram relativamente raras. Visto que assim se desenvolveu a padronização do texto, houve pouca necessidade de classificar, avaliar e criticar os primeiros manuscritos do Novo Testamento. O resultado foi que o texto bíblico permaneceu relativamente intocado por todo o período. Mais ou menos no fim dessa época, tornou-se possível a total padronização do texto, havendo ilimitado número de exemplares mais ou menos idênticos, mediante a introdução de papel barato e da imprensa. Os exemplares da Bíblia impressos em papel tornaram-se mais abundantes depois do século XII. Por volta de 1454, Johann Gutenberg desenvolveu o sistema de tipos móveis para a imprensa, e assim abriu a porta para os esforços favoráveis a uma crítica mais cuidadosa do texto, durante a era da Reforma.

O período de cristalização (1500-1648)
No período da Reforma, o texto bíblico entrou no período de cristalização, assumindo a forma impressa em lugar da manuscrita. Envidaram-se esforços no sentido de se publicarem textos impressos da Bíblia com a maior precisão possível. Com frequência esses textos eram publicados em vários línguas simultaneamente, incluindo títulos como a “Poliglota complutense” (1514-17), a “Poliglota de Antuérpia” (1569-72), a “Poliglota de Pa¬ris” (1629-45) e a “Poliglota de Londres” (1657-69). Publicou-se também nesse período (c. 1525) uma edição modelar do Texto massorético, sob a direção editorial de Jacob ben Chayyim, judeu-cristão. O texto se baseava em manuscritos que datavam do século XIV. O texto é essencialmente uma revisão do massoreta Ben Asher (fl. c. 920), tendo-se tornado a base de todas as cópias subsequentes da Bíblia hebraica, tanto em forma de manuscrito como impressa. O trabalho que se fez no Novo Testamento foi mais variado e abrangente, em seu alcance, em consequência da invenção de Gutenberg.

O cardeal Francisco Ximenes de Cisneros (1437-1517), da Espanha, planejou a primeira edição impressa do Novo Testamento grego, que haveria de sair do prelo em 1502. Deveria constituir parte da Poliglota complutense, consistindo em textos em aramaico, em hebraico, em grego e em latim, publicada na cidade universitária de Alcalá (Complutum, em latim), depois do que a edição receberia esse nome, ao ser publicada ali em 1514 e em 1517. Conquanto fosse o primeiro Novo Testamento im¬presso, não foi o primeiro a ser colocado no mercado. O papa Leão X não emitiu o imprimátur senão em março de 1520. Nunca se conseguiu apu¬rar satisfatoriamente quais teriam sido os manuscritos gregos em que se baseou a obra de Ximenes; e surgiram algumas questões a respeito das declarações de Ximenes na dedicação.
Desidério Erasmo (c. 1466-1536), de Roterdã, estudioso e humanista holandês, teve a honra de editar o primeiro Novo Testamento grego que veio a público. Já em 1514, Erasmo havia tratado dessa obra com o impressor Johann Froben, da Basileia. Erasmo viajou para a Basileia em julho de 1515, a fim de procurar alguns manuscritos em grego, para que ficassem ao lado de sua própria tradução latina. Embora os manuscritos que ele encontrou precisassem de revisão, Erasmo prosseguiu em seu trabalho. Trabalhava depressa; sua primeira edição, publicada em março do 1516, continha numerosos erros, tanto de natureza tipográfica como mecânica. Bruce M. Metzger afirma em sua obra The text of the New testament [O texto do Novo Testamento], que o texto de Erasmo, o qual posteriormente se tornaria a base do chamado Textus receptus, não se baseou em manuscritos primitivos, mas em textos que não passaram por uma revisão confiável; conseqúentemente, seus textos básicos não eram dignos de confiança. A própria receptividade dada à edição de Erasmo do Novo Testamento em grego teve natureza mista. Apesar disso, ao redor de 1519 tornou-se necessária nova edição. Essa segunda edição tor¬nou-se a base da tradução que Lutero fez da Bíblia para o alemão, embora ele usasse apenas mais um manuscrito em seu trabalho. Outras edições surgiram em 1522, em 1527 e em 1535. Todas essas edições basearam-se no texto bizantino, continham trechos de manuscritos bem recentes e incluíam porções espúrias como l João 5.7,8, bem como a tradução feita por Erasmo para o grego, a partir do texto latino, de alguns versículos do Apocalipse.

Roberto Estéfano, impressor da corte real em Paris, publicou o Novo Testamento grego em 1546, em 1549, em 1550 e em 1551. A terceira edição (1550) foi a primeira edição que continha um aparato crítico, ainda que fossem meros quinze manuscritos. Essa edição baseou-se na quarta edição de Erasmo, e foi a base do Textus receptus. Sendo publicada, essa terceira edição haveria de tornar-se o principal texto da Inglaterra. Em sua quarta edição, Estéfano divulgou sua conversão ao protestantismo e implantou a divisão do texto em versículos.

Teodoro Beza (1519-1605) foi o sucessor de João Calvino em Genebra. Beza publicou nove edições do Novo Testamento, após a morte de seu famoso predecessor, em 1564, e uma edição póstuma, a décima, veio a lume em 1611. A mais saliente edição publicada por Beza surgiu em 1582, em que ele incluiu alguns textos do Códice Beza (D) e do Códice claromontano (o2). O fato dele usar pouquíssimo esses manuscritos pode-se atribuir a que diferiam muito radicalmente dos textos de Erasmo e da Complutense. Isso resultou em que as edições do Novo Testamento grego de Beza estavam de acordo, em geral, com a edição de Estéfano, de 1550. Sua influência está no fato de que tendia a popularizar e estereotipar o Textus receptus.
Os tradutores da versão do rei Tiago usaram a edição de Beza de 1588 a 1589.
Boaventura e Abraão Elzevir (1583-1652 e 1592-1652) produziram o texto recebido (Textus receptus). O texto de Estéfano divulgou-se por toda a Inglaterra, mas o de Boaventura e de Abraão tornou-se o mais popular do continente europeu. Tanto o tio quanto o sobrinho eram grandes empreendedores na área de publicações. A empresa deles em Leiden publicou sete edições do Novo Testamento entre 1624 e 1787. A edição de 1624 usou basicamente o texto da edição de Beza de 1565, e a segunda edição (1633) é a fonte do título dado a seu texto, como informa o prefácio: "Textum ergo habes, nunc ab omnibus receptum: in quo nihil immutatum aut corruptum damus".
Assim foi que do texto publicitário do editor tirou-se um termo atraente (textus receptus significa "texto recebido, aceito") para designar o texto grego que haviam captado das edições de Beza, de Ximenes e de Estéfano. Esse texto é quase idêntico ao de Estéfano, que serviu de base para a tradução do rei Tiago. No entanto, o texto básico era de origem muito recente, e tirado de um punhado de manuscritos; além disso, várias passagens foram inseridas que nenhum apoio tinham nos textos antigos. Só as novas descobertas de manuscritos confiáveis, nova classificação e comparação poderiam remediar a situação.

O período de crítica e de revisão (1648 até o presente)
No encerramento da era da Reforma, a Bíblia passou por um período de crítica e de revisão que, na verdade, se compõe de três períodos curtos. Cada subperíodo caracteriza-se por uma fase importante de crítica e de revisão, a saber, foram períodos de preparação, de progresso e de purificação. É importante que nos lembremos de que todas essas fases de crítica foram mais construtivas que destrutivas.

O período de preparação (1648-1831) caracterizou-se pela reunião e pela classificação de textos bíblicos. Quando Brian Walton (1600-1661) editou a Poliglota de Londres, incluiu os textos paralelos da edição de Estéfano, de 1550. Essa obra poliglota continha o Novo Testamento em grego, em latim, em sírio, em etíope, em árabe e em persa (os evangelhos). Nas anotações apareceram os vários textos paralelos recentemente descobertos do Códice alexandrino (A) e um aparato crítico feito pelo arcebispo Usher. Em 1675 John Fell (1625-1686) publicou uma edição anônima do Novo Testamento grego em Oxford que trazia evidências, pela primeira vez, das Versões gótica e boaírica. Então, em 1707, John Mill (1645-1707) reim¬primiu o texto de Estéfano, de 1550, e acrescentou cerca de 30 000 variantos tiradas de quase cem manuscritos. Essa obra foi uma contribuição monumental para os estudiosos subsequentes, porque lhes proporcio¬nou uma base ampla de evidências textuais confiáveis.
Richard Bentley (1662-1742) foi um importante estudioso clássico que emitiu um boletim em que anunciava um texto do Novo Testamento que ele jamais concluiu. No entanto, ele conseguiu que outras pessoas juntassem textos e traduções disponíveis para um exame intensivo. Entre esses estudiosos estavam Johann Albrecht Bengel (1687-1752), que esta¬beleceu um dos cânones básicos da crítica textual: deve-se preferir o texto difícil ao fácil. Um dos estudiosos que examinavam documentos ao lado de Bentley e havia demonstrado disposição desde o início para a crítica textual foi Johann Jakob Wettstein (1693-1754); foi ele quem publicou o primeiro aparato que identificava os manuscritos unciais com letras maiúsculas romanas e os manuscritos minúsculos com numerais arábicos. Ele também defendia o princípio sadio segundo o qual os manuscritos devem ser avaliados pelo seu peso autorizado, e não por seu número. O fruto de seus esforços ao longo de quarenta anos foi publicado em 1751-1752, em Amsterdã.
A reimpressão da obra Prolegomena, de Wettstein, se fez em 1764, por Johann Salomo Semler (1725-1791), conhecido como o "pai do racionalismo alemão". Ele seguiu o padrão estabelecido por Bengel de classificar os manuscritos por grupos, mas levou esse processo a um desenvolvimento maior. Semler foi o primeiro estudioso a aplicar o termo recensão a grupos de testemunhas do Novo Testamento. Ele identificou três dessas recensões: a alexandrina, a oriental e a ocidental. Todos os textos posteriores foram considerados por Semler como misturas desses textos básicos.
A pessoa que na verdade desenvolveu de modo completo os princípios de Bengel e de Semler foi Johann Jakob Griesbach (1745-1812). Ele classificou os manuscritos do Novo Testamento em três grupos (alexandrinos, ocidentais e bizantinos), e lançou os alicerces de todo o trabalho subsequente do Novo Testamento grego. Em sua obra, Griesbach estabeleceu quinze cânones de crítica textual. Logo depois de publicar a primeira edição do seu Novo Testamento (1775-1777), vários outros estudiosos publicaram colações que aumentaram enormemente a disponibilidade de evidências textuais oriundas dos pais da igreja, das primeiras versões e do texto grego.
Christian Friedrich Matthaei (1744-1811) publicou um aparato crítico valioso em seu Novo Testamento grego e latino, pois acrescentou novas evidências com base em traduções eslavas. Frary Karl Alter (1749-1804), estudioso jesuíta de Viena, acrescentou mais evidências com base em manuscritos eslavos e em mais vinte manuscritos gregos, além de outros manuscritos. De 1788 a 1801 um grupo de estudiosos dinamarqueses pu¬blicou quatro volumes de uma obra textual sob a direção de Andrew Birch (1758-1829). Nesses volumes, os textos do Códice vaticano (B) apareceram em tipo impresso pela primeira vez.
Enquanto isso, dois estudiosos católicos romanos trabalhavam intensamente num texto. Eram Johann Leonhard Hug (1765-1846) e seu discípulo Johannes Martin Augustinus Scholz (1794-1852), que desenvolveram a teoria segundo a qual uma "edição comum" (koine ekdosis) apareceu após a degeneração do texto do Novo Testamento, no século III. Scholz acrescentou 616 novos manuscritos ao crescente corpo de textos disponíveis, e salientaou, pela primeira vez, a importância de atribuir proveniência geográfica, que estaria representada por diversos manuscritos. Este último ponto foi ampliado por B. H. Streeter em 1924, como parte de sua teoria de "textos locais". Depois de algum tempo, Scholz adotou a classificação de manuscritos elaborada por Bengel e publicou um Novo Testamento em 1830-1836, que mostrava uma regressão para o Textus receptus, visto que ela seguia o texto bizantino, em vez do alexandrino. Somente em 1845 Scholz mudou seu parecer, favorecendo então os textos alexandrinos.

O período de progresso (1831-1881) é aquele em que surgiu a crítica construtiva, que se salientou no agrupamento de textos. O rompimento com o texto recebido se fez mediante homens como Karl Lachmann (1793-1851), que publicou o primeiro Novo Testamento grego inteiramente baseado num texto crítico e na avaliação de textos paralelos, ou variantes textuais; Lobegott Friedrich Constantin von Tischendorf (1815-1874), que procurou, descobriu e publicou manuscritos e textos críticos; Samuel Prideaux Tregelles (1813-1875), que serviu de instrumento para afastar a Inglaterra do texto recebido; e Henry Alford (1810-1871), que escreveu numerosos comentários e deitou por terra a reverência pedantesca e indevida ao texto recebido.
É preciso que se mencionem vários outros grandes estudiosos, nessa altura da história, visto que esses também desempenharam papéis-chave no desenvolvimento da crítica textual. Gaspar Rene Gregory completou a última edição do Novo Testamento grego de Tischendorf, com um prolegômeno (1894). Essa obra foi fonte principal de textos, da qual os estudiosos ainda dependem, bem como a base do catálogo universalmente aceito de manuscritos. Dois estudiosos de Cambridge, Brooke Foss Westcott (1825-1901) e Fenton John Anthony Hort (1828-1892), ficaram à altura de Tischendorf, pois fizeram contribuições impressionantes ao estudo do texto do Novo Testamento. Publicaram a obra The New Testament in the original Greek [O Novo Testamento no original grego] (1881-82), em dois volumes. O texto dessa obra ficou à disposição de uma comissão de revisão que produziu o English revised New Testament [Novo Testamento inglês revisado], em 1881. Suas concepções não eram originais, mas baseavam-se nas obras de Lachmann, de Tregelles, de Griesbach, de Tischendorf e de outros estudiosos. O emprego de seu texto para a English revised version [Versão inglesa revisada], e a explicação completa que apresentaram de suas opiniões, na introdução, fizeram crescer o índice de aceitação de seu texto crítico.
No entanto, alguns estudiosos defensores do texto recebido não pouparam esforços na argumentação contra o texto de Westcott e de Hort. Três desses foram John W. Burgon (1813-1888), que denunciou com toda a veemência o texto crítico, R H. A. Scrivener (1813-1891), que foi bem mais suave em sua crítica, e George Salmon (1819-1904), que lamentou a falta de peso atribuída aos textos "ocidentais" por parte de Westcott e de Hort.
A "teoria genealógica" de Westcott e de Hort dividiu os textos em quatro tipos: siríacos, ocidentais, neutros e alexandrinos. O tipo siríaco de texto inclui os textos siríacos propriamente ditos, os antioquinos e os bizantinos, como A, E, F, G, H, s, v, z e a maior parte dos minúsculos. O tipo ocidental de texto para Westcott e para Hort tinha raízes na igreja síria, mas havia sido levado mais longe, na direção do Ocidente, como se observa na Delta (A), na Antiga latina, na Siríaca e no texto da família Theta (9), tanto quanto se sabia. O tipo neutro de texto supostamente tinha origem no Egito e incluía os códices B e Aleph (
א). O quarto tipo era alexandrino e compreendia um número menor de testemunhos do Egito, que não eram do tipo neutro. Essa família compunha os textos c, L, a família 33, o Saídico e o Boaírico. De acordo com Westcott e Hort, houve um ancestral comum (א) na raiz do texto neutro e do alexandrino, que teria sido primitivo e muito puro.

O período de purificação (1881 até o presente) testemunhou a reação contra a teoria de Westcott e de Hort, que nada fizeram senão destronar o texto recebido e mais ainda: eliminar a possibilidade de surgimento de outros textos que seriam utilizáveis na crítica textual. Os principais oponentes do texto crítico foram Burgon e Scrivener, estando entre seus maiores defensores Bernhard Weiss (1827-1918), Alexander Souter (1873-1949) e outros. Os argumentos contra o texto crítico podem ser resumidos da seguinte forma: 1) o texto tradicional utilizado pela igreja durante l 500 anos deve ser correto por causa de sua durabilidade; 2) o texto tradicio¬nal possuía centenas de manuscritos que lhe eram favoráveis, enquanto o texto crítico só possuía uns poucos dos primitivos e 3) o texto tradicio¬nal é melhor porque é mais antigo. Após a morte de Burgon e de Scrivener, a oposição ao texto crítico foi encarada com menos seriedade pelos estudiosos.
Outro crítico da posição Westcott-Hort foi Hermann Freiherr von Soden (1852-1914). Esse estudioso iniciou sua obra numa base diferente da de Westcott e de Hort, mas confirmou em sua obra (Novo Testamento) muitas das descobertas daqueles dois. Embora contasse com volumosos recursos financeiros para seu trabalho, o empreendimento de Von Soden tem sido considerado um grande fracasso. No entanto, ele concordou com outros oponentes, ao afirmar que Westcott e Hort tinham uma magnífica noção da revisão siríaca, bem como do texto siríaco.
A situação encaminhou-se para a reinvestigação dos textos usados por Westcott e por Hort. Os resultados dessa crítica especializada, suma¬mente construtiva, podem ser vistos no status atual da teoria Westcott-Hort. Os tipos de textos foram reclassificados por causa das críticas de Von Soden e de outros estudiosos. A família siríaca recebeu novo nome: bizantina, ou antioquina, em vista da possibilidade de confundir-se com a Antiga siríaca. No momento existe um reconhecimento geral de que houve grande mistura entre os tipos de textos alexandrinos e neutros, e que ambos os tipos na verdade são variações ligeiras de tipos de textos da mesma família. É por isso que a designação de texto alexandrino inclui agora o texto neutro. Numa reavaliação do tipo de texto ocidental, os estudiosos apuraram a existência, na verdade, de três subgrupos — Códice D, Antiga latina e Antiga siríaca — pois os estudiosos concordam em que o texto em geral não é confiável, quando examinado em si mesmo. Desde o falecimento de Westcott, de Hort e de Von Soden, descobriu-se um novo tipo de texto: o cesareense. Trata-se de uma família de testos que fica a meio termo entre os textos alexandrinos e ocidentais, ou possivelmente mais perto dos ocidentais.
As mais recentes colações desses textos estão disponíveis nas obras de Eberhard Nestle, Novum Testamentum graece e The Greek New Testament [O Novo Testamento grego], da United Bible Societies, editadas por K. Alamd e outros. Em geral essas obras fazem uma classificação dos manuscritos da seguinte forma: alexandrinos, cesareenses, ocidentais e bizantinos. Visto que o texto recebido segue o texto bizantino, basicamente, é quase redundante afirmar que sua autoridade não é altamente considerada pelos estudiosos.

FONTES:
Fundamentos da Teologia Pentecostal – Editora Quadrangular.
Bíblia de Estudo de Genebra – Editora SBB
O Cristianismo Através dos Séculos - Editora Vida Nova
www.santovivo.net

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